Civil VI_Aceitação e renúncia
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Civil VI_Aceitação e renúncia

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Relator: Des. Fernando Carioni.
Data da decisão: 08.07.2006.
Publicação: DJSC Eletrônico n. 6, edição de 10.07.2006, p. 64.

EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - ABERTURA DE INVENTÁRIO PELO RITO DE ARROLAMENTO - RENÚNCIA ABDICATIVA CARACTERIZADA - COTAS HEREDITÁRIAS EM FAVOR DO MONTE PARTILHÁVEL - PROSSEGUIMENTO DA SUCESSÃO LEGÍTIMA - NÃO INCIDÊNCIA DO IMPOSTO INTER VIVOS - RECURSO PROVIDO
Fica caracterizada a renúncia propriamente dita quando demonstrado nos autos que os herdeiros necessários da inventariada renunciaram suas cotas hereditárias em favor do monte partilhável, e não em benefício de pessoa certa e determinada.
Em se tratando de renúncia abdicativa, ou seja, cessão gratuita, pura e simples, o único imposto a ser pago pelo beneficiário pela transmissão da propriedade é o causa mortis, não havendo, portanto, a incidência do imposto inter vivos.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de Instrumento n. 2005.029608-4, da comarca de Balneário Camboriú (1ª Vara), em que é agravante Antônio Heinzen:

ACORDAM, em Terceira Câmara de Direito Civil, por votação unânime, dar provimento ao recurso.
Custas na forma da lei

RELATÓRIO
Trata-se de agravo de instrumento interposto por Antônio Heinzen contra decisão do Juiz de Direito da 2ª Vara Cível da comarca de Balneário Camboriú que, na abertura de inventário pelo rito de arrolamento n. 005.04.006830-1, considerou a renúncia pleiteada como sendo cessão de direitos e determinou o recolhimento do imposto inter vivos (fl. 8).
Sustenta o agravante/inventariante que os herdeiros necessários da inventariada, Márcia Heinzen e Ricardo Antônio Heinzen, declararam expressamente a não aceitação pelas suas cotas hereditárias, no prazo previsto no art. 983 do Código de Processo Civil.
Alega o recorrente que, diante da renúncia expressa dos herdeiros necessários, as cotas hereditárias deveriam ser aproveitadas na ordem de vocação hereditária, devendo ser homologado o plano de partilha com a conseqüente adjudicação do bem em seu favor, já que o arrolamento deu-se em decorrência do falecimento de sua esposa. Acrescenta que é o herdeiro legal da inventariada, uma vez que inexistem os ascendentes.
Aduz que não há possibilidade para a exigência do imposto inter vivos por parte do Magistrado a quo, consoante exegese do art. 1.034 do CPC. Para tanto, assevera que "eventuais diferenças relativas a lançamento, pagamento ou quitação de tributos acaso incidentes sobre os bens do espólio deverão ser objeto de lançamento administrativo" (fl. 6).
Não houve pedido de efeito suspensivo (fl. 32).
Decorrido o prazo, a parte agravada deixou de apresentar contraminuta (fl. 35).

