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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.431 seguidores
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onde
parece que esse sentido não era o que eles exprimiam a descoberto e que, por conseguinte, entendiam
falar de outros sacrifícios, de outro libertador, etc. Dizem eles que isso só será entendido no fim dos
tempos. (Jeremias, XXXIII, ult.).

A terceira prova é que os seus discursos são contrários e se destroem, de maneira que, se se
pensa que não entenderam pelas palavras lei e sacrifício outra coisa além das de Moisés, há contradição
manifesta e grosseira: portanto, entendiam outra coisa, contradizendo-se às vezes num mesmo capítulo.

VII

Foi dito que a lei será mudada; que o sacrifício será mudado; que eles ficarão sem rei, sem
príncipe e sem sacrifício; que será feita uma nova aliança; que a lei será renovada; que os preceitos que
receberam não são bons; que os seus sacrifícios são abomináveis; que Deus não pediu isso.

Foi dito, ao contrário, que a lei durará eternamente; que essa aliança será eterna; que o sacrifício
será eterno; que o cetro não sairá nunca dentre eles, de vez que não deve sair, que o rei eterno não
chega. Todas essas passagens marcam que isso seja realidade? Não. Marcam também que isso seja
figura? Não: mas que é realidade ou figura. Mas, excluindo as primeiras a realidade, marcam que é
apenas figura.

Todas essas passagens juntas não podem ser chamadas de realidade: todas podem ser chamadas
de figura. Portanto, não são chamadas de realidade, mas de figura.

VIII

Para saber se a lei e os sacrifícios são realidade ou figura, é preciso ver se os profetas, falando
dessas coisas, nelas detinham a sua vista e o seu pensamento, de maneira que só vissem nelas essa

antiga aliança, ou se viam nelas alguma outra coisa de que ela foi a pintura; de fato, num retrato, vê-se
a coisa figurada. Para isso, basta que se examine o que eles dizem a respeito.

Quando dizem que será eterna, entendem falar da aliança da qual dizem que será mudada? E
assim também dos sacrifícios, etc.

IX

Os profetas disseram claramente que Israel seria sempre amado por Deus e que a lei seria
eterna; e disseram que não se entenderia o seu sentido, que era velado.

A cifra tem dois sentidos. Quando se surpreende uma carta importante na qual se acha um
sentido claro e na qual se diz, contudo, que o sentido é velado ou obscuro, que está oculto de maneira
que se verá essa carta sem a ver e que se entenderá sem entende-la, que se deve, pois, pensar, senão que
é uma cifra de duplo sentido, tanto mais quanto se descobrem nela contrariedades manifestas no sentido
literal? Quanto se devem, pois, estimar aqueles que nos descobrem a cifra e nos ensinam a conhecer o
sentido oculto, e, principalmente, quando os princípios que tomam dela são inteiramente naturais e
claros? Foi o que fizeram Jesus Cristo e os apóstolos. Tiraram o selo, rasgaram o véu e descobriram o
espírito. Ensinaram-nos, assim, que os inimigos do homem são as paixões; que o Redentor seria
espiritual e o seu reino espiritual; que haveria dois adventos: um da miséria, para abaixar o homem
soberbo, e outro da glória, para elevar o homem humilhado; e que Jesus Cristo será Deus e homem.

X

Jesus Cristo não fez outra coisa senão ensinar aos homens que se amassem entre si, e que eram
escravos, cegos, doentes, infelizes e pecadores; que era preciso que ele os libertasse, esclarecesse,
beatificasse e curasse; que isso se faria odiando-se cada qual a si próprio e seguindo-o pela miséria e a
morte na cruz.

Eis a cifra que São Paulo nos dá: a letra mata; tudo chegava em figuras; era preciso que o Cristo
sofresse: um Deus humilhado. Circuncisão do coração, verdadeiro jejum, verdadeiro sacrifício,
verdadeiro templo. Os profetas indicaram que era preciso que tudo isso fosse espiritual.

Ele nos ensinou, pois, finalmente, que todas essas coisas eram apenas figuras, e o que é
verdadeiramente livre, verdadeiro israelita, verdadeira circuncisão, verdadeiro pão do céu, etc.

