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Ora bem: uma regra ou tópico é examinar se um homem atribuiu como
acidente o que pertence ao sujeito de alguma outra maneira. Esse erro se
comete mais comumente no que se refere aos gêneros das coisas, como, por
exemplo, se alguém dissesse que o branco é acidentalmente uma cor, pois ser
uma cor não é um acidente do branco, mas sim o seu gênero. O que afirma
pode, naturalmente, defini-lo assim, usando essas mesmas palavras e dizendo,
por exemplo, que "a justiça é acidentalmente uma virtude"; muitas vezes,
porém, mesmo sem tais definições, é evidente que ele apresentou o gênero
como se fosse um acidente; suponha-se, por exemplo, que alguém dissesse
que a brancura é colorida ou que o passear está em movimento. Com efeito,
um predicado derivado do gênero nunca se aplica à espécie sob uma forma
derivada ou inflectida, mas os gêneros sempre se predicam literalmente das
espécies, já que as espécies assumem tanto o nome como a definição de seus
gêneros. Portanto, o homem que diz que o branco é "colorido" não apresentou
"colorido" como o gênero do branco, visto ter usado uma forma derivada, nem
tampouco como uma propriedade sua ou como a sua definição; pois a
definição e a propriedade de uma coisa pertencem a ela e a nada mais, ao
passo que há muitas coisas, além do branco, que são coloridas, como um
lenho, uma pedra, um homem, um cavalo. É evidente, pois, que ele o expressa
como um acidente.

Outra regra é examinar todos os casos em que se afirmou ou se negou
universalmente que um predicado pertence a alguma coisa. É preciso encará-
las espécie por espécie, e não em sua infinita multidão, pois assim a pesquisa
será mais direta e mais rápida. Deve-se considerar primeiro os grupos mais
primários e começar por eles, avançando em ordem até aqueles que já não são
divisíveis. Se, por exemplo, um homem disse que o conhecimento dos opostos
é o mesmo, deve-se examinar se assim é no tocante aos opostos relativos, aos
contrários, aos termos que significam a privação ou a presença de certos
estados, e aos termos contraditórios. Depois, se a consideração desses casos
não nos forneceu nenhum resultado evidente, devemos dividi-los novamente
até chegar aos que já não são divisíveis, e examinar, por exemplo, se assim
acontece com os atos justos e injustos, ou com o dobro e a metade, ou com a
cegueira e a visão, ou com o ser e o não-ser; porque, se em qualquer desses
casos se demonstra que o conhecimento que se tem dos opostos não é o
mesmo, teremos demolido o problema. E com tanto mais razão se o predicado
não pertence ao sujeito em nenhum caso.

Esta regra é conversível com fins tanto destrutivos como construtivos;
porque, se depois de termos sugerido uma divisão, o predicado parece ser
válido em todos os casos ou em grande número deles, podemos exigir que o
outro o afirme universalmente, ou então apresente um exemplo negativo para
mostrar em que caso o predicado não é válido, já que, se ele não fizer
nenhuma dessas coisas, o negar-se a afirmar o colocará numa posição absurda.

Outra regra é dar definições tanto de um acidente como do seu sujeito,
quer de ambos separadamente, quer de um deles só, e depois examinar se
alguma falsidade foi admitida como verdadeira nas definições. Assim, por
exemplo, para ver se é possível fazer injustiça a um deus, pergunte-se o que é
"fazer injustiça". Porque, se é "causar dano deliberadamente", é evidente que
não se pode fazer injustiça a um deus, porque Deus não é passível de qualquer
espécie de dano. Ou, então, para ver se o homem bom é invejoso, pergunte-se
quem é o homem "invejoso" e o que é "inveja". Porque, se a inveja" é a dor
causada pelo êxito aparente de uma pessoa de boa conduta, evidentemente o
homem bom não é invejoso, porque, nesse caso, seria mau. Ou ainda, para ver
se o homem indignado é invejoso, pergunte-se o que é cada um deles, pois
desse modo será posto em evidência se a afirmação é verdadeira ou falsa: por
exemplo, se é "invejoso" aquele que se desgosta com os êxitos dos bons e fica
"indignado" o que se magoa com os êxitos dos maus, é evidente que o homem
indignado não será invejoso.

