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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.446 seguidores
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que se refere à alma como ao corpo.

Examinem-se igualmente as formas derivadas. Pois, se "justamente" tem
mais de um sentido, 'justo" também será usado em mais de um significado,
porquanto haverá um acepção de "justo" correspondente a cada acepção de
"justamente"; por exemplo, se a palavra "justamente" se emprega no sentido
de julgar de acordo com a sua própria opinião, e também no de julgar como se
deve, então "justo" será usado de igual maneira. Analogamente, se "saudável"
tem mais de um significado, "saudavelmente" também será usado em mais de
uma acepção; por exemplo, se "saudável" significa tanto o que produz saúde e
o que a conserva como o que dá mostras de saúde, "saudavelmente" também
será usado nos sentidos: "de maneira a produzir", ou a "conservar", ou a "dar
mostras de" saúde. E do mesmo modo nos outros casos, sempre que o termo
original comporte mais de um significado, o termo que dele se deriva será
usado em mais de um significado, e vice-versa.

Considerem-se também as classes de predicados que o termo significa,
procurando ver se são as mesmas em todos os casos. Porquanto, se não forem
as mesmas, o termo será evidentemente ambíguo; por exemplo: "bom", no
caso de alimentos, significa "que causa prazer"; e, no caso de medicamentos,
"que promove a saúde", ao passo que, se o aplicarmos à alma, significará a
posse de certa qualidade, como a de ser temperante, corajoso ou justo; e do
mesmo modo quando aplicado a "homem". Por vezes significa o que acontece
em determinada ocasião, como, por exemplo, o "bom" que acontece na
ocasião oportuna, pois ao que acontece na ocasião oportuna chamamos "bom".
Não raro significa o que existe em determinada quantidade, por exemplo;
quando se aplica à quantidade apropriada; pois a quantidade apropriada
também é chamada boa. Por tudo isso se vê que o termo "bom" é ambíguo. E,
analogamente, "claro", quando aplicado a um corpo, significa uma cor, mas
em referência a uma nota designa o que é fácil de ouvir . "Agudo" é também
um caso que tem estreita semelhança com este, pois o mesmo termo não
possui o mesmo significado em todas as suas aplicações; com efeito, uma nota
aguda é uma nota rápida, como nos ensinam todos os teóricos matemáticos da
harmonia, ao passo que um ângulo agudo é aquele que é menor do que um
ângulo reto, enquanto um punhal agudo é o que possui uma ponta penetrante
(pontiagudo).

Atenda-se também aos gêneros dos objetos designados pelo mesmo termo,
e veja-se se são diferentes sem ser subordinados um ao outro, como, por
exemplo, "gato", que designa tanto o animal como o utensílio. Com efeito, as
definições correspondentes ao nome são diferentes em cada caso: num deles
se dirá que é um animal de determinada espécie, e no outro um utensílio usado
para certo fim. Se, contudo, houver subordinação entre os gêneros, não é
necessário que as definições sejam diferentes. Assim, por exemplo, "animal" é
o gênero de "corvo" e também de "ave". Por conseguinte, sempre que dizemos
que o corvo é uma ave, também dizemos que ele é uma determinada espécie
de animal, de modo que ambos os gêneros se predicam dele. E igualmente,
sempre que dizemos que o corvo é um "animal bípede voador", classificamo-
lo como ave; e assim, também desta maneira ambos os gêneros se predicam de
corvo, bem como a sua definição. Isso, porém, não acontece no caso dos
gêneros que são subalternos, pois sempre que chamamos uma coisa de
"utensílio" não a chamamos de animal, e vice-versa.

É também preciso prestar atenção e ver se não somente os gêneros dos
termos que temos diante de nós são diferentes sem ser subalternos, mas
também se isso acontece com os seus contrários: pois, se o contrário comporta
diversas acepções, evidentemente o termo que temos diante de nós também as
comporta.

