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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.483 seguidores
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própria proposição que necessitamos assentar, mas, de preferência, alguma
coisa de que ela se deduza necessariamente: pois os oponentes admitem de
melhor grado a segunda por não verem com muita clareza o resultado que
delas advirá, e, uma vez assegurada essa, a outra estará assegurada também.
Por outro lado, deve-se mencionar em último lugar o ponto que mais se deseja
fazer admitir, pois as pessoas se inclinam especialmente a negar as primeiras
perguntas que se lhes fazem, uma vez que a maioria dos argumentadores, ao
interrogar, formula em primeiro lugar os pontos que está mais ansiosa de
assegurar. Por outro lado, ao tratar com certas pessoas, as proposições desta
espécie devem ser formuladas em primeiro lugar, porque os homens irascíveis
admitem com mais facilidade o que vem primeiro, a não ser que seja
demasiado visível a conclusão que daí advirá, e só no fim da argumentação
costumam manifestar o seu mau gênio. E do mesmo modo com os que se
julgam hábeis em contestar: pois, quando tiverem admitido a maior parte do
que desejamos, acabarão fazendo objeções despropositadas, pretendendo
mostrar que a conclusão não se segue do que eles próprios admitiram; e
contudo dizem "sim" prontamente, confiando nos seus poderes e imaginando
que não poderão sofrer nenhum revés. Além disso, é bom expandir o
argumento, introduzindo coisas que ele não exige em absoluto, como fazem os
que desenham falsas figuras geométricas: com efeito, multidão de detalhes
obscurece o ponto a que vai dar finalmente o argumento capcioso. Por essa
mesma razão, o que interroga insinua também às vezes, sem ser notado e
como de passagem, alguma coisa que não seria admitida se fosse formulada
por si mesma.

Para fins de dissimulação, pois, as regras a seguir são as que mencionamos
acima. O adorno se obtém por meio da indução e da distinção de coisas que
são estreitamente afins. Já foi sobejamente explicado que tipo de processo é a
indução: quanto ao outro, temos um exemplo do que ele significa na distinção
de uma forma de conhecimento como superior a outra, ou por ser mais exata,
ou por se ocupar com objetos melhores; outro exemplo é a distinção das
ciências em especulativas, práticas e produtivas. Pois, em verdade, todas as
coisas desta espécie trazem um adorno adicional ao argumento, embora não
haja necessidade de usá-las para chegar à conclusão.

A bem da clareza, convém aduzir exemplos e comparações, e todas essas
ilustrações devem ser relevantes e colhidas em obras que conhecemos, como,
por exemplo, em Homero e não em Querilo. Isso, provavelmente, tornará mais
clara a proposição.

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Na dialética, o silogismo deve ser empregado de preferência ao raciocinar
contra os dialéticos e não contra a multidão; no que toca a esta, pelo contrário,
a indução é muito mais útil. Já tratamos anteriormente deste ponto. Na
indução, é possível em alguns casos apresentar a questão sob a sua forma
universal, mas em outros isso não é fácil, por não haver nenhum termo
estabelecido que abranja todas as semelhanças. Nestes últimos, quando é
preciso assegurar o universal, usa-se a frase "em todos os casos deste tipo".
Nada mais difícil, porém, do que distinguir quais das coisas aduzidas são
"desse tipo", e quais não o são; e é aí que muitas vezes uns lançam poeira nos
olhos dos outros ao discutirem, afirmando um dos lados a semelhança de
coisas que não têm afinidade entre si e negando o outro a semelhança de
coisas que realmente a possuem. Deve-se, por isso, tentar cunhar por si
mesmo uma palavra que abranja todas as coisas da espécie dada, de modo que
não se deixe ao adversário nenhuma oportunidade de disputar, alegando que a
coisa proposta não corresponde a uma descrição igual, nem ao defendente de
sugerir em falso que ela de fato corresponde a tal descrição, pois muitas coisas
que parecem corresponder a descrições iguais não lhes correspondem em
realidade.

