Fichamento antropologia
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Fichamento antropologia

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Universidade Estácio de Sá

Disciplina: Aspectos Antropológicos e Sociológicos da Educação
Curso: Letras - Noite
Professora: Marilene Calheiros
Aluno: Leonardo Guarany Vieira

FICHAMENTO

A Interpretação das Culturas
Capítulo 2: O Impacto do Conceito de Cultura sobre o Conceito de Homem
A explicação científica segundo o antropólogo francês Lévi-Strauss não consiste, como fomos levados a imaginar, na redução do complexo ao simples. Ao contrário ela consiste, diz ele, na substituição de uma complexidade menos inteligível por outra mais inteligível.
O avanço científico comumente consiste numa complicação progressiva do que alguma vez pareceu um conjunto de noções lindamente simples e que agora parece uma noção insuportavelmente simplista.
A ascensão de uma concepção científica da cultura significativa, ou pelo menos estava ligada a, a derrubada da visão da natureza humana dominante do iluminismo. A tentativa de esclarecê-la, de reconstruir um relato inteligente do que é o homem, tem permeado todo o pensamento científico sobre a cultura desde então.
Há uma natureza humana tão regulamentada organizada, tão perfeitamente invariante e tão maravilhosamente simples como o universo de Newton.
A noção de que os homens são homens sob quaisquer disfarces e contra qualquer pano de fundo não foi substituída por "outros costumes, outros animais".
A enorme e ampla variedade de diferenças entre os homens, em crenças e valores, em costumes e instituições, tanto no tempo como de lugar para lugar, é essencialmente sem significado ao definir sua natureza.
Segundo Dr. Johnson, a imagem de uma natureza humana constante, independente de tempo, lugar e circunstância, de estudos de profissões, modas passageiras e opiniões temporárias, pode ser uma ilusão, que o que o homem é pode estar tão envolvido com onde ele está, quem ele é no que ele acredita, que é inseparável deles.
É extraordinariamente difícil traçar uma linha entre o que é natural, universal e constante ao homem, e o que é convencional, local e variável.
Assumir um passo gigantesco longe da perspectiva uniforme da natureza humana, no que concerne ao estudo do homem, é abandonar o Paraíso. Alimentar a ideia de que a diversidade de costumes no tempo e no espaço não é simplesmente uma questão de indumentária ou aparência, de cenários e máscaras de comediantes, é também alimentar a ideia de que a humanidade é tão variada em sua essência como em sua expressão.
As tentativas de localizar o homem no conjunto de seus costumes assumiram diversas direções, adotaram táticas diversas. À medida que se analisa o homem, retira-se camada após camada, sendo cada uma dessas camadas completa e irredutível em si mesma, e revelando uma outra espécie de camada muito diferente embaixo dela. Retirando-se os fatores psicológicos e surgem então fundamentos biológicos – anatômicos, fisiológicos, neurológicos – de todo o edifício da vida humana.
Ao nível da pesquisa concreta e da análise específica, essa estratégia grandiosa desceu, primeiro, a uma caçada por universais na cultura, por uniformidades empíricas que, em face da diversidade de costumes no mundo e no tempo podiam ser encontradas em todo o lugar em praticamente a mesma forma e, segundo, a um esforço para relacionar tais universais, uma vez encontrados, com as constantes estabelecidas de biologia, psicologia e organização social humanas. Então pelo menos algum processo poderia ser feito para especificar quais os traços culturais que são essenciais à existência humana.
Em essência, essa não é certamente uma ideia nova. Com isso, a vida cultural do homem é dividida em dois: parte dela, como a indumentária dos atores de Mascou, é independente dos “movimentos interiores” newtonianos dos homens; parte é uma emanação desses mesmos movimentos. A questão que surge, então, é: Será que esse edifício a meio do caminho entre os séculos XVIII e XX pode manter-se de pé? Se o que quer é descer a níveis menos abstratos e afirmar, como fez Kluckhohn, que o conceito da vida eterna é universal ou, como fez Malinowski, que o sentido da Providência é universal, se é perseguido pela mesma contradição. O mesmo ocorre, também, com qualquer noção de um sentido de Providência, que pode incluir sob suas asas tanto as noções Navajo sobre as relações entre deuses e homens como a dos Trobriand.
