pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.447 seguidores
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o erro, de Abel contra Caim, de Moisés
contra os magos de Faraó, de Elias contra os falsos profetas, de Jesus Cristo contra os fariseus, de São
Paulo contra Barjesú, dos apóstolos contra os exorcistas, dos cristãos contra os infiéis, dos católicos
contra os hereges; e é o que se verá também no combate de Elias e de Enoc contra o Anticristo. Sempre
o verdadeiro prevalece em milagres.)

(Enfim), na contenção do verdadeiro Deus ou da verdade da religião, nunca houve milagres do
lado do erro sem que se tenham verificado maiores do lado da verdade.

(Por essa regra, é claro que os judeus eram obrigados a crer em Jesus Cristo. Jesus Cristo lhes
era suspeito; mas, os seus milagres eram infinitamente mais claros que as suspeitas que se tinham
contra ele. Era preciso, pois, crer nele).

(