pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.434 seguidores
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pois é uma nação má e infiel
(Deuteronômio, XXXII, 20, 21). Eles me provocaram á cólera pelas coisas que não são dos deuses; e
eu os provocarei ao ciúme por um povo que não é o seu povo, e por uma nação sem ciência e sem
inteligência (Isaias, LXV);

Que os bens temporais são falsos e que o verdadeiro bem é estar unido a Deus (Salmos,
LXXII);

Que as suas festas desagradam a Deus (Amós, V, 21);

Que os sacrifícios dos judeus desagradam a Deus, mesmo da parte dos bons e não somente dos
maus judeus, mas que não lhe agradam mesmo os dos bons, como aparece no Salmo XLIX, onde, antes
de dirigir seu discurso aos maus por estas palavras: Peccatori autem dixit Deus (30), ele diz que não
quer sacrifícios dos animais nem do seu sangue (Isaias, LXVI; Jeremias, VI, 20);

Que os sacrifícios dos pagãos serão recebidos por Deus e que Deus retirará a sua vontade dos
sacrifícios dos judeus (Malaquias; XI);

Que Deus fará uma nova aliança pelo Messias e que a antiga será rejeitada (Jeremias, XXXI,
31);

Que as antigas coisas serão esquecidas (Isaias, XLII, 18, 19);

Que ninguém se lembrará mais da arca (Jeremias, III, 16);

Que o templo será rejeitado (Jeremias, VII, 12, 13, 14);

Que os sacrifícios seriam rejeitados, e outros sacrifícios puros estabelecidos (Malaquias, I, 10,
11);

Que a ordem da sacrificatura de Aarão será reprovada e a de Melquisedec introduzida pelo
Messias (Salmo CIX);

Que essa sacrificatura seria eterna (Ibidem);

Que Jerusalém seria reprovada e Roma admitida (Isaias, LVI, 5);

Que esse último nome seria melhor que o dos judeus, e eterno (Isaias, XLVI, 5);

Que os judeus deviam ficar sem profetas, sem reis, sem príncipes, sem sacrifícios, sem ídolos
(Oséias, III, 4);

Que os judeus subsistiriam sempre, contudo, como povo (Jeremias, XXXI, 36).

ARTIGO XIV

NÃO SE CONHECE DEUS UTILMENTE SENÃO POR JESUS CRISTO (31)

I

Admiro a ousadia com que essas pessoas (32) empreendem falar de Deus dirigindo os seus
discursos aos ímpios. O seu primeiro capítulo é provar a divindade pelas obras da natureza.

Eu não me admiraria de sua empresa se dirigissem os seus discursos aos fiéis; pois é certo que
os que têm a fé viva no coração vêem incontinente que tudo o que é não é outra coisa senão a obra do
Deus que adoram. Mas, para aqueles em que essa luz está extinta, e nos quais se tem o desígnio de a
fazer reviver, para essas pessoas destituídas de fé e de graça, as quais, procurando com toda a sua luz
tudo o que vêem na natureza que as possa conduzir a esse conhecimento, só acham obscuridade e
trevas, dizer-lhes que não têm senão que ver a menor das coisas que as cercam e que aí verão Deus a
descoberto, e dar-lhes, por toda prova desse grande e importante assunto, o curso da lua ou dos
planetas, e pretender ter acabado a prova com um tal discurso, é dar-lhes motivo de crer que as provas
da nossa religião são bem fracas; e eu vejo pela experiência que nada é mais próprio para lhes causar o
desprezo dela.

Não é dessa maneira que a Escritura, que conhece melhor as coisas que são de Deus, fala disso.
Ela diz, ao contrário, que Deus é um Deus oculto; e que, desde a corrupção da natureza, ele os deixou

(os homens) numa cegueira de que só podem sair por Jesus Cristo, fora do qual toda comunicação com
Deus está afastada: Nemo novit palrem nisi filius, et cul voluerit filius revelare (33)(Mateus, XI, 27).

É o que a Escritura nos marca, quando diz em tantos lugares que os que procuram Deus o
acham; não é dessa luz que se fala como do dia em pleno meio-dia: não se diz que os que procuram o
dia em pleno meio-dia ou água no mar os encontrarão; e assim, é preciso bem que a evidência de Deus
não seja tal na natureza. Também ela nos diz em outra parte: Vete tu es Deus absconditus (34).

II

Jesus Cristo é o objeto de tudo e o centro para o qual tudo tende. Quem o conhece, conhece a
razão de todas as coisas.

