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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.487 seguidores
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vento
no ar). A prática se faz especialmente necessária quando os termos estão
muito afastados entre si, pois nos outros poderemos ver mais facilmente, de
um relance, os pontos de semelhança. Devemos também examinar as coisas
que pertencem a um mesmo gênero para ver se todas elas possuem um
atributo idêntico - por exemplo, um homem, um cavalo e um cão -, pois, na
medida em que possuem algum atributo idêntico, são semelhantes entre si.

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É útil ter examinado a pluralidade de significados de um termo, tanto no
interesse da clareza (pois um homem está mais apto a saber o que afirma
quando tem uma noção nítida do número de significados que a coisa pode
comportar), como para nos certificarmos de que o nosso raciocínio estará de
acordo com os fatos reais e não se referirá apenas aos termos usados. Pois,
enquanto não ficar bem claro em quantos sentidos se usa um termo, pode
acontecer que o que responde e o que interroga não tenham suas mentes
dirigidas para a mesma coisa; ao passo que, depois de se haver esclarecido
quantos são os significados, e também qual deles o primeiro tem em mente
quando faz a sua asserção, o que pergunta pareceria ridículo se deixasse de
dirigir seus argumentos a esse ponto.

Isso também nos ajuda a evitar que nos enganem e que enganemos os
outros com falsos raciocínios; porque, se conhecemos o número de
significados de um termo, certamente nunca nos deixaremos enganar por um
falso raciocínio, pois perceberemos facilmente quando o que interroga deixa
de encaminhar seus argumentos ao mesmo ponto: e, quando somos nós
mesmos que interrogamos, poderemos induzir nosso adversário em erro se ele
não conhece o número de significados do termo. Isso, todavia, não é sempre
possível, mas somente quando, dos múltiplos sentidos, alguns são verdadeiros
e outros são falsos. Entretanto, essa forma de argumentar não pertence
propriamente à dialética; os dialéticos devem abster-se por todos os meios
desse tipo de discussão verbal, a não ser que alguém seja absolutamente
incapaz de discutir de qualquer outra maneira o tema que tem diante de si.

Descobrir as diferenças das coisas nos ajuda tanto nos raciocínios sobre a
identidade e a diferença, como também a reconhecer a essência de cada coisa
particular. Que nos ajuda a raciocinar sobre a identidade e a diferença, é
evidente: pois, após descobrirmos uma diferença qualquer entre os objetos que
temos diante de nós, já teremos mostrado que eles não são o mesmo; e ajuda-
nos a reconhecer o que é urna coisa, porque geralmente distinguimos a
expressão própria da essência de cada coisa particular por meio das diferenças
que lhe são próprias.

O exame da semelhança é útil tanto para os argumentos indutivos como
para os raciocínios hipotéticos, bem assim como para a formulação de
definições. É útil para os argumentos indutivos, porque é por meio de uma
indução de casos individuais semelhantes que pretendemos pôr em evidência o
universal; e isso não é fácil quando ignoramos os pontos de semelhança. É útil

