pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.157 materiais34.315 seguidores
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o desvia do prazer dos sentidos, fartem-se e morram com isso.
Mas, os que procuram Deus de todo o coração, que só têm desprazer em serem privados de sua vista,
que só têm desejo para possuí-lo e como inimigos os que dele se desviam, que se afligem por se verem
cercados e dominados por tais inimigos, consolem-se, pois lhes anuncio uma nova feliz: há um
libertador para eles, eu lhes farei ver, eu lhes mostrarei que há um Deus para eles; não o farei ver aos
outros; farei ver que foi prometido um Messias que livraria dos inimigos, e que veio um para livrar das
iniqüidades, mas não dos inimigos.

XVIII

Quando Davi predisse que o Messias livrará o seu povo dos seus inimigos, pode crer-se
carnalmente que se trata dos egípcios; e, então, eu não saberia mostrar que a profecia se realizou. Mas,
pode crer-se também que se trata das iniqüidades; porque, na verdade, os egípcios não são inimigos,
mas as iniqüidades o são. Essa palavra inimigos é, pois, equivoca.

Mas, se ele diz, em outro lugar, como o faz, que livrará o seu povo dos seus pecados, tão bem
como Isaias e os outros, o equívoco desaparece, e o sentido duplo de inimigos reduz-se ao sentido
simples de iniqüidades: com efeito, se ele tivesse no espírito os pecados, bem podia denotá-los por
inimigos; mas, se pensasse nos inimigos, não podia designá-los por iniqüidades.

Ora, tanto Moisés como Davi e Isaias usavam dos mesmos termos. Quem dirá, pois, que não
tinham o mesmo sentido, e que o sentido de Davi, que é manifestamente de iniqüidades quando falava
de inimigos, não era o mesmo que (o de) Moisés falando de inimigos?

Daniel, cap. IX, reza pela libertação do povo do cativeiro dos seus inimigos: mas, pensava nos
pecados, e, para mostrá-lo, diz que Gabriel lhe foi dizer que tinha sido atendido e que não havia mais
que setenta semanas que esperar, depois do que o povo estaria livre de iniqüidade, o pecado teria fim e
o libertador, o Santo dos santos, traria a justiça eterna, não a legal, mas a eterna.

Uma vez que se abriu esse segredo, é impossível não vê-lo. Leia-se o Velho Testamento nesse
sentido, e veja-se se os sacrifícios eram verdadeiros, se o parentesco de Abraão era a verdadeira causa
da amizade de Deus, se a terra prometida era o verdadeiro lugar de repouso. Não. Portanto, eram
figuram. Vejam-se, também, todas as cerimônias ordenadas e todos os mandamentos que não são pela
caridade, e ver-se-á que são figuras.

ARTIGO IX

DE JESUS CRISTO

I

A distância infinita dos corpos aos espíritos figura a distância infinitamente mais infinita dos
espíritos à caridade, pois ela é sobrenatural.

Todo o brilho das grandezas não tem lustre para as pessoas que se entregam às pesquisas do
espírito. A grandeza das pessoas de espírito é invisível aos ricos, aos reis, aos capitães, a todos esses
grandes de carne. A grandeza da sabedoria, que não existe em nenhuma parte a não ser em Deus, é
invisível aos carnais e às pessoas de espírito. São três ordens diferentes em gêneros.

Os grandes gênios têm o seu império, o seu brilho, a sua grandeza, a sua vitória e o seu lustre, e
não têm nenhuma necessidade das grandezas carnais em que elas não têm relações. São vistos não
pelos olhos, mas pelos espíritos; é o bastante. Os santos têm o seu império, o seu brilho, as suas
vitórias, o seu lustre, e não têm nenhuma necessidade das grandezas carnais ou espirituais em que elas
não têm nenhuma relação, pois não lhes acrescentam nada nem tiram. São vistos por Deus e pelos
anjos, é não pelos corpos nem pelos espíritos curiosos: Deus lhes basta.

Arquimedes, sem brilho, teria a mesma veneração. Ele não deu batalhas para os olhos, mas
forneceu a todos os espíritos as suas invenções (admiráveis). Oh! como brilhou aos espíritos! Jesus
Cristo, sem bem e sem nenhuma produção fora da ciência, está na sua ordem de santidade. Não deu
invenção, não reinou; mas, foi humilde, santo, santo em Deus, terrível para os demônios, sem nenhum
pecado. Oh! como veio em grande pompa e numa prodigiosa magnificência aos olhos do coração, que
vêem a sabedoria.