XI

Nessas promessas, cada qual acha o que tem no fundo do coração: os bens temporais ou os bens
espirituais; Deus ou as criaturas; mas, com a diferença de que aqueles que procuram ai as criaturas as
encontram, mas com várias contradições, com a proibição de amá-las, com ordem de só adorar um
Deus e amar somente a ele, o que não é senão uma mesma coisa; e que, enfim, não veio Messias para
eles. Ao contrário, os que procuram Deus o encontram, sem nenhuma contradição e com recomendação
de amar somente a ele.

XII

As fontes das contrariedades da Escritura são um Deus humilhado até à morte na cruz, um
Messias triunfando da morte por sua morte, duas naturezas em Jesus Cristo, dois adventos, dois estados
da natureza do homem.

Só se pode fazer uma boa fisionomia quando se põem de acordo todas as nossas contrariedades,
e não basta seguir uma seqüência de qualidades acordes sem conciliar os contrários; para entender o
sentido de um autor, é preciso conciliar todas as passagens contrárias.

Assim, para conciliar a Escritura, é preciso ter um sentido no qual todas as passagens contrárias
se acordem. Não basta ter um que convenha a várias passagens acordes, mas é preciso ter um que
concilie até as passagens contrárias.

Todo autor tem um sentido no qual todas as passagens contrárias se acordam, ou não tem
sentido nenhum. Não se pode dizer isso da Escritura e dos profetas. Eles tinham, certamente, bastante
bom-senso. É preciso, pois, procurar um que acorde todas as contrariedades.

O verdadeiro sentido não é, pois, o dos judeus; mas, é em Jesus Cristo que todas as contradições
são acordadas.

Os judeus não saberiam acordar a cessação da realeza e do principado, predita por Oséias, com
a profecia de Jacó.

Se se tomam a lei, os sacrifícios e o reino pela realidade, não se podem acordar todas as
passagens. É preciso, pois, por necessidade, que sejam apenas figuras. Não se poderiam mesmo acordar
as passagens de um mesmo autor, nem de um mesmo livro, nem às vezes de um capítulo. O que marca
bem qual era o sentido do autor.

XIII

Não era permitido sacrificar fora de Jerusalém, que era o lugar que o Senhor tinha escolhido,
nem mesmo comer fora dos dízimos.

Oséias predisse que eles ficariam sem rei, sem príncipe, sem sacrifícios e sem ídolos; o que se
realizou hoje, não podendo s judeus fazer sacrifício legítimo fora de Jerusalém.

XIV

Quando a palavra de Deus, que é verdadeira, é literalmente falsa, ela é verdadeira
espiritualmente. Sede a dextris meis (15). Isso é falso literalmente; logo, é verdadeiro espiritualmente.
Nessas expressões, ele falou de Deus à maneira dos homens; e isso não significa outra coisa senão que
a intenção que os homens têm fazendo-o sentar-se à sua direita, Deus a terá também. É, pois, uma
marca da intenção de Deus, não da sua maneira de executá-la.

Assim, quando diz: Deus recebeu o odor dos vossos perfumes e vos dará em recompensa uma
terra fértil; isto é, a mesma intenção que teria um homem que, aceitando os vossos perfumes, vos desse
em recompensa uma terra fértil. Deus terá a mesma intenção por vós, porque tivestes para com ele a
mesma intenção que um homem tem para com aquele a quem dá perfumes.

XV

O único objeto da Escritura é a caridade. Tudo o que não vai ao único fim é a figura: de fato, só
havendo um fim, tudo o que não vai nessa direção em palavras próprias é figura.

Deus diversifica assim esse único preceito de caridade para satisfazer a nossa curiosidade que
procura a diversidade, por essa diversidade que nos conduz ao nosso único necessário. Com efeito, uma
só coisa é necessária, e amamos a diversidade; e Deus satisfaz uma e outra por essas diversidades que
conduzem ao único necessário.

XVI

Os rabinos tomam por figuras as maminhas da Esposa e tudo o que não exprime o único fim
que eles têm dos bens temporais.

XVII

Há os que vêem bem que não há outro inimigo do homem além da concupiscência que o desvia
de Deus, e não Deus; nem outro bem além de Deus, e não uma terra fértil. Os que crêem que o bem do
homem está na carne e o mal no que