espirito_positivo_comte
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mais
orgânica do que a escola teológica e mais progressiva do que a escola metafísica, sem jamais poder
comportar os perigos de retrogradação ou de anarquia que lhes são respectivamente peculiares. Desde
que os governos renunciaram, embora de modo implícito, a toda restauração séria do passado e as
populações a toda grave destruição das instituições, a nova filosofia não tem mais a pedir a ambos senão
as disposições habituais que todos estão, no fundo, preparados para lhe conceder (pelo menos em França,
onde se deve realizar, em primeiro lugar, a elaboração sistemática), isto é, liberdade e atenção. Sob estas
condições naturais, tende a escola positiva, por um lado, a consolidar todos os poderes atuais nas mãos de
seus possuidores, quaisquer que sejam, e, por outro, a impor-lhes obrigações morais cada vez mais
conformes às verdadeiras necessidades dos povos.

58. Estas disposições incontestáveis parecem a princípio não dever deixar hoje à nova filosofia outros
obstáculos essenciais a não ser os provenientes da incapacidade ou da incúria dos seus diversos
promotores. Mas uma apreciação mais amadurecida mostra, ao contrário, que deve encontrar enérgicas
resistências da parte de quase todos os espíritos agora ativos, em virtude mesmo da difícil renovação que
ela deles exigiria para associá-los diretamente à sua principal elaboração. Se esta inevitável oposição
devesse limitar-se aos espíritos essencialmente teológicos ou metafísicos, ofereceria pequena gravidade
real, porque lhe restaria o poderoso apoio daqueles que se acham especialmente entregues aos estudos
positivos e cujo número e influência crescem diariamente. Mas, por uma fatalidade facilmente
explicável, é destes mesmos que a nova escola deve talvez esperar menos assistência e mais embaraços:
uma filosofia diretamente emanada das ciências há de achar provavelmente seus mais perigosos inimigos
entre aqueles que as cultivam hoje. A principal origem deste deplorável conflito consiste na
especialização cega e dispersiva que caracteriza profundamente o espírito científico atual, em virtude de
sua formação necessariamente parcial, conforme a complicação crescente dos fenômenos estudados,
como adiante o indicarei de modo expresso. Esta marcha provisória, que uma perigosa rotina acadêmica
se esforça hoje por eternizar, sobretudo entre os geômetras, desenvolve a verdadeira positividade, em

Discurso preliminar sobre o espírito positivo

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cada inteligência, somente em relação a uma pequena parte do sistema mental, e deixa todo o resto sob
um vago regime teológico-metafísico, ou o abandona a um empirismo ainda mais opressivo, de sorte que
o genuíno espírito positivo, que corresponde ao conjunto dos diversos trabalhos científicos, não pode, no
fundo, ser plenamente compreendido por nenhum daqueles que assim naturalmente o prepararam. Mais e
mais entregues a esta inevitável tendência, os cientistas propriamente ditos são ordinariamente
conduzidos em nosso século a uma invencível aversão a toda idéia geral e a uma completa
impossibilidade de realmente apreciar qualquer concepção filosófica. Sentir-se-á, aliás, melhor a
gravidade de semelhante oposição, observando que, oriunda dos hábitos mentais, estendeu-se em seguida
até os diversos interesses correspondentes, que nosso regime científico liga profundamente,
especialmente em França, a esta desastrosa especialidade, como o demonstrei com o maior cuidado na
obra citada. Assim, a nova filosofia, que exige diretamente o espírito de conjunto, e que faz prevalecer
para sempre a ciência nascente do desenvolvimento social sobre todos os estudos hoje constituídos, há de
encontrar profunda antipatia, a um tempo ativa e passiva, nos preconceitos e nas paixões da única classe
que lhe poderia oferecer diretamente um ponto de apoio especulativo e do qual não deve esperar durante
muito tempo senão simples adesões individuais, além de mais raras ai do que em qualquer outra parte.
(5)

2o. – Universalidade necessária deste ensino

59. Para vencer convenientemente este concurso espontâneo de resistências diversas que lhe apresenta
hoje a massa especulativa propriamente dita, a escola positiva não poderia achar outro recurso geral
senão organizar um apelo direto e contínuo ao bom-senso universal, esforçando-se daqui por diante em
propagar sistematicamente, na massa ativa, os principais estudos científicos próprios para aí constituírem
a base indispensável de sua grande elaboração filosófica. Estes estudos preliminares, naturalmente
dominados até aqui pelo espírito de especialidade empírica que preside às ciências correspondentes, são
sempre concebidos e dirigidos como se cada um deles devesse especialmente preparar para certa
profissão exclusiva, o que interdiz evidentemente a possibilidade, mesmo entre aqueles que tenham mais
lazer, de jamais abraçar vários deles, ou pelo menos tantos quantos o exija a formação ulterior de sãs
concepções gerais. Mas não pode mais ser assim, quando semelhante instrução é destinada de modo
direto à educação universal, que lhe muda necessariamente o caráter e a direção apesar de qualquer
tendência contrária. O público, com efeito, que não quer tornar-se nem geômetra, nem astrônomo, nem
químico, etc., experimenta continuamente a necessidade simultânea de todas as ciências fundamentais,
reduzidas, cada uma, às suas noções essenciais: ele precisa, segundo a expressão muito notável do nosso
grande Moliere, luzes acerca de tudo. Esta simultaneidade necessária não existe para o público apenas
quando considera esses estudos, em seu destino abstrato e geral, como única base racional do conjunto
das concepções humanas: ele a encontra ainda, embora menos diretamente, até nas diversas aplicações
concretas, cada uma das quais, no fundo, em vez de referir-se exclusivamente a determinado ramo da
filosofia natural, depende também, mais ou menos, de todos os outros. Assim, a universal propagação
dos principais estudos positivos não é somente destinada hoje a satisfazer uma necessidade já muito
pronunciada no público, que sente, mais e mais, não serem as ciências reservadas exclusivamente aos
sábios, existindo sobretudo para ele mesmo. Por uma feliz reação espontânea, semelhante destino,
quando for convenientemente desenvolvido, deverá melhorar por completo o espírito científico atual,
despojando-o de sua especialidade cega e dispersiva, para fazê-lo adquirir, pouco a pouco, o verdadeiro
caráter filosófico indispensável à sua principal missão. Este caminho é mesmo o único que possa, em
nossos dias, constituir gradualmente, fora da classe especulativa propriamente dita, um vasto tribunal
espontâneo, tão imparcial como irrecusável, formado pela massa dos homens sensatos, tribunal diante do

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qual virão extinguir-se, de modo irrevogável, muitas opiniões científicas falsas, que as vistas peculiares à
elaboração preliminar dos dois últimos séculos misturaram profundamente às doutrinas verdadeiramente
positivas, que serão por elas submetidas ao bom senso universal. Numa época em que não se deve
esperar eficácia imediata senão de medidas sempre provisórias, bem adaptadas à nossa situação
transitória, a organização necessária de semelhante ponto de apoio geral para o conjunto dos trabalhos
filosóficos, constitui, aos meus olhos, o principal resultado social que possa produzir agora a inteira
vulgarização dos conhecimentos reais: o público prestará, assim, à nova escola serviços plenamente
equivalentes aos que esta organização há de proporcionar-lhe.

60. Este grande resultado não poderia ser satisfatoriamente obtido se semelhante ensino ininterrupto
fosse destinado a uma única classe, embora muito extensa: é preciso ter-se nele sempre em vista, sob
pena de aborto, a completa universalidade das inteligências. No estado normal, que este movimento deve
preparar, todas experimentarão sempre,