pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.500 seguidores
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oculto em parte e descoberto em parte, desde que é igualmente perigoso ao
homem conhecer Deus sem conhecer sua miséria e conhecer sua miséria sem conhecer Deus.

IV

Ele é, pois, verdadeiro: tudo instrui o homem de sua condição; mas, é preciso entendê-lo bem:
porque não é verdadeiro que tudo descubra Deus, e não é verdadeiro que tudo oculte Deus. Mas, é
verdadeiro, ao mesmo tempo, que ele se oculta aos que o tentam e se descobre aos que o procuram;
porque os homens são todos, ao mesmo tempo, indignos de Deus e capazes de Deus: indignos por sua
corrupção, capazes por sua primeira natureza.

V

Não há nada sobre a terra que não mostre ou a miséria do homem, ou a misericórdia de Deus;
ou a impotência do homem sem Deus, ou a potência do homem com Deus. Todo o universo ensina ao
homem ou que ele é corrompido ou que é redimido. Tudo lhe ensina sua grandeza ou sua miséria. O
abandono de Deus aparece nos pagãos; a proteção de Deus aparece nos judeus.

VI

Tudo redunda em bem para os eleitos, até nas obscuridades da Escritura; porque eles as honram,
por causa das claridades divinas; e tudo redunda em mal para os outros, até nas claridades; porque eles
as blasfemam, por causa das obscuridades que não entendem.

VII

Se Jesus Cristo só tivesse vindo para santificar, toda a Escritura e todas as coisas a isso
tenderiam, e seria muito fácil convencer os infiéis. Se Jesus Cristo só tivesse vindo para cegar, toda a
sua conduta seria confusa, e não teríamos nenhum meio de convencer os infiéis. Mas, como ele veio in
sanctificationem et in scandalum (27), como diz Isaias (Isaias, VIII, 14), não podemos convencer os

infiéis: e eles não podem convencer-nos; mas, por isso mesmo, nós os convencemos, desde que
dizemos que não há convicção em toda a sua conduta.

Jesus Cristo veio cegar os que viam claro e dar a vista aos cegos; curar os doentes e deixar
morrer os sãos; chamar à penitência e justificar os pecadores, e deixar os justos em seus pecados;
encher os indigentes e deixar os ricos vazios.

Que dizem os profetas de Jesus Cristo? Que ele será evidentemente Deus? Não: mas que ele é
um Deus verdadeiramente oculto; que será desconhecido, que não se pensará que seja ele; que será uma
pedra de escândalo contra a qual muitos se chocarão, etc.

Deus, para tornar o Messias cognoscível aos bons e incognoscível aos maus, o fez predizer
dessa maneira. Se a maneira do Messias fosse predita claramente, não teria havido obscuridade, mesmo
para os maus. Se o tempo tivesse sido predito obscuramente, teria havido obscuridade, mesmo para os
bons; porque a bondade do seu coração não lhes teria feito entender que, por exemplo, significa
seiscentos anos (28). Mas, o tempo foi predito claramente, e a maneira em figuras.

Por esse meio, os maus, tomando os bens prometidos por materiais, se desviam, mau grado o
tempo predito claramente; e os bons não se desviam: porque a inteligência dos bens prometidos
depende do coração, que chama de bem o que ama; mas, a inteligência do tempo prometido não
depende do coração; e, assim, a predição clara do tempo, e obscura dos bens, só ilude os maus.

VIII

Como era preciso que existisse o Messias, de vez que por ele o cetro devia estar eternamente em
Judá e que, à sua chegada, o cetro devia ser tirado de Judá?

Para fazer que, vendo, eles não vejam, e que, entendendo, eles não entendam, nada podia ser
feito melhor.

Em lugar de vos lamentardes de que Deus esteja oculto, vós lhe dareis graças por estar tão
descoberto, e lhe dareis graças ainda por não estar descoberto aos sábios nem aos soberbos, indignos de
conhecer um Deus tão santo.

IX

A genealogia de Jesus Cristo no Antigo Testamento está misturada com tantas outras inúteis
que não pode ser discernida. Se Moisés só tivesse registado os antepassados de Jesus Cristo, isso teria
sido visível demais; se ele não tivesse marcado de Jesus Cristo, isso não teria sido bastante visível.
Mas, afinal de contas, quem olhar de perto vê a de Jesus Cristo bem discernida por Tamar, Rut, etc.