Não teria sido inútil a Arquimedes apresentar-se como príncipe nos seus livros de geometria,
embora o fosse. Teria sido inútil a Nosso Senhor Jesus Cristo, para brilhar no seu reino de santidade,
vir como rei: mas, veio bem como o brilho de sua ordem.

É bem ridículo escandalizar-se da baixeza de Jesus Cristo, como se essa baixeza fosse da
mesma ordem que a grandeza que ele vinha fazer aparecer. Considere-se essa grandeza em sua vida,
em sua paixão, em sua obscuridade, em sua morte, na eleição dos seus, no abandono, em sua secreta
ressurreição, e no resto; ela será vista tão grande que não se terá motivo para escandalizar-se de uma
baixeza que não existe. Mas, há os que só podem admirar as grandezas carnais, como se não houvesse
as espirituais; e outros que só admiram as espirituais, como se não houvesse infinitamente mais altas na
sabedoria.

Todos os corpos, o firmamento, as estrelas, a terra e os seus remos, não valem o menor dos
espíritos; de fato, ele conhece tudo isso e a si; e os corpos, nada. Todos os corpos juntos, e todos os

espíritos juntos, e todas as suas produções, não valem o menor movimento de caridade; de fato, ela é de
uma ordem infinitamente mais elevada.

De todos os corpos juntos, não se saberia fazer sair um pequeno pensamento; isso é impossível,
e de uma outra ordem. De todos os corpos e espíritos, não se saberia tirar um movimento de verdadeira
caridade; isso é impossível, e de uma outra ordem sobrenatural.

II

Jesus Cristo (esteve) numa tal obscuridade (segundo o que o mundo chama de obscuridade),
que os historiadores, não escrevendo senão as importantes coisas dos Estados, mal o perceberam.
Quanto ao fato de Josefo de Tácito e os outros historiadores não terem falado de Jesus Cristo, longe de
o negar, isso o confirma; com efeito, é certo que Jesus Cristo existiu e que a sua religião fez grande
ruído e que essa gente não o ignorava, e que assim é visível que não o ocultaram senão em desígnio, ou
que falaram disso e que o suprimiram ou mudaram.

III

Que homem teve jamais maior brilho? O povo judeu inteiro o predisse antes de sua vinda. O
povo gentio o adora depois de sua vinda. Os dois povos, gentio e judeu, o observam como seu centro.
No entanto, que homem jamais gozou menos de todo esse brilho? De trinta e três anos, ele viveu trinta
sem aparecer. Em três anos, passa por um impostor; os sacerdotes e os principais (de sua nação) o
rejeitam; os seus amigos e os seus mais próximos o desprezam. Enfim, morre (de uma morte
vergonhosa), traído por um dos seus, renegado pelo outro e abandonado por todos. Que parte tem ele,
pois, nesse esplendor? Nunca homem algum teve tanto esplendor; nunca homem algum teve mais
ignomínia. Todo esse esplendor só serviu para nós, para no-lo tornar reconhecível; e não houve nada
para ele.

IV

Jesus Cristo disse as coisas grandes tão simplesmente que parece que não as pensou; e tão
nitidamente, contudo, que se vê bem o que ele pensava a respeito. Essa clareza, junta a essa
ingenuidade, é admirável.

Quem ensinou aos evangelistas as qualidades de uma alma perfeitamente heróica, para pintá-la
tão perfeitamente em Jesus Cristo? Porque o fazem fraco em sua agonia? Não sabem pintar uma morte
constante? Sim; com efeito, o próprio São Lucas pinta a de Santo Estêvão mais forte do que a de Jesus
Cristo. Fazem-no, pois, capaz de medo antes de chegar a necessidade de morrer, e em seguida tão forte.
Mas, quando o fazem tão perturbado, é quando ele próprio se perturba; e, quando os homens o
perturbam, é bastante forte.

A Igreja teve tanto trabalho em mostrar que Jesus Cristo era homem, contra os que o negavam,
como em mostrar que era Deus; e as aparências eram tão grandes (contra um como contra outro).

Jesus Cristo é um Deus de que a gente se aproxima sem orgulho, e sob o qual a gente se abaixa
sem desespero.

V

A conversão dos pagãos estava reservada exclusivamente à graça do