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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.446 seguidores
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que "o correto" signifique "o
conveniente" ou "o honroso", procurar-se-á estabelecer ou rebater ambas as
descrições do sujeito em questão, mostrando, por exemplo, que ele é honroso
e conveniente, ou que nem é honroso, nem conveniente. Mas, na
eventualidade de que seja impossível demonstrar ambas as coisas, deve-se
demonstrar uma delas, acrescentando que a predicação é verdadeira num

sentido e não no outro. A mesma regra vale também para quando o número de
acepções em que se divide o termo é superior a dois.

Considerem-se, por outro lado, aquelas expressões cujos significados são
muitos, porém não diferem devido à ambigüidade de um termo e sim de outra
maneira. Por exemplo: "a ciência de muitas coisas é uma só"; aqui, "muitas
coisas" pode significar tanto o fim como os meios que conduzem a esse fim,
como, por exemplo, a medicina tanto é a ciência de produzir a saúde como da
maneira de observar uma dieta; ou ambas podem ser fins, como quando se diz
que a ciência dos contrários é a mesma (pois, entre os contrários, um deles não
é mais fim do que o outro); ou, então, pode tratar-se de um atributo essencial e
de outro acidental, como, por exemplo, o fato essencial de que o triângulo tem
seus ângulos iguais a dois ângulos retos, e o fato acidental de que a figura
eqüilátera também possua essa propriedade, pois é devido ao acidente de ser o
eqüilátero um triângulo que sabemos que ele tem seus ângulos iguais a dois
ângulos retos. Se, pois, não é possível em qualquer sentido do termo que a
ciência de muitas coisas seja a mesma, evidentemente é de todo impossível
que seja assim; ou, se é possível em algum sentido, então evidentemente é
possível. Distingam-se tantos significados quantos forem necessários: por
exemplo, se queremos estabelecer um ponto de vista, devemos pôr em
evidência todos aqueles significados que admitam esse ponto de vista, e
dividi-lo apenas naqueles significados que são necessários para estabelecer a
nossa tese; ao passo que, se queremos rebater um ponto de vista, devemos
trazer á luz todos os que não admitem esse ponto de vista e deixar o resto de
lado. Nesses casos é também necessário levar em conta qualquer incerteza a
respeito do número de significados envolvidos. Além disso, que uma coisa é
ou não é "de" outra deve ser estabelecido por meio das mesmas normas ou
lugares: por exemplo que uma determinada ciência é de uma determinada
coisa, tratada como um fim, como meio para alcançar um fim ou como
acidentalmente relacionada com ela; ou, então, que não é "de" tal coisa em
nenhum dos sentidos ou maneira indicados acima. A mesma regra vale
também para o desejo e todos os outros termos que têm mais de um objeto.
Porquanto o "desejo de X" pode significar o desejo dele como um fim (como o
desejo da saúde), ou como um meio para a consecução de um fim (como o
desejo de ser medicado), ou como uma coisa desejada acidentalmente, como
acontece no caso do vinho, que a pessoa gulosa deseja não por ser vinho, mas
por ser doce. Com efeito, essa pessoa deseja essencialmente o doce, e apenas
acidentalmente o vinho: porque, se este for seco, já não o desejará. Seu desejo
pelo vinho é, portanto, acidental. Esta regra é útil ao tratar com termos
relativos, pois os casos deste tipo são geralmente casos de termos relativos.

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É bom, além disso, trocar um termo por outro mais familiar substituir, por
exemplo, "exato" por "claro" ao descrever uma concepção, e "estar ocupado"
por "estar atrapalhado", pois quando a expressão é mais familiar torna-se mais
fácil atacar a tese. Esta norma é também utilizável para ambos os fins, isto é,
tanto para estabelecer como para lançar por terra um ponto de vista.

