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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.501 seguidores
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de igual maneira também no caso de
termos usados obscuramente, isto é, em vários sentidos. Porque ao
respondente, se não compreende, sempre é licito responder: "não
compreendo"; nada o obriga a responder "sim" ou "não" a uma pergunta que
pode significar várias coisas. É evidente, pois, em primeiro lugar, que se o que
se disse não é claro, ele não deve hesitar em responder que não compreendeu,
pois muitas vezes as pessoas se vêem em dificuldade por ter assentido a
perguntas que não foram formuladas com clareza. Se ele entende a pergunta,
mas esta comporta muitos sentidos, supondo-se que o que ela diz é
universalmente verdadeiro ou falso, deve assentir ou negar sem restrição
alguma; se, por outro lado, é parcialmente verdadeira e parcialmente falsa,
deve observar que ela comporta diferentes significados, e também que num
destes é verdadeira e em outro falsa; porque, se deixar essa distinção para mais
tarde, haverá incerteza sobre se percebeu ou não a ambigüidade desde o
começo. Se não prevê a ambigüidade, mas assente à pergunta tendo em vista
um só sentido das palavras e depois o que propõe a questão a toma no outro
sentido, ele deve dizer: "Não era isto o que eu tinha em vista quando fiz a
concessão; referia-me ao outro sentido"; porque, se o termo ou expressão
abrange mais de uma coisa, é fácil discordar. Se, porém, a pergunta é clara e
simples, deve-se responder "sim" ou "não".

8

Quando se raciocina, uma premissa é sempre um dos elementos
constituintes do raciocínio, ou então contribui para estabelecer um desses
elementos (e sempre se pode saber que se procura assegurá-la a fim de
estabelecer alguma outra coisa quando se faz uma série de perguntas
semelhantes: pois, por via de regra, as pessoas asseguram os universais quer
por meio da indução, quer da semelhança): portanto, devem-se admitir todas
as proposições particulares quando são verdadeiras e geralmente aceitas.
Contra as universais, por outro lado, deve-se tentar apresentar algum exemplo
negativo: pois fazer parar um argumento sem ter à mão um caso ou exemplo
negativo, seja ele real ou aparente, é indicio de má fé. Se, portanto, um
homem se recusa a conceder o universal quando apoiado em muitos exemplos,
embora ele não tenha nenhum exemplo negativo para mostrar, evidentemente
esse homem mostra possuir mau gênio ou mau caráter. Se, além disso, ele não
tenta sequer demonstrar a falsidade do argumento, mais probabilidade terá de
ser considerado um homem de má fé - se bem que mesmo uma contraprova
seja insuficiente: pois muitas vezes ouvimos argumentos que são contrários à
opinião comum e cuja solução é, não obstante, difícil, como, por exemplo, o
argumento de Zenon quando afirma que é impossível mover-se ou atravessar o
estádio; mas, ainda assim, não há nenhuma razão para deixar de enunciar os
opostos de tais opiniões. Se, pois, um homem se recusa a admitir uma
proposição sem ter sequer um exemplo negativo ou algum contra-argumento
para apresentar contra ela, é evidente que se trata de um homem de má fé, pois
a má fé na argumentação consiste em responder de maneiras diferentes das
indicadas acima, com o propósito de introduzir a desordem no raciocínio.

9

Antes de sustentar uma tese ou definição, o respondente deve exercitar-se
em atacá-la por si mesmo: pois evidentemente sua tarefa consiste em fazer
frente àquelas posições das quais os inquiridores tratam de demolir o que ele
estabeleceu.

Deve ter o cuidado de não sustentar uma hipótese que seja geralmente
rejeitada - e isso pode ocorrer de duas maneiras: ou será uma hipótese que
resulte em afirmações absurdas (supondo-se, por exemplo, que alguém
sustentasse que todas as coisas estão em movimento ou que nada se move), ou
então será uma daquelas que só um homem de má fé escolheria e que se
opõem implicitamente aos desejos dos homens por exemplo, que o prazer é o
bem, e que cometer injustiça é melhor do que sofrê-la. Pois um homem dessa
espécie é detestado, supondo os outros que ele sustenta tais coisas não pelo
gosto de discutir, mas porque realmente assim pensa.

