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– deverá sinalizar,
com base nos “fatos” do texto, a “verdade” e a manipulação.

Nesse sentido, o sujeito experimenta a sensação desconfortável
de se localizar no limiar entre o implícito e o explícito, entre o sub‑
‑reptício e o literal, entre os subterrâneos e a superfície do texto.
Constitui‑se como tarefa do receptor dessas estruturas ambíguas
assinalar uma possibilidade do “certo” e do duvidoso para um con‑
texto determinado. Para tanto, deve exercitar sua razão, perscru‑
tando os labirintos de seu saber, a fim de despojar as mensagens de
sua roupagem irônica, revelando‑as, colocando‑as, pois, à vista.

Vimos que o desafio proposto ao sujeito pelo riso, pela ironia e
pela paródia está muito próximo da provocação com que somos
confrontados pela própria arte – no caso, a literária. Logo, a admi‑
ração e a surpresa – sensações comuns àquele que se depara com
as categorias aqui estudadas e que as decodifica – estão relacio‑
nadas intimamente com a literatura, sobretudo no que se refere às
funções estética e catártica, inerentes à arte de um modo geral.

Pensando nisso, de modo semelhante ao que se dá com a litera‑
tura, os discursos investigados ao longo da presente pesquisa pro‑
piciam ao sujeito – quando descobertos – a experiência do prazer
estético e da purificação ou catarse. Conforme comentamos no ca‑
pítulo 5, é pertinente concluir, após tais considerações, que a paró‑
dia, a ironia e o riso podem ser pensados como “micro‑mímesis” ou
“microrrepresentações” inseridas na “mímesis ‑maior”, que seria a
própria obra literária.

A literatura – representada em nosso trabalho pelas categorias
do riso, da paródia e da ironia – desperta no sujeito o desejo e a pos‑
sibilidade de transcender a sua realidade previsível e mergulhar no
impensado, no imprevisto. Assim, por meio da razão – condição
necessária para todo esse processo – o indivíduo é estimulado a lan‑
çar um olhar mais genuíno e espontâneo para a realidade, tornando
factível a ideia de alargar o seu saber.

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Portanto, essas categorias de linguagem tão complexas e fasci‑
nadoras facilitam o contato do ser humano consigo mesmo: com
seu saber e, ainda, com seu não saber. São discursos que perturbam
o sujeito, uma vez que o incitam a lançar um olhar atento sobre si
mesmo, em busca de seu repertório. E isso mesmo nas ocasiões em
que esbarramos em nossa limitação racional e não conseguimos
compreender os sinuosos caminhos da ironia. Ainda quando engol‑
fados por suas refrações traiçoeiras, somos capazes de chegar à
maior das verdades da existência, que é a necessidade de alarga‑
mento do saber.

Logo, mesmo que a ironia, a paródia ou o riso não surtam o efei‑
to desejado por seus primeiros criadores, o convite para desvendá‑
‑los perpetua‑se e, com ele, o ensejo de ampliação da percepção
crítica. Tal projeção não é utópica, uma vez que, tentando desmas‑
carar os discursos marcados pela ironia, paródia ou riso, desmasca‑
ramos, ao que parece, a nós mesmos.

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