A fim de mostrar que atributos contrários pertencem à mesma coisa,
atente-se no seu gênero; por exemplo, se queremos demonstrar que a exatidão
e o erro são possíveis no que se refere à percepção sensível, e perceber é
julgar, dado que é possível julgar exata ou erroneamente, também no tocante à
percepção devem ser possíveis a exatidão e o erro. No exemplo presente a
prova procede do gênero e passa deste à espécie, porquanto "julgar" é o
gênero de "perceber", e o homem que percebe julga de certa maneira. Mas
pode seguir a direção contrária e ir da espécie para o gênero, pois todos os
atributos que pertencem à espécie pertencem igualmente ao gênero; por
exemplo, se há um conhecimento mau e um conhecimento bom, há também
uma boa e uma má disposição, porquanto "disposição" é o gênero de
conhecimento. Ora, o primeiro argumento tópico é falaz quando se trata de
estabelecer um ponto de vista, ao passo que o segundo é verdadeiro. Com
efeito, não é necessário que todos os atributos pertencentes ao gênero também
pertençam à espécie: "animal", por exemplo, é volátil e quadrúpede, porém
não assim "homem". Por outro lado, todos os atributos que pertencem à
espécie devem necessariamente pertencer também ao gênero; porque, se
"homem" é bom, então "animal" também é bom. E, ao contrário, para o fim de
demolir uma opinião, o primeiro tópico é verdadeiro, enquanto o segundo é
falaz, já que todos os atributos que não pertencem ao gênero não pertencem
tampouco à espécie, ao passo que todos os que faltam à espécie não faltam
necessariamente ao gênero.

Como aquelas coisas das quais se predica o gênero devem necessariamente
ter também uma das espécies deste que se predique delas, e como aquelas
coisas que estão na posse do gênero em questão ou são descritas por termos
derivados desse gênero devem também necessariamente estar na posse de uma
de suas espécies e ser descritas por termos derivados de uma dessas espécies
(por exemplo, se a alguma coisa se aplica o termo "conhecimento científico",
então se aplicará também a ela o conhecimento "gramatical" ou "musical", ou
o conhecimento de uma das outras ciências; e se alguém possui conhecimento
científico ou é descrito por um termo derivado de "ciência", esse alguém
também possuirá o conhecimento gramatical, o musical, ou o conhecimento de

alguma das demais ciências, ou será descrito por um termo derivado de uma
delas, como, por exemplo, "gramático" ou "músico") - por conseguinte, se se
afirma que uma expressão qualquer é de algum modo derivada do gênero (por
exemplo, que a alma está em movimento), procure-se ver se a alma pode ser
movida com alguma das espécies de movimento - se, por exemplo, ela pode
crescer, ser destruída ou gerar-se, e do mesmo modo com respeito a todas as
demais espécies de movimento. Porque, se a alma não se move de nenhuma
dessas maneiras, evidentemente não se move em absoluto. Este tópico serve
para ambos os propósitos, tanto para desbaratar como para estabelecer uma
opinião: pois, se a alma se move com alguma das espécies de movimento, é
evidente que se move; e, se não se move com nenhuma das espécies de
movimentos, é evidente que não se move.

Se alguém não estiver bem provido de um argumento contra a afirmação,
procure entre as definições, reais ou aparentes, da coisa que tem diante de si, e
se uma não for suficiente, lance mão de várias. Com efeito, será mais fácil
rebater uma pessoa quando presa a uma definição, pois as definições são
sempre mais fáceis de atacar.

Examine-se além disso, com respeito à coisa em questão, que é aquilo cuja
realidade condiciona a realidade da mesma, ou cuja realidade se segue
necessariamente da realidade da coisa em questão: se se deseja estabelecer um
ponto de vista ou opinião, é preciso investigar que coisa existe de cuja
realidade se seguirá a realidade da coisa em questão porque, se demonstrarmos
que a primeira é real, também teremos demonstrado que a coisa em questão é
real). Se, pelo contrário, se deseja desmantelar uma opinião, deve-se perguntar
que coisa é real se a coisa em questão é real, porque, se demonstrarmos que o
que se segue da coisa em questão é irreal, teremos rebatido