Todas as fraquezas muito aparentes são forças. Exemplo, as duas genealogias de São Mateus e
de São Lucas; que há de mais claro que isso foi feito de concerto?

X

Não nos acusem mais, portanto, de falta de clareza, pois fazemos profissão disso. Reconheça-se,
porém, a verdade da religião na obscuridade mesma da religião, no pouco de luz que temos dela e na
indiferença que temos em conhecê-la.

Se só houvesse uma religião, Deus seria manifesto demais; se só houvesse mártires na nossa
religião, também.

Jesus Cristo, para deixar os maus na cegueira, não diz que ele não é de Nazaré, que não é filho
de José.

XI

Assim como Jesus Cristo ficou desconhecido entre os homens, assim também a sua verdade
fica, nas opiniões comuns, sem diferença no exterior: assim também a Eucaristia no pão comum.

Se a misericórdia de Deus é tão grande que nos instrui salutarmente, mesmo quando ele se
oculta, que luz não devemos esperar dele quando ele se descobre?

Não se entende nada nas obras de Deus se não se toma por princípio que ele quis cegar uns e
esclarecer outros.

ARTIGO XIII

QUE OS VERDADEIROS CRISTÃOS E OS VERDADEIROS JUDEUS Só TEM UMA
MESMA RELIGIÃO

I

A religião dos judeus parecia consistir essencialmente na paternidade de Abraão, na
circuncisão, nos sacrifícios, nas cerimônias, na área, no templo de Jerusalém e, enfim, na lei e na
aliança de Moisés.

Eu digo que ela não consistia em nenhuma dessas coisas, mas somente no amor de Deus, e que
Deus reprovava todas as outras coisas;

Que Deus não aceitava a posteridade de Abraão;

Que os judeus serão punidos por Deus como os estrangeiros, se eles o ofendem: Se esqueceis
Deus e seguis deuses estrangeiros, eu vos predigo que. perecereis da mesma maneira que as nações que
Deus exterminou antes de vós (Deuteronômio, VIII, 19, 20);

Que os estrangeiros serão recebidos por Deus com os judeus, se o amam;

Que o estrangeiro não diga: O Senhor não me receberá; os estrangeiros que se ligam a Deus
serão para servi-lo e amá-lo, eu os conduzirei á minha santa montanha e receberei deles sacrifícios, pois
minha casa é a casa de oração (Isaias, LVI, 3);

Que os verdadeiros judeus não consideravam o seu mérito senão de Deus e não de Abraão: Vós
sois verdadeiramente nosso Pai, e Abraão não nos conheceu, e Israel não teve conhecimento de nós,
mas vós é que sois nosso Pai e nosso Redentor (Isaias, LXIII, 16);

O próprio Moisés lhes disse que Deus não aceitaria as pessoas: Deus, disse ele, não aceita as
pessoas, nem os sacrifícios (Deuteronômio, X, 17);

Que a circuncisão do coração é ordenada: Sede circuncisos do coração, e não vos endureçais;
pois vosso Deus é um Deus grande, poderoso e terrível, que não aceita as pessoas (Deuteronômio, X,
16, 17; Jeremias, IV, 3);

Que Deus disse que o faria um dia. Deus te circuncidará o coração e o dos teus filhos, afim de
que tu o ames de todo o coração (Deuteronômio, XXX, 6);

Que os incircuncisos de coração serão julgados. Porque Deus julgará os povos incircuncisos e
todo o povo de Israel, porque ele é incircunciso de coração (Jeremias, IX, 25, 26);

Que o exterior não serve de nada sem o interior: Scindite corda vestra (29)(Joel, II, 13).

Eu digo que a circuncisão era uma figura que tinha sido estabelecida para distinguir o povo
judeu de todas as outras nações (Gênese, XVII, 21).

E daí resulta que, estando no deserto, eles não foram circuncisos, porque não podiam confundir-
se com os outros povos, e que, desde que Jesus Cristo veio, isso não é mais necessário.

O amor de Deus é recomendado em todo o Deuteronômio. Eu tomo como testemunho o céu e a
terra de que pus diante de vós a morte e a vida, afim de que escolhêsseis a vida, amásseis a Deus e lhe
obedecêsseis: pois Deus é que é a vossa vida (Deuteronômio, XXX, 19, 20);

Que os judeus, sem esse amor, seriam reprovados por seus crimes, e os pagãos eleitos em seu
lugar. Eu me ocultarei deles em vista dos seus últimos crimes;