{F79D920A-C0B5-45B9-B507-0C61A76B57A1}_fragmentos_contemporaneo
176 pág.

{F79D920A-C0B5-45B9-B507-0C61A76B57A1}_fragmentos_contemporaneo

Disciplina:TEORIA DA LITERATURA I381 materiais27.039 seguidores
Pré-visualização42 páginas
de
 fo

i u
m

a g
ri

ta
ri

a m
ed

on
ha

. G
em

en
do

 e
ar

ra
nc

an
do

 o
s c

ab
el

os
,

ar
ra

st
av

a-
se

 a
 m

oç
a

no
 c

or
re

do
r,

 e
nq

ua
nt

o
Jo

ão
 a

 a
gr

ed
ia

, a
os

 b
er

ro
s:

–
A

i m
ul

he
r,

 q
ue

 e
u

te
 a

rr
eb

en
to

!
H

av
ia

 si
do

 d
es

fe
ite

ad
a,

 ch
or

am
in

go
u

a
po

br
e M

ar
ia

, p
or

 te
r o

 m
ar

i-
do

 im
ag

in
ad

o
nã

o
fo

ss
e

pu
ra

 –
 o

nd
e

no
 le

nç
ol

 a
 p

ro
va

 d
e

qu
e

er
a

m
oç

a?
[..

.]
Jo

ão
 n

ão
 p

od
ia

 e
sq

ue
ce

r o
 a

gr
av

o
e

er
a

in
im

ig
o

de
 p

as
se

io
 [.

..]
. D

o-
m

in
go

 d
e

m
an

hã
, e

m
 c

ue
ca

s,
 d

is
tr

aí
a-

se
 n

a
va

ra
nd

a
a

to
ca

r v
io

lã
o.

[..
.]

U
m

a
ta

rd
e

M
ar

ia
 a

ch
av

a-
se

 n
o

po
nt

o
de

 ô
ni

bu
s,

 tr
is

te
 d

e
es

ta
r b

ri
-

ga
da

 c
om

 o
 e

sp
os

o,
 q

ua
nd

o
ve

io
 a

 c
on

he
ce

r
um

 c
av

al
he

ir
o,

 q
ue

 s
ou

be
ch

am
ar

-s
e

O
ví

di
o.

 D
es

se
 c

on
he

ci
m

en
to

 n
as

ce
u

en
tr

e
os

 d
oi

s u
m

a
ce

rt
a

pa
ix

ão
. [

T
ri

st
e

ac
ha

va
-s

e
M

ar
ia

 n
o

po
nt

o
de

 ô
ni

bu
s,

 a
pr

es
en

to
u-

se
um

 c
av

al
he

ir
o

de
 n

om
e

O
ví

di
o.

 E
nt

re
 o

s
do

is
 n

as
ce

u
um

a
pa

i-
xã

o.
]

C
om

 e
le

, e
m

bo
ra

 s
en

ho
r

id
os

o
e

de
 ó

cu
lo

s,
 s

en
tia

 o
 v

er
da

de
ir

o
am

or
. O

ví
di

o
pr

oc
ed

ia
 co

m
 ag

ra
do

 e
m

ei
gu

ic
e;

 o
ra

, j
am

ai
s e

ra
 ac

ar
ic

ia
da

po
r J

oã
o

qu
e,

 sa
ci

ad
o,

 lh
e

da
va

 a
s c

os
ta

s e
 p

un
ha

-s
e

a
ro

nc
ar

.
L

og
o

O
ví

di
o

se
 d

es
in

te
re

ss
ou

 d
el

a,
 [O

ví
di

o
se

 a
fa

st
ou

 d
el

a,
] p

or
es

ta
r g

rá
vi

da
. M

ar
ia

 re
ne

ga
va

 a
cr

ia
nç

a,
 ch

eg
an

do
 a

af
ir

m
ar

 q
ue

 a
ar

ra
n-

ca
ri

a
da

 b
ar

ri
ga

, n
em

 q
ue

 fo
ss

e
co

m
 a

s p
ró

pr
ia

s m
ão

s.
 E

la
 fa

la
va

 m
ui

to

Fragmentos_(4Prova).pmd 26/1/2010, 01:5085

86 SÉRGIO VICENTE MOTTA E SUSANNA BUSATO (ORGS.)
ri

a d
a b

ar
ri

ga
, n

em
 q

ue
 fo

ss
e c

om
 as

 p
ró

pr
ia

s m
ão

s.
 E

la
 fa

la
-

va
 m

ui
to

 m
al

 d
e

Jo
ão

 p
ar

a
a

vi
zi

nh
an

ça
.