Tais generalizações não podem ser descobertas através de uma pesquisa baconiana de universais culturais, uma espécie de pesquisa de opinião pública dos povos do mundo em busca de um consensus gentium que de fato não existe e, além disso, que as tentativas que assim proceder conduzem precisamente à espécie de relativismo que toda abordagem se propunha expressamente evitar.
Os universais culturais são concebidos como resposta cristalizada a essas realidades inevitáveis, formas institucionalizadas de chegar a termos com elas. A análise consiste, portanto, em combinar suportes universais com necessidades subjacentes postuladas, tentando mostrar que existe alguma combinação com as duas. No nível social, é feita referência a tais fatos irrefutáveis como o de que todas as sociedades, a fim de persistirem, têm que reproduzir seus membros ou alocar bens e serviços, daí resultando a universalidade de alguma forma de família ou alguma forma de troca.
Não há aqui qualquer integração teórica, mas uma simples correlação, assim mesmo intuitiva, de achados separados. Com a abordagem de níveis não podemos jamais, mesmo invocando “pontos invariantes de referência”, construir interligações funcionais genuínas entre os fatores cultural e não-cultural, apenas analogias, paralelismo, sugestões e afinidades mais ou menos persuasivas.
Naturalmente, essa é agora uma questão filosófica e não, como tal, uma questão científica. Todavia, a noção de que a essência do que significa ser humano é revelada mais claramente nesses aspectos da cultura humana que são universais do que naqueles que são típicos deste ou daquele povo, é um preconceito que não somos obrigados a compartilhar. A principal contribuição da ciência da antropologia á construção – ou reconstrução – de um conceito do homem pode então repousar no fato de nos mostrar como encontrá-las.
Resumindo, precisamos procurar relações sistemáticas entre fenômenos diversos, não identidades substantivas entre fenômenos similares. E para conseguir com bom resultado precisamos substituir a concepção “estratigráfica” das relações entre os vários aspectos da existência humana por uma sintética, isto é, na qual os fatores biológicos, psicológicos, sociológicos e culturais possam ser tratados como variáveis dentro dos sistemas unitários de análise.
A partir de tais reformulações do conceito da cultura e do papel da cultura na vida humana, surge, por sua vez, uma definição do homem que enfatiza não tanto as banalidades empíricas do seu comportamento, a cada lugar e a cada tempo, mas, ao contrário, os mecanismos através de cujo agenciamento a amplitude e a indeterminação de suas capacidades inerentes são reduzidas à estreiteza e especificidade de suas reais realizações.
A perspectiva da cultura como “mecanismos de controle” inicia-se como pressuposto de que o pensamento humano é basicamente tanto social como público – que seu ambiente natural é o pátio familiar, o mercado e a praça da cidade.
O ser físico do homem evoluiu, através dos mecanismos usuais de variação genética e seleção natural, até o ponto em que sua estrutura anatômica chegou a mais ou menos à situação em que hoje o encontramos: começou então o desenvolvimento cultural. O homem se tornou homem, continua a história, quando, tendo cruzado algum Rubicon mental, ele foi capaz de transmitir “conhecimento, crença, lei, moral, costume” a seus descendentes e seus vizinhos através do aprendizado.
O aperfeiçoamento das ferramentas, a doação da caça organizada e as práticas de reunião, o início da verdadeira organização familiar, a descoberta do fogo e, o mais importante, embora seja ainda muito difícil identificá-la em detalhe, o apoio cada vez sobre os sistemas de símbolos significantes