pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.487 seguidores
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sido morto, ressuscitado, e (de ter) convertido as
nações; nem tudo estava realizado; e, assim, foram necessários milagres durante todo esse tempo.
Agora, já não são necessários contra os Judeus; pois as profecias realizadas são um milagre subsistente.

IV

(O estado em que se vêem os judeus é ainda uma grande prova da religião. Com efeito), coisa
assombrosa e digna de estranha atenção é ver o povo judeu subsistir depois de tantos anos, e vê-lo
sempre miserável: sendo necessário, para a prova de Jesus Cristo, não só que eles subsistam para
prová-lo, mas ainda que sejam miseráveis, de vez que o crucificaram; e, embora sejam contrários ser
miserável e subsistir, todavia ele subsiste sempre, mau grado sua miséria.

(Mas, não estiveram eles quase no mesmo estado do cativeiro? Não. O cetro não foi
interrompido pelo cativeiro de Babilônia, porquanto a volta estava prometida e predita. Quando
Nabucodonosor conduziu o povo, de medo que não se cresse que o cetro fora tirado de Judá, foi-lhes

dito antes que eles seriam poucos e que seriam restabelecidos. Foram sempre consolados pelos
profetas; seus reis continuaram. Mas, a segunda destruição é sem promessa de restabelecimento, sem
profetas, sem reis, sem consolação, sem esperança, porque o cetro foi tirado para sempre.

Não é ter sido cativo o tê-lo sido com certeza de ser libertado em setenta anos. Mas, agora, eles
o são sem nenhuma esperança.

Deus lhes prometeu que, ainda que os dispersasse para os confins do mundo, todavia, se eles
fossem fiéis à lei, os reuniria. Eles são muito fiéis a ela e continuam oprimidos. (É preciso, pois, que o
Messias tenha vindo, e que a lei que continha essas promessas tenha acabado pelo estabelecimento de
uma lei nova).

V

Se os judeus tivessem sido todos convertidos por Jesus Cristo, só teríamos testemunhos
suspeitos; e, se tivessem sido exterminados, não teríamos testemunho algum.

Os judeus o recusam, mas não todos. Os santos o recebem, e não os carnais. E tanto não é certo
que isso seja contra a sua glória, que é o último traço que a acaba. A razão que apresentam e a única
que se acha nos seus escritos, no Talmud e nos rabinos, consiste apenas em que Jesus Cristo não
dominou as nações à mão armada, gladiam tuim potentissime (26): só isso têm que dizer? Jesus Cristo
foi morto, dizem eles; sucumbiu; não dominou os pagãos pela força; não nos deu seus despojos; não dá
riquezas. Só isso têm que dizer? É nisso que ele me é amável. Eu não desejaria o que eles imaginam.

VI

Como é belo ver, pelos olhos da fé, Dario e Ciro, Alexandre, os romanos, Pompeu e Herodes,
agirem, sem o saber, pela glória do Evangelho!

VII

A religião maometana tem por fundamento o Alcorão e Maomé. Mas, esse profeta, que devia
ser a última espera do mundo, foi predito? E que marca tem ele que não tenha também todo homem que
queira dizer-se profeta? Que milagre disse ele próprio ter feito? Que mistério ensinou? Segundo a sua
própria tradição, que moral e que felicidade?

Maomé (é) sem autoridade. Seria preciso, pois, que as suas razões fossem bem poderosas, tendo
apenas a sua própria força. Que disse, pois? Que é preciso crer nele.

VIII

De duas pessoas que contam tolas histórias, uma com duplo sentido entendido na cabala, outra
com um sentido apenas: se alguém, não sendo do segredo, ouvir discorrer as duas dessa maneira, fará a
respeito o mesmo julgamento. Mas, se, em seguida, no resto do discurso, uma diz coisas angélicas, e a
outra sempre coisas chatas e comuns, julgar-se-á que uma falava com mistério, e não a outra; uma,
tendo mostrado bastante que é capaz de tais tolices e capaz de ser misteriosa; e a outra, que é incapaz
de mistério e capaz de tolices.