É igualmente útil examinar a definição que cabe ao termo usado em
combinação, por exemplo, de um "corpo claro" e de uma "nota clara". Porque
se abstrairmos aqui o que é peculiar a cada caso, a mesma expressão deve
permanecer. Isso não acontece no caso dos termos ambíguos como os que
acabamos de mencionar. Porque o primeiro será "um corpo que possui tal e tal
cor", enquanto o segundo será "uma nota fácil de ouvir". Retiremos, pois, "um
corpo" e "uma nota", e o que resta não é o mesmo em cada caso. Deveria,
contudo, ser o mesmo se as acepções de "claro" fossem sinônimas em ambos
os casos.

Muitas vezes a ambiguidade também se insinua sem ser notada nas
próprias definições, motivo pelo qual cumpre examinar também estas. Se, por
exemplo, alguém definir o que dá mostras de saúde e o que a promove como
"relacionado comensuravelmente com a saúde", não devemos dar isso de
barato, mas examinar em que sentido nosso adversário usou o termo
"comensuravelmente" em cada caso, por exemplo, se no segundo significa
"que é em quantidade adequada para promover a saúde", e no primeiro "que é
de índole a manifestar que espécie de estado prevalece".

Além disso, é preciso ver se os termos não podem ser comparados como
"mais ou menos" ou "de igual maneira", como sucede, por exemplo, com um
som "claro" e uma roupa "clara", ou uma nota "aguda" e um sabor "agudo"
(isto é, picante). Com efeito, não se diz que essas coisas sejam "claras" ou
"agudas" em grau igual, nem que uma é mais clara ou mais aguda do que a
outra. Donde se segue que "claro" e "agudo" são ambíguos, dado que os
sinônimos são sempre comparáveis: sempre se empregam da mesma maneira,
ou então em grau maior num dos casos.

Ora bem: como nos gêneros que são diferentes sem ser subalternos as
diferenças também são diferentes em espécie, por exemplo, as de "animal" e
de "conhecimento" (pois as diferenças destes dois gêneros são, com efeito,
diferentes), é preciso ver se os significados compreendidos sob o mesmo
termo são diferenças de gêneros que diferem entre si sem ser subalternos,
como, por exemplo, "agudo" o é de uma nota e de um sólido. Porque o ser
"agudo" diferencia uma nota de outra, e de igual modo um sólido de outro.
"Agudo e, pois, um termo ambíguo, por expressar diferenças de gêneros que
diferem entre si sem ser subalternos.

É preciso ver também se os próprios significados incluídos sob o mesmo
termo têm diferenças distintas, como a "cor" nos corpos e a "cor" ou
"cromatismo" nas melodias, pois as diferenças da "cor" nos corpos se
distinguem e se comparam por meio da vista, ao passo que a "cor" nas
melodias não possui as mesmas diferenças.

Além disso, como a espécie nunca é a diferença de coisa alguma, deve-se
examinar atentamente se um dos significados incluídos sob o mesmo termo é
uma espécie e o outro uma diferença, como, por exemplo "claro" (isto é,
"branco") aplicado a um corpo é uma espécie de cor, ao passo que no caso de
uma nota é uma diferença, pois uma nota se diferencia de outra pelo fato de
ser "clara".

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A presença de vários significados num termo pode, pois, ser investigada
por estes meios e outros semelhantes. As diferenças que as coisas apresentam
entre si devem ser examinadas dentro do mesmo gênero, por exemplo: "em
que a justiça difere da coragem e a sabedoria da temperança?" - pois todas
essas coisas pertencem ao mesmo gênero; e também um gênero de outro,
contanto que não estejam muito afastados, por exemplo: "em que a sensação
difere do conhecimento?", pois no caso dos gêneros muito afastados um do
outro as diferenças são perfeitamente óbvias.

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A semelhança deve ser estudada, em primeiro lugar, nas coisas que
pertencem a gêneros diferentes, segundo a fórmula: A:B = C:D (por exemplo,
o conhecimento relaciona-se com o objeto de conhecimento assim como a
sensação se relaciona com o objeto de sensação), e "assim como A está em B,
do mesmo modo C está em D" (por exemplo, assim como a visão está no olho,
a razão está na alma, e assim como a calma está no mar, está a falta de