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Disciplina:GEOGRAFIA ECONÔMICA1.053 materiais9.187 seguidores
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tarmos raciocinar logicamente. Porém, os proponentes dessa teoria não
têm lá grandes escrúpulos em matéria de lógica. Tomemos o nosso
amigo Weston, como exemplo. Primeiro, dizia-nos que os salários re-
gulavam os preços das mercadorias e que, portanto, quando os salários
subiam, estes deviam subir também. Depois, dava meia-volta para nos
demonstrar que um aumento de salários não serviria para nada, visto
que também subiriam os preços das mercadorias e os salários se me-
diam, na realidade, pelos preços das mercadorias com eles compradas.
Assim, partindo da afirmativa de que o valor do trabalho determina
o valor da mercadoria, viemos parar na afirmativa de que o valor da
mercadoria determina o valor do trabalho. Nada mais fizemos do que
nos mover num círculo vicioso, sem chegar a nenhuma conclusão.

No geral, é evidente que, tomando o valor de uma mercadoria,
por exemplo, o trabalho, o trigo ou outra mercadoria qualquer, como
medida e regulador geral do valor, apenas desviamos a dificuldade, já
que determinamos um valor por outro, que por sua vez também ne-
cessita ser determinado.

Expresso em sua forma mais abstrata, o dogma de que “os salários
determinam os preços das mercadorias” equivale a dizer que “o valor
se determina pelo valor”, e essa tautologia só demonstra, na realidade,
que nada sabemos a respeito do valor. Se admitíssemos semelhante
premissa, toda argumentação acerca das leis gerais da economia política
converter-se-ia em mera tagarelice. Por isso deve-se reconhecer a Ri-
cardo15 o grande mérito de haver destruído até os fundamentos, com
a sua obra sobre os Princípios da Economia Política, publicada em
1817, o velho erro, tão divulgado e gasto de que “os salários determinam
os preços”, falácia já rechaçada por Adam Smith16 e seus predecessores
franceses na parte verdadeiramente científica de suas investigações,
mas que, não obstante, eles reproduziram nos seus capítulos mais su-
perficiais e de vulgarização.

VI
[Valor e Trabalho]

Cidadãos! Cheguei ao ponto em que devo necessariamente entrar
no verdadeiro desenvolvimento do tema. Não posso asseverar que o
faça de maneira muito satisfatória, pois isso me obrigaria a percorrer

OS ECONOMISTAS

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15 David Ricardo (1772-1823) foi um dos primeiros teóricos da Economia Política clássica.
Escreveu um grande número de ensaios e deixou uma obra de larga projeção, intitulada
Principles of Political Economy and Taxation, tida em grande apreço por Marx, que lhe
salientou os aspectos idealistas. (N. do E.)

16 Adam Smith (1723-1790), grande sistematizador do pensamento econômico burguês, o pri-
meiro a considerar, realmente, o trabalho fonte da riqueza. Em sua obra An Inquiry into
the Nature and Causes of the Wealth of Nations defende, essencialmente, o princípio da
organização espontânea do mundo econômico sob a ação do interesse pessoal. (N. do E.)