pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.477 seguidores
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da Escritura, existe também para os maus
cristãos e para todos os que não se odeiam a si mesmos. Mas, como se está bem disposto a entendê-los
e a conhecer Jesus Cristo quando se odeia verdadeiramente a si mesmo! XIV

Os judeus carnais têm o meio entre os cristãos e os pagãos. Os pagãos não conhecem Deus e só
amam a terra. Os judeus conhecem o verdadeiro Deus e só amam a terra. Os cristãos conhecem o
verdadeiro Deus e não amam a terra. Os judeus e os pagãos amam os mesmos bens. Os judeus e os
cristãos conhecem o mesmo Deus.

XV

É visivelmente um povo feito de propósito para servir de testemunho ao Messias. Traz os livros,
e os ama, e não os entende. E tudo isso foi predito: porque se disse que os julgamentos de Deus lhes
foram confiados, mas como um livro selado.

Enquanto os profetas existiram para manter a lei, o povo foi negligente. Mas, desde que não
houve mais profeta, o zelo sucedeu, (o que é uma providência admirável).

XVI

Começando a criação do mundo a distanciar-se, Deus providenciou um único historiador
contemporâneo, e cometou todo um povo para a guarda desse livro, afim de que essa história fosse a

mais autêntica do mundo e de que todos os homens pudessem aprender uma coisa tão necessária de se
saber e que só se pudesse saber por esse meio.

XVII

Moisés era um homem instruído: por conseguinte, se se governava por seu espírito, não diria
nitidamente nada que fosse diretamente contra o espírito.

Assim, todas as fraquezas muito aparentes são forças. Exemplo: as duas genealogias de São
Mateus e de São Lucas; que há de mais claro de que isso foi feito de concerto?

Por que faz Moisés a vida dos homens tão longa e tão poucas gerações? Com efeito, não é a
extensão dos anos, mas a multidão das gerações que torna as coisas obscuras.

A verdade não se altera senão pela mudança dos homens. No entanto, ele põe as duas coisas
mais memoráveis que já se imaginaram, a saber, a criação e o dilúvio, tão próximas que se pode tocá-
las, (pelo pouco que ele faz de gerações. De sorte que, no tempo em que escrevia essas coisas, a
memória das mesmas devia ainda ser bem recente no espírito de todos os judeus).

Sem, que viu Lamec, que viu Adão, viu também Jacó, que viu os que viram Moisés. Portanto, o
dilúvio e a criação são verdadeiros. Isso conclui entre certas pessoas que o entendem bem.

A extensão da vida dos patriarcas, em lugar de fazer que as histórias passadas se perdessem,
servia, ao contrário, para conservá-las. Com efeito, o que faz que não sejamos, às vezes, bastante
instruídos na história dos nossos antepassados, é que nunca vivemos com eles, pois muitas vezes
morreram antes de termos atingido a idade da razão. Mas, quando os homens viviam tão longo tempo,
as crianças viviam longo tempo com seus pais; eles as entretinham longo tempo. Ora, com que as
teriam eles entretido, senão com a história dos seus antepassados, de vez que toda a história se reduzia
àquela e que eles não tinham estudos, nem ciências, nem artes que ocupam grande parte dos discursos
da vida? Vê-se, igualmente, que naquela época os povos tinham um cuidado particular em conservar as
suas genealogias.

XVIII

Quanto mais os examino (os judeus), tanto mais descubro verdades; o que precedeu e o que
seguiu; enfim, eles sem ídolos nem rei, e essa sinagoga que foi predita e esses miseráveis que a seguem
e que, sendo nossos inimigos, são admiráveis testemunhos da verdade dessas profecias em que a sua
vida e até a sua cegueira foram preditas. Descubro esse encadeamento, essa religião tão divina em sua
autoridade, em sua duração, em sua perpetuidade, em sua moral, em sua conduta, em sua doutrina, em
seus efeitos, e as trevas dos judeus, medonhas e preditas: Eris palpans in meridie. Dabitur tibet scienti
litteras et dicet: Non possum legere.(14) Estendo, assim, os braços ao meu libertador, que, tendo sido
predito durante mil anos, veio sofrer e morrer por mim sobre a terra nos tempos e em todas as
circunstâncias que foram preditos, e, por sua graça, espero a morte em paz, na esperança de lhe ser
eternamente unido, e vivo entretanto, com alegria, quer nos bens que lhe apraz conceder-me, quer nos
males que me envia para o meu bem, e que me ensinou a sofrer por seu exemplo.