–
T

om
ar

a
qu

e
o

pé
 d

el
e

se
qu

e.
[..

.]
A

pó
s

o
na

sc
im

en
to

 d
o

fi
lh

o,
 M

ar
ia

 n
ão

 p
ar

ou
 m

ai
s

em
ca

sa
, d

ei
xa

nd
o

de
 c

oz
in

ha
r a

s
re

fe
iç

õe
s,

 e
sp

an
ar

 o
s

m
óv

ei
s,

la
va

r a
 ro

up
a

de
 Jo

ão
. P

re
te

nd
ia

 ir
 v

is
ita

r o
s p

ai
s;

 e
m

 v
ez

, l
á

de
ix

av
a

o
m

en
in

o
e

ru
m

av
a

pa
ra

 o
ut

ro
s l

ug
ar

es
. D

e
vo

lta
, o

m
ar

id
o

en
co

nt
ra

va
 o

 fo
go

 a
pa

ga
do

 e
 fi

ca
va

 à
 s

ua
 e

sp
er

a
at

é
ho

ra
s

m
or

ta
s.

 [
...

]
A

o
ch

eg
ar

, M
ar

ia
 lh

e
re

cu
sa

va
 o

 c
or

po
,

co
m

o
se

 fo
ss

e
um

 e
st

ra
nh

o,
 e

 a
in

da
 d

iz
ia

:
–

V
á

pe
ga

r a
lg

um
a

va
ga

bu
nd

a
na

 ru
a.

 [.
..]

N
ão

 m
ai

s
us

ou
 a

 a
lia

nç
a

qu
e,

 s
eg

un
do

 M
ar

ia
, e

ra
 s

in
al

de
 d

es
do

ur
o.

[..
.]

M
ar

ia
 lh

e
de

u
o

m
ai

or
 d

es
pr

ez
o.

 C
he

go
u

a
pr

oi
bi

-l
o

de
be

ija
r o

 p
ró

pr
io

 fi
lh

o,
 q

ue
 n

em
 er

a d
el

e e
 si

m
 d

e c
er

to
 O

ví
di

o.
Jo

ão
 r

ev
el

ou
-s

e
ho

m
em

 s
em

 g
ra

nd
es

 p
ec

ad
os

. [
...

] U
m

di
a e

ra
 fe

liz
, o

ut
ro

 in
fe

liz
, c

om
 fa

m
a d

e o
rg

ul
ho

so
 p

or
qu

e,
 só

de
 v

er
go

nh
a,

 n
ão

 c
um

pr
im

en
ta

va
 o

s v
iz

in
ho

s.

(T
re

vi
sa

n,
 1

97
0,

 p
.4

5-
8)

m
al

 d
e J

oã
o

pa
ra

 a
vi

zi
nh

an
ça

. [
M

ui
to

 m
al

 fa
la

va
 d

e
Jo

ão
 p

ar
a

a
vi

zi
-

nh
an

ça
:]

–
T

om
ar

a
qu

e
o

pé
 d

el
e

se
qu

e.
 [.

..]
A

pó
s o

 n
as

ci
m

en
to

 d
o

fi
lh

o,
 M

ar
ia

 n
ão

 p
ar

ou
 m

ai
s e

m
 ca

sa
, d

ei
xa

n-
do

 d
e c

oz
in

ha
r a

s r
ef

ei
çõ

es
 [o

 fe
ijã

o]
, e

sp
an

ar
 o

s m
óv

ei
s,

 la
va

r a
 ro

up
a d

e
Jo

ão
. P

re
te

nd
ia

 ir
 v

is
ita

r o
s p

ai
s;

 e
m

 v
ez

, l
á

de
ix

av
a

o
m

en
in

o
e

ru
m

av
a

pa
ra

 o
ut

ro
s l

ug
ar

es
. D

e v
ol

ta
, o

 m
ar

id
o

en
co

nt
ra

va
 o

 fo
go

 ap
ag

ad
o

e [
,]f

i-
ca

va
 à

 su
a

es
pe

ra
 a

té
 h

or
as

 m
or

ta
s.

 [.
..]