VOTO
O conteúdo da postulação há de ser apreciado ante a presença dos pressupostos de admissibilidade recursal.
A questão versa primordialmente em saber se a renúncia procedida na abertura de inventário pelo rito do arrolamento deu-se na forma abdicativa (cessão gratuita) ou translativa (cessão de direitos), e, por conseguinte, se há ou não a obrigatoriedade do recolhimento do imposto inter-vivos.
Entendeu o Magistrado a quo ao prolatar o seu decisum:
A renúncia pleiteada nos autos, nada mais é que uma cessão de direitos disfarçada; pois é a favor de uma pessoa.
Intime-se a parte autora, a juntar nos autos, comprovante de recolhimento de tributo necessário (inter-vivos) (fl. 8).
Todavia, constata-se da análise dos autos, mais especificamente do plano de partilha de fls. 14 e 15, itens 5.2 e 5.3, que os herdeiros necessários da inventariada, Márcia Heinzen e Ricardo Antônio Heinzen, renunciaram suas cotas hereditárias em favor do monte partilhável, e não em benefício de pessoa certa e determinada.
Dessa maneira, caracteriza-se a ocorrência da renúncia pura e simples, ou abdicativa, por parte dos herdeiros necessários, que recusaram suas cotas na herança indistintamente a todos os co-herdeiros, nos moldes do art. 1.805, § 2º, do Código Civil.
Assim, na sucessão legítima, ante a renúncia de parte da herança pelos herdeiros da mesma classe e, sendo eles os únicos desta, devolve-se aos da subseqüente, que, in casu, terá como beneficiário o Sr. Antônio Heinzen, marido da inventariada, segundo regra do art. 1.810 do CC/02.
Acerca da distinção entre a renúncia abdicativa e translativa, ensina a doutrinadora Maria Helena Diniz:
A cessão gratuita, pura e simples, da herança a todos os demais co-herdeiros ou em benefício do nome equivale à renúncia.
Se o cedente ceder seu quinhão em favor de certa pessoa, devidamente individualizada, estará aceitando a herança; doando-a logo em seguida àquela pessoa, não se configura renúncia. Nesta última hipótese tem-se a renúncia translativa, que, na realidade, é aceitação, por conter uma dupla declaração de vontade: a de aceitar a herança e a de alienar à pessoa designada sua cota hereditária.
SÓ É AUTÊNTICA RENÚNCIA ABDICATIVA, ou seja, cessão gratuita, pura e simples, feita indistintamente a todos os co-herdeiros (CC, art. 1.805, § 2º).
- Se a renúncia for ABDICATIVA, ou melhor, pura e simples, o único imposto a ser pago pelo beneficiário é o CAUSA MORTIS, ao passo que
- Se for TRANSLATIVA, por ser uma doação que se segue à aceitação da herança, incidirá na tributação INTER VIVOS (RT, 264:391) e CAUSA MORTIS (RT, 293:533, 320:257, 329:650) (in Curso de Direito Civil Brasileiro, Direito das Sucessões, v. 6, 17ª ed., 2003, p. 70 e 71).
Da mesma forma, leciona Silvio Rodrigues em sua obra:
Renúncia da Herança - É o ato solene pela qual uma pessoa, chamada à sucessão de outra, declara que a não aceita.
Para que se caracterize com tal, é preciso ser pura e simples, sem condição nem termo, pois, se a renúncia é modal, se nela se encontram cláusulas criando ônus, ou se o renunciante declara que deseja beneficiar um herdeiro mais do que os outros, não se pode falar em renúncia. O que houve foi a aceitação, com subseqüente transmissão.
Tal aspecto da questão é relevante, em virtude dos tributos devidos pela transmissão da propriedade. Se o filho renuncia à herança do pai, a lei o considera com se nunca tivesse sido herdeiro. Seus filhos, netos do falecido, e nessa qualidade, são chamados à sucessão; herdam diretamente do avô, devendo ser pago um imposto de transmissão.
Se, todavia, o filho declara que renuncia à herança paterna em favor de seus filhos, de modo que um receba o dobro do outro, estamos diante da chamada renúncia translativa, ou renúncia imprópria, que, na verdade, não é renúncia, mas cessão de direitos; presume-se que o filho aceitou a herança e que a transmitiu, por ato entre vivos, a seus filhos. Há imposto sobre duas transmissões: uma causa mortis, do defunto a seu filho; outra, deste aos donatários (in Direito Civil: direito das sucessões, v. 7, 26ª ed., 2003, p. 58).
A respeito, encontramos na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça:
TRIBUTÁRIO - DIREITO À HERANÇA - RENÚNCIA - IMPOSTO DE TRANSMISSÃO - C. CIVIL (ARTS. 1.582 E 1.589). - SE TODOS OS FILHOS DO AUTOR DA HERANÇA RENUNCIAM A SEUS RESPECTIVOS QUINHÕES, BENEFICIANDO A VIÚVA, QUE ERA A HERDEIRA SUBSEQÜENTE, E INCORRETO DIZER QUE A RENÚNCIA FOI ANTECEDIDA POR ACEITAÇÃO TÁCITA DA HERANÇA.
- NÃO INCIDÊNCIA DO IMPOSTO DE TRANSMISSÃO (REsp 20183/RJ, Min. Humberto Gomes de Barros, Primeira Turma, j. em 1-12-1993).
HERANÇA. RENÚNCIA TRANSLATIVA. INOCORRÊNCIA FACE A AUSÊNCIA DE MENÇÃO AO DESTINATÁRIO DA HERANÇA RENUNCIADA.
PARA HAVER A RENÚNCIA "IN FAVOREM", É MISTER QUE HAJA ACEITAÇÃO TÁCITA DA HERANÇA PELOS HERDEIROS QUE, EM ATO SUBSEQÜENTE, TRANSFEREM OS DIREITOS HEREDITÁRIOS A BENEFICIÁRIO CERTO, CONFIGURANDO VERDADEIRA DOAÇÃO. RECURSO NÃO CONHECIDO (REsp n. 33698/MG, Min. Cláudio Santos, Terceira Turma, DJ de 16-5-1994).
Com relação aos tributos devidos pela transmissão da propriedade, tem-se que, no caso de renúncia abdicativa, ou seja, cessão gratuita, pura e simples, o único imposto a ser pago pelo beneficiário é o causa mortis, não havendo, portanto, a incidência do imposto inter vivos.
A respeito, encontramos nos Tribunais Pátrios:
PROCESSUAL CIVIL. INVENTÁRIO.