IX

Não é porque haja obscuro em Maomé e se possa fazê-lo passar por ter um sentido misterioso
que eu quero que se julgue isso, mas porque há claro, por seu paraíso, e pelo resto. E nisso que ele é
ridículo. E eis porque não é justo tomar obscuridades por mistérios, visto como suas clarezas são
ridículas. Não se dá o mesmo com a Escritura. Quero que haja obscuridades que sejam tão bizarras
quanto as de Maomé, mas há clarezas admiráveis e profecias manifestas e realizadas. A partida não é,
pois, igual. É preciso não confundir e igualar as coisas que só se assemelham pela obscuridade, e não
pela clareza que merece que se respeitem as obscuridades.

O Alcorão diz que São Mateus era homem de bem. Portanto, Maomé era falso profeta, ou
chamando maus a homens de bem, ou não acreditando neles pelo que disseram de Jesus Cristo.

X

Todo homem pode fazer o que fez Maomé: porque ele não fez milagres; ele não foi predito.
Nenhum homem pode fazer o que fez Jesus Cristo.

Maomé (se estabeleceu) matando, Jesus Cristo fazendo matar os seus; Maomé proibindo que se
lesse, os apóstolos ordenando que se lesse. Enfim, isso é tão contrário que, se Maomé tomou a via de
vencer humanamente, Jesus Cristo tomou a de perecer humanamente. E, em lugar de concluir que,
desde que Maomé venceu, Jesus Cristo ponde vencer, é preciso dizer que, desde que Maomé venceu,
Jesus Cristo devia perecer.

ARTIGO XII

DESÍGNIO DE DEUS DE SE OCULTAR A UNS E DE SE DESCOBRIR A OUTROS

I

Deus quis redimir os homens e abrir a salvação aos que o procurassem. Mas, os homens se
tornam tão indignos disso que é justo que Deus recuse a uns, por causa do seu endurecimento, o que
concede a outros por uma misericórdia que não lhes é devida. Se ele tivesse querido vencer a
obstinação dos mais endurecidos, o teria podido descobrindo-se tão manifestamente que eles não teriam
podido duvidar da verdade de sua essência, como aparecerá no último dia, com um tal brilho de
relâmpagos e um tal derrubamento da natureza, que os mortos ressuscitados e os mais cegos o verão.

Não foi assim que ele quis aparecer em seu advento de doçura, porque, tornando-se tantos
homens indignos de sua demência, ele quis deixá-los na privação do bem que não querem. Não era,
pois, justo que aparecesse de maneira manifestamente divina e absolutamente capaz de convencer todos
os homens; mas, não era justo também que viesse de maneira tão oculta que não pudesse ser
reconhecido pelos que o procurassem sinceramente. Quis tornar-se perfeitamente cognoscível a estes; e
assim, querendo aparecer a descoberto aos que o procuram de todo o coração, e oculto aos que o evitam
de todo o coração, tempera seu conhecimento, de sorte que deu marcas de si visíveis aos que o
procuram e obscuras aos que não o procuram.

II

Há bastante luz para os que só desejam ver, e bastante obscuridade, para os que têm uma
posição contrária. Há bastante claridade para esclarecer os eleitos, e bastante obscuridade para
humilhá-los. Há bastante obscuridade para cegar os réprobos e bastante claridade para condená-los e
torná-los inescusáveis. Se o mundo subsistisse para instruir o homem (da existência) de Deus, a sua
divindade reluziria totalmente de maneira incontestável; mas, como só subsiste por Jesus Cristo e para
Jesus Cristo, para instruir os homens não só de sua corrupção como de sua redenção, tudo nele revela
provas dessas duas verdades. O que nele aparece não marca nem uma exclusão total, nem uma presença
manifesta de divindade, mas a presença de um Deus que se oculta: tudo traz esse caráter.

Se nele nunca tivesse aparecido Deus, essa privação eterna seria equívoca e poderia tanto
relacionar-se com a ausência de toda divindade como com a indignidade em que estariam os homens de
o conhecer. Mas, uma vez que aparece às vezes, e não sempre, isso dissipa o equívoco. Se aparece uma
vez, é sempre; e, assim, só se pode concluir que há um Deus e que os homens são indignos dele.

III

(O desígnio de Deus é mais aperfeiçoar a vontade do que o espírito. Ora, a clareza perfeita só
serviria ao espírito e prejudicaria a vontade). Se não houvesse obscuridade, o homem não sentiria sua
corrupção. Se não houvesse luz, o homem não esperaria remédio. Assim, é não só justo, mas útil para
nós, que Deus esteja