para os raciocínios hipotéticos porque, entre semelhantes, de acordo com a
opinião geral, o que é verdadeiro de um é também verdadeiro dos demais. Se,
pois, em relação a qualquer deles estivermos bem supridos de materiais para
discussão, garantiremos a aceitação preliminar de que, como quer que seja
nesses casos, também assim será no caso que temos diante de nós; portanto,
quando tivermos demonstrado o primeiro, teremos também demonstrado, em
virtude da hipótese, o caso que nos interessa particularmente; pois primeiro
havíamos estabelecido a hipótese de que, como quer que fosse nesses casos,
também seria no caso que tínhamos diante de nós, e a seguir provamos nossa
tese no tocante àqueles casos. E é útil na formulação de definições porque, se
podemos ver num relance de olhos o que é idêntico em cada caso individual
do sujeito, não nos dará nenhum trabalho determinar o gênero em que deve ser
incluído o objeto que temos diante de nós quando se tratar de defini-lo: com
efeito, dentre os predicados comuns, o que pertence de maneira mais definida
à categoria da essência é provavelmente o gênero. E, do mesmo modo,
também no caso de objetos que divergem largamente uns dos outros1 o exame
da semelhança é útil para os fins da definição, como, por exemplo, a
identidade da calma no mar e da ausência de vento no ar (pois cada uma delas
é uma forma de repouso), e de um ponto na linha e da unidade num número,
por ser cada um deles um ponto de origem. Se, pois, dermos como o gênero o
que é comum a todos os casos, ninguém poderá objetar que definimos de
maneira inadequada. É, aliás, dessa maneira que os amigos de definições as
fazem quase sempre, afirmando, por exemplo, que a unidade é o ponto de
partida do número e que o ponto é o ponto de origem da linha. É evidente,
pois, que tomam como gênero dessas coisas aquilo que é comum a ambas.

São estes, por conseguinte, os meios pelos quais se efetuam os raciocínios;
os tópicos, ou lugares para cuja observância são úteis os argumentos
mencionados acima são os seguintes.

Livro II

1

Dos problemas, alguns são universais e outros são particulares. Problemas
universais são, por exemplo: "todo prazer é bom" e "nenhum prazer é bom"; e
problemas particulares: "alguns prazeres são bons" e "alguns prazeres não são
bons".

Os métodos para estabelecer e lançar por terra universalmente uma opinião
são comuns a ambas as espécies de problemas; pois, quando demonstramos
que um predicado se aplica a todos os casos de um sujeito, também
demonstramos que ele se aplica a alguns casos. E do mesmo modo, quando
demonstramos que ele não se aplica a algum caso, também demonstramos que
não se aplica a todos os casos. Em primeiro lugar, pois, falaremos dos
métodos de rebater universalmente um ponto de vista, pois esses são comuns
tanto aos problemas universais como aos particulares, e porque as pessoas
mais comumente estabelecem teses afirmando predicados do que negando-os,
enquanto os que discutem com elas procuram rebatê-los.

A conversão de um nome apropriado que se deriva do elemento "acidente"
é uma coisa extremamente precária, pois no caso do acidente, e em nenhum
outro, é possível que uma coisa seja condicional e não universalmente
verdadeira. Os nomes derivados dos elementos "definição", "propriedade" e
"gênero" são necessariamente conversíveis; por exemplo, se "ser um animal
que anda com dois pés é um atributo de S", também será verdadeiro dizer, por
conversão, que "S é um animal que anda com dois pés". E do mesmo modo
quando se deriva do gênero; porque, se "ser um animal é um atributo de S",
então "S é um animal". E igualmente no caso de uma propriedade, pois se "ser
capaz de aprender gramática é um atributo de S", então "S será capaz de
aprender gramática". Com efeito, nenhum destes atributos pode pertencer ou
deixar de pertencer ao seu sujeito em parte: devem pertencer ou não pertencer
de forma absoluta. No caso dos acidentes, por outro lado, nada impede que um
atributo (a brancura ou a justiça, por exemplo) pertença em parte ao seu
sujeito, de modo que não basta mostrar que a brancura ou a justiça é um
atributo de um homem para provar que ele é branco ou justo, pois isso fica
sujeito a contestação e a dizer-se que ele é branco ou justo apenas em parte. A
conversão, por conseguinte, não se dá necessariamente no caso dos acidentes.

Devemos também definir os erros que ocorrem nos problemas. São eles de
duas espécies, causados ou por um juízo falso, ou por uma transgressão da
linguagem corrente. Porquanto aqueles que formulam juízos falsos, afirmando
que um atributo pertence a uma coisa quando não lhe pertence, cometem um

erro; e aquele que chama os objetos pelos nomes de outros objetos (por
exemplo, chamando homem a um plátano) transgride a terminologia
estabelecida.