Devemos também substituir os termos contidos em nossas definições por
outras definições, e não nos determos até que cheguemos a um termo familiar;
porque muitas vezes, se a definição se formula inteira, o ponto em questão não
fica aclarado, mas, se substituirmos um dos termos usados na definição pela
sua própria definição, ele se tornará evidente.

Além disso, devemos nós mesmos apresentar o problema sob a forma de
uma proposição e depois aduzir um exemplo negativo contra ela, pois esse
exemplo negativo será uma base de ataque à asserção. Esta regra é quase
idêntica àquela que nos manda examinar os casos em que um predicado foi
afirmado ou negado universalmente, mas difere dela no arranjo do argumento.

Deve-se, também, definir que espécies de coisas devem ser chamadas
como as chama a maioria dos homens, e quais as que devem receber outro
nome. Porque isso é útil tanto para estabelecer como para rebater um ponto de
vista: por exemplo, diríamos que nossos termos devem ser usados para
significar as mesmas coisas que a maioria das pessoas significam com eles,
mas quando perguntamos que classe de coisas são de tal ou tal espécie, não

devemos acompanhar aqui a multidão: por exemplo, é acertado chamar de
"saudável" tudo que tende a promover a saúde, como faz a maioria dos
homens; mas ao dizer se o objeto que temos diante de nós tende ou não a
promover a saúde, já não convém adotar a linguagem da multidão, e sim a do
médico.

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Além disso, se o termo é usado em diversos sentidos e se estabeleceu que
ele é ou não é um atributo de S, deve-se demonstrar o argumento pelo menos
num dos vários sentidos, se não é possível fazê-lo em todos. Esta regra deve
ser observada nos casos em que a diferença de significados passa
despercebida; pois, supondo-se que ela seja evidente, o adversário objetará
que o ponto que ele pôs em questão não foi discutido, mas sim um outro
ponto. Este tópico ou lugar é conversível tanto com o fim de estabelecer um
ponto de vista como de lançá-lo por terra. Porque, se queremos estabelecer
uma afirmação, mostraremos que num dos sentidos o atributo pertence ao
sujeito, se não pudermos demonstrá-lo em ambos os sentidos: e, se estivermos
rebatendo uma afirmação, demonstraremos que num sentido o atributo não
corresponde ao sujeito, se não pudermos demonstrá-lo em ambos os sentidos.
É claro que ao rebater um juízo não há nenhuma necessidade de começar a
discussão levando o interlocutor a admitir o que quer que seja, tanto se o juízo
afirma como se nega o atributo universalmente; porque, se mostrar-mos que
num caso qualquer o atributo não pertence ao sujeito, teremos demolido a
afirmação universal, e, do mesmo modo, se mostrarmos que ele pertence num
só caso que seja, teremos demolido a negação universal. Ao estabelecer uma
proposição, pelo contrário, teremos de garantir a admissão preliminar de que,
se ele é atribuível num caso qualquer, é atribuível universalmente, contanto
que essa pretensão seja razoável. Porquanto não basta discutir um caso único
para demonstrar que um atributo se predica universalmente: para argumentar,
por exemplo, que se a alma do homem é imortal, toda alma é imortal, é
preciso ter obtido a admissão prévia de que, se uma alma qualquer é imortal,
toda alma é imortal. Isto não se deve fazer em todos os casos, mas apenas
naqueles em que não podemos apontar facilmente um argumento único que
seja aplicável a todos os casos em comum, como, por exemplo, o geômetra
pode argumentar que o triângulo tem seus ângulos iguais a dois ângulos retos.

Se, por outro lado, a variedade de acepções do termo é evidente, cumpre
distinguir quantos significados ele tem antes de passar a refutar ou a
estabelecer: supondo-se, por exemplo,