 A
o

ch
eg

ar
, M

ar
ia

 lh
e

re
cu

sa
va

 o
co

rp
o,

 c
om

o
se

 fo
ss

e
um

 e
st

ra
nh

o,
 e

 a
in

da
 d

iz
ia

:
–

V
á

pe
ga

r a
lg

um
a

va
ga

bu
nd

a
na

 ru
a.

[..
.]

N
ão

 m
ai

s
us

ou
 [u

sa
va

] a
 a

lia
nç

a
qu

e,
 s

eg
un

do
 M

ar
ia

, e
ra

 s
in

al
 d

e
de

sd
ou

ro
.

[..
.]

M
ar

ia
 lh

e d
eu

 o
 m

ai
or

 d
es

pr
ez

o.
 C

he
go

u
a p

ro
ib

i-
lo

 [P
ro

ib
iu

-o
] d

e
be

ija
r o

 p
ró

pr
io

 fi
lh

o,
 q

ue
 n

em
 er

a d
el

e e
 [,

]s
im

 d
e c

er
to

 [u
m

 ta
l]

O
ví

di
o.

Jo
ão

 re
ve

lo
u-

se
 h

om
em

 se
m

 g
ra

nd
es

 p
ec

ad
os

. [
...

] U
m

 d
ia

 e
ra

 fe
liz

,
ou

tr
o

in
fe

liz
, c

om
 fa

m
a

de
 o

rg
ul

ho
so

 p
or

qu
e,

 só
 d

e v
er

go
nh

a,
 n

ão
 cu

m
-

pr
im

en
ta

va
 o

s v
iz

in
ho

s.

(T
re

vi
sa

n,
 1

97
5,

 p
.3

6-
9)

Fragmentos_(4Prova).pmd 26/1/2010, 01:5086

FRAGMENTOS DO CONTEMPORÂNEO 87

Quanto mais sintético o conto, mais intenso tende a ser o confli-
to dramático ali expresso, mais despojado de elementos acessórios e
inúteis, produzindo um maior impacto sobre o leitor. Ora, tal con-
cepção eminentemente funcional, tipicamente moderna e antirreto-
ricista, pode ter o seu valor relativizado se notarmos que a repetição,
como procedimento-mestre do processo de reescrita, rege e é a base
da elipse.

Bernardi reconhece que, além da elipse, a repetição é um dado
fundamental que não pode ser negligenciado nem minimizado na
avaliação do projeto estético trevisaniano:

as profundas alterações que acompanhamos no evoluir dos textos e que
se configuram nos fenômenos de supressão, acréscimo, substituição e
inversão, não são, como parecem à primeira vista, inerentes apenas à
obsessão perfeccionista do autor para chegar a uma poética da elipse.
Vinculados a um projeto muito mais amplo que se realiza através da
obra em progresso, essas variações, motivadas por necessidades inter-
nas do processo criador, têm como objetivo principal – ousamos afir-
mar – refletir e levar à reflexão sobre os problemas da criação literária
num mundo em que tudo se transforma rapidamente, menos o homem.
(ibidem, p.482)

É necessário, pois, avaliar a produção trevisaniana como algo
marcado pelos dois procedimentos – elipse e repetição – que, arti-
culados, levam ao extremo valores como invenção, originalidade,
experimentalismo formal, e, simultaneamente, os comentam criti-
camente na medida mesma em que os submetem, como tudo nos
contos, à repetição, reduzindo-os à condição de clichês da máquina
de contar de Trevisan. A assinatura estilística, chamemos assim, do
autor não deixa de manifestar-se, mas, como demonstra o processo
do qual ela resulta, o faz negando e afirmando, simultaneamente, a
sua originalidade e, também, a própria ideia de originalidade e, por
extensão, a ideia de autoria pertinente à tradição moderna.

Se os elementos mais importantes da fábula (personagens, ação,
intriga, temário) remetem necessariamente a gêneros anteriores ao

Fragmentos_(4Prova).pmd 26/1/2010, 01:5087

88 SÉRGIO VICENTE MOTTA E SUSANNA BUSATO (ORGS.)

conto – o romance-folhetim/melodrama, o fait-divers –, os procedi-
mentos dos quais eles resultam, no trabalho de criação artística, são
a forma irônica correspondente do modo de produção moderno, cal-
cado na serialização, que faz de qualquer um dos contos um produto
massificado. Como, portanto, identificar neste e noutros contos de
Dalton Trevisan a aura a que se refere Walter Benjamin (1978, p.11)
em “A obra de arte na época de suas técnicas