Quando se fez uma indução fundada em vários casos e, apesar disso, o
adversário se recusa a conceder a proposição universal, é licito exigir que ele
formule a sua objeção. Mas enquanto não tivermos nós mesmos determinado
em que casos é assim, não é oportuno querer forçá-lo a apontar em que casos
não é assim: pois primeiro se deve fazer a indução e depois solicitar a objeção.
Deve-se, além disso, exigir que as objeções não sejam feitas em relação ao
sujeito atual da proposição, a menos que esse sujeito seja a única coisa de sua
espécie, como, por exemplo, dois é o único número primo entre os números
pares; pois, a menos que se possa dizer que esse sujeito é o único de sua
espécie, o objetante deve formular suas objeções com respeito a algum outro
sujeito. Por vezes as pessoas objetam a uma proposição universal dirigindo
sua objeção não contra a própria coisa mas contra algum seu homônimo:
argumentam, por exemplo, que um homem pode perfeitamente possuir uma
cor, uma mão ou um pé outro que não o seu próprio, já que um pintor pode ter
uma cor distinta da sua própria, e um cozinheiro um pé ou uma mão distintos
dos seus próprios. Para fazer frente a isso deve-se, portanto, estabelecer a
distinção antes de formular a pergunta em tais casos: pois, enquanto a
ambigüidade permanecer despercebida, se considerará válida a objeção feita à
proposição. Se, porém, ele atalha a série de perguntas com uma objeção que

não se refere a algum homônimo, mas à própria coisa afirmada, o defendente
deve retirar o ponto contra o qual se objetou e formar com o resto uma
proposição universal, até assegurar o que necessita. Tome-se como exemplo o
caso do esquecimento e do ter esquecido: as pessoas se recusam a admitir que
o homem que perdeu o conhecimento de alguma coisa esqueceu-a, pois, se a
coisa se tiver alterado, ele perdeu o conhecimento dela sem contudo havê-la
esquecido. O que se deve fazer neste caso é retirar a parte contra a qual se
objetou e afirmar o resto, isto é: que se um homem perdeu o conhecimento de
uma coisa enquanto esta permanece a mesma, então esqueceu-a. Devem-se
tratar do mesmo modo aqueles que objetam à afirmação de que "quanto maior
o bem, maior o mal que é o seu oposto", alegando que a saúde, que é um bem
menor do que o vigor, tem como oposto um mal maior, já que a doença é um
mal maior do que a fraqueza. Também aqui, o que cumpre fazer é retirar o
ponto contra o qual se objetou; pois, uma vez excluído este, é mais provável
que o objetante admita a proposição emendada, isto é, que "o maior bem tem
como oposto o maior mal, a menos que um dos bens implique também o
outro", como o vigor implica a saúde. Isto se deve fazer não só quando ele
formula uma objeção, mas também quando, sem formulá-la, se nega a admitir
o ponto de vista porque prevê algo dessa espécie; com efeito, se retirarmos o
ponto discutível, ele será forçado a admitir a proposição porque não distingue
nela, tal como é formulada, nenhum caso em que possa não ser verdadeira;
mas, se ainda assim se recusa a admiti-la, será certamente incapaz de formular
uma objeção quando esta lhe for solicitada. Pertencem a este tipo as
proposições que são em parte verdadeiras e em parte falsas, pois no caso
destas é possível retirar uma parte e fazer com que o resto seja verdadeiro. Se,
contudo, formularmos a proposição fundando-nos em grande número de casos
e ele não tiver objeção a fazer, podemos exigir que a admita, pois em dialética
uma premissa é válida quando se assegura assim em vários casos e não se
apresenta nenhuma objeção contra ela.

Sempre que é possível chegar pelo raciocínio à mesma conclusão, quer por
meio de uma redução ao impossível, quer sem ela, se estamos demonstrando e
não discutindo dialeticamente, é indiferente que adotemos este ou aquele
método de raciocínio; mas, ao argumentar com outra pessoa, deve-se evitar a
redução ao impossível. Com efeito, quando se raciocina sem recorrer a ela não
pode surgir