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De todos os argumentos que conduzem a uma conclusão falsa, a solução
certa é demolir o ponto de onde se origina a falsidade: pois demolir um ponto
qualquer não é uma solução, mesmo que o ponto demolido seja falso. Com
efeito, um argumento pode conter muitas falsidades: suponha-se, por exemplo,
que alguém tenha assegurado as premissas: "quem está sentado escreve" e
"Sócrates está sentado", de onde se conclui que "Sócrates está escrevendo".
Ora, num caso como este, podemos demolir a proposição "Sócrates está
sentado" sem que, por isso, nos aproximemos da solução do argumento; a
proposição pode ser realmente falsa, mas não é dela que depende a falsidade
do argumento: porque, supondo-se que alguém estivesse sentado sem estar
escrevendo, seria impossível, em tal caso, aplicar a mesma solução. Por
conseguinte, não é isso que deve ser refutado, mas sim que "quem está
sentado, escreve": pois quem está sentado nem sempre escreve. Aquele, pois,
que refutou o ponto do qual depende a falsidade deu a solução completa do
argumento. Quem sabe que é de tal e tal ponto que depende o argumento
conhece a sua solução, exatamente como no caso de uma figura geométrica
falsamente traçada. Pois não é suficiente objetar, mesmo que o ponto refutado
seja uma falsidade, mas também é preciso provar a razão do erro: porque
então se porá em evidência se o homem objeta com clara visão do assunto ou
não.

Há quatro maneiras possíveis de impedir que alguém leve o seu argumento
até a conclusão. Isso se pode fazer quer demolindo o ponto de que depende a
falsidade resultante, quer formulando uma objeção dirigida contra o
inquiridor: pois muitas vezes, quando não se chegou ainda a uma solução
efetiva, o que formula as questões é incapacitado, por esse meio, de levar
adiante o seu argumento. Em terceiro lugar, pode-se objetar às perguntas
feitas, pois não raro sucede que aquilo que o inquiridor pretende não se siga
das perguntas feitas porque estas foram mal formuladas, mas, se um ponto
adicional for concedido, a conclusão se efetivará. Se, pois, o inquiridor for
incapaz de levar adiante o seu argumento, a objeção será propriamente
dirigida contra ele; se pode fazê-lo, por outro lado, a objeção terá por alvo as
suas perguntas. A quarta e pior espécie de objeção é a que se reflete no tempo
estipulado para a discussão, pois algumas pessoas formulam objeções de tal
sorte que se levaria mais tempo a respondê-las do que a discussão comporta.

Há, pois, como dissemos, quatro maneiras de fazer objeções, mas de todas
elas só a primeira constitui uma solução; as outras não são mais que
empecilhos e tropeços para impedir que se chegue às conclusões.

11

A crítica adversa de um argumento fundada nos seus próprios méritos e a
critica do mesmo tal como é apresentada em forma de perguntas são duas
coisas distintas. Com efeito, muitas vezes a incapacidade de conduzir o
argumento de maneira correta na discussão se deve ao interrogado, que se
nega a conceder os passos mediante os quais se poderia formular um
argumento correto contra a sua posição: pois não está ao alcance de uma só
das partes chegar adequadamente a um resultado que depende igualmente de
ambas. Por isso é às vezes necessário atacar a própria pessoa que fala e não a
sua posição, quando o respondente se mantém na expectativa, atento aos
pontos que sejam desfavoráveis ao inquiridor, e se toma também desaforado;
porque, quando as pessoas perdem o domínio próprio dessa maneira, o
argumento converte-se numa contenda e deixa de ser uma discussão. Além
disso, como as discussões dessa espécie não têm em vista a instrução, mas sim
o adestramento e a pesquisa, evidentemente se deve raciocinar não apenas
para chegar a conclusões verdadeiras mas também a conclusões falsas,