Os que se desviam só se desviam por não verem uma dessas duas coisas. Por conseguinte, pode
bem conhecer-se Deus sem sua miséria e sua miséria sem Deus; mas não se pode conhecer Jesus Cristo
sem conhecer ao mesmo tempo Deus e sua miséria.

E eis porque não empreenderei provar aqui, com razões naturais, ou a existência de Deus ou a
Trindade, ou a imortalidade da alma, nem nenhuma das coisas dessa natureza; não somente porque não
me sentiria bastante forte para achar na natureza com que convencer ateus endurecidos, mas ainda
porque esse conhecimento, sem Jesus Cristo, é inútil e estéril. Quando um homem fosse persuadido de
que as proporções dos números são verdades imateriais, eternas e dependentes de uma primeira
verdade em que elas subsistem e que se chama Deus, eu não o acharia muito avançado para a sua
salvação.

III

É uma coisa admirável que nunca um autor canônico se tenha servido da natureza para provar
Deus; todos tendem a fazer crer nele: Davi, Salomão, etc., nunca disseram: Não há vazio, portanto há
um Deus. Era preciso que fossem mais hábeis do que as mais hábeis pessoas que vieram desde que
todos se serviram disso.

IV

Se é marca de fraqueza provar Deus pela natureza, não desprezeis por isso a Escritura; se é
marca de força ter conhecido essas contrariedades, estimai por isso a Escritura.

V

Não se entende nada nas obras de Deus se não se toma por princípio que ele quis cegar uns e
esclarecer outros.

VI

As provas metafísicas de Deus são tão afastadas do raciocínio dos homens e tão implícitas, que
pesam pouco; e, quando isso servisse a alguns, seria apenas durante o instante que vêem essa
demonstração; mas, uma hora depois, temem estar enganados. Quod curiositate cognoverint superbia
amiserunt (35).

(Aliás, essas espécies de provas não podem conduzir-nos senão a um conhecimento
especulativo de Deus: e só conhecê-lo dessa maneira é o mesmo que não conhecê-lo.)

VII

O Deus dos cristãos não consiste num Deus simplesmente autor das verdades geométricas e da
ordem dos elementos ; é a parte dos pagãos e dos epicuristas. Não consiste simplesmente num Deus
que exerce a sua providência sobre a vida e sobre os bens dos homens, para dar uma feliz seqüência de
anos aos que o adoram; é a porção dos judeus. Mas, o Deus de Abraão e de Jacó, o Deus dos cristãos, é
um Deus de amor e de consolação: é um Deus que enche a alma e o coração que ele possui; é um Deus
que lhes faz sentir interiormente a sua miséria e a sua misericórdia infinita, que se une ao fundo de sua
alma; que a enche de humildade, de alegria, de confiança, de amor; que os torna incapazes de outro fim
que não seja ele mesmo.

O Deus dos cristãos é um Deus que faz sentir à alma que ele é o seu único bem; que todo o seu
repouso está nele; que não terá alegria senão em amá-lo; e que lhe faz ao mesmo tempo abominar os
obstáculos que a retêm e a impedem de o amar com todas as suas forças. O amor-próprio e a
concupiscência que a detêm lhe são insuportáveis. Esse Deus lhe faz sentir que ela tem esse fundo de
amor-próprio e que só ele pode curá-la.

(Eis o que é conhecer Deus como cristão. Mas, para conhecê-lo dessa maneira, é preciso
conhecer ao mesmo tempo a sua miséria, a sua indignidade, e a necessidade que se tem de um
mediador para se aproximar de Deus e para se unir a ele. É preciso não separar esses conhecimentos
porque, uma vez separados, são não só inúteis, mas nocivos.) O conhecimento de Deus sem o da nossa
miséria faz o orgulho. O conhecimento da nossa miséria sem o de Jesus Cristo faz o desespero. Mas, o
conhecimento de Jesus Cristo nos isenta não só do orgulho como do desespero, porque encontramos
nele Deus, a nossa miséria e a via única de a reparar.

Podemos conhecer Deus sem conhecer as nossas misérias, ou as nossas misérias sem conhecer
Deus; ou mesmo Deus e as nossas misérias, sem conhecer o meio de nos livrarmos das misérias que
nos afligem. Mas, não podemos conhecer Jesus Cristo sem conhecer ao mesmo tempo Deus e as nossas
misérias, assim como o remédio das nossas misérias; porque Jesus Cristo não é