Por isso, recuso todas as outras religiões; por isso, acho resposta para todas as objeções. É justo
que um Deus tão puro só se descubra àqueles cujo coração está purificado.

Acho de efetivo que, desde que a memória dos homens existe, foi constantemente anunciado
aos homens que eles estão numa corrupção universal, mas que virá um reparador: não é um homem que
o diz, mas um povo inteiro durante quatro mil anos profetizando e feito de propósito.

ARTIGO VIII

DAS FIGURAS; QUE A ANTIGA LEI ERA FIGURATIVA

I

Há figuras claras e demonstrativas; mas, há outras que parecem um pouco menos naturais e que
só provam aos que já estão persuadidos. Assemelham-se estas às apocalípticas. Mas, a diferença que há
é que não as têm como indubitáveis, de tal modo que não há nada tão injusto como quando pretendem
que as suas sejam tão bem fundadas como algumas das nossas; com efeito, não as possuem
demonstrativas como algumas das nossas. A partida não é, pois, igual. É preciso não igualar e não
confundir essas coisas, porque parecem ser semelhantes por uma extremidade, sendo tão diferentes pela
outra.

II

Uma das principais razões pelas quais os profetas velaram os bens espirituais que prometiam
sob as figuras dos bens temporais, é que tinham em vista um povo carnal, que era preciso tornar
depositário do testamento espiritual.

Jesus Cristo, figurado por José, bem amado por seu pai, enviado pelo pai para ver seus irmãos,
etc., inocente, vendido por seus irmãos por vinte dinheiros, e por isso tornado seu senhor, seu salvador,
quer o salvador dos estrangeiros, quer o salvador do mundo, o que não teria sido sem o desígnio de o
perder, sem a venda e a reprovação que a isso fizeram.

Na prisão, José inocente entre dois criminosos: Jesus Cristo na cruz entre dois ladrões. José
predisse a salvação de um e a morte do outro, sobre as mesmas aparências: Jesus Cristo salva os eleitos
e dana os réprobos pelos mesmos crimes. José não faz senão predizer: Jesus Cristo faz. José pede ao
que será salvo que se lembre dele quando chegar à sua glória; e aquele que Jesus Cristo salva lhe pede
que se lembre dele quando em seu reino.

III

A graça não é senão a figura da glória; com efeito, não é o último fim. Foi figurada pela lei e ela
própria figura a glória; mas, é desta a figura e o princípio ou a causa.

IV

A sinagoga não perecia, porque era a figura (da Igreja); mas, porque era apenas a figura, caiu na
servidão. A figura subsistiu até à verdade, afim de que a Igreja fosse sempre visível, ou na pintura que a
prometia, ou no efeito.

V

Para provar de uma vez os dois Testamentos, basta ver se as predições de um se realizam no
outro. Para examinar as profecias, é preciso entendê-las; de fato, se se crê que têm somente um sentido,
é certo que o Messias não virá; mas, se têm dois sentidos, é certo que virá em Jesus Cristo.

Toda a questão consiste, pois, em saber se têm dois sentidos, (se são figuras ou realidades, isto
é, se é preciso procurar nelas alguma outra coisa além do que aparece à primeira vista, ou se é preciso
ficar unicamente nesse primeiro sentido que apresentam).

Se a lei e os sacrifícios são a verdade, é preciso que agradem a Deus e não que lhe desagradem.
Se são figuras, é preciso que agradem e desagradem.

Ora, em toda a Escritura, agradam e desagradam.

(Portanto, são figuras).

VI

Para mostrar que o Velho Testamento é apenas figurativo e que pelos bens temporais os
profetas entendiam outros bens, note-se, em primeiro lugar, que isso seria indigno de Deus; em
segundo lugar, que os seus discursos exprimem muito claramente a promessa dos bens temporais; e que
eles dizem, todavia, que os seus discursos são obscuros e que o seu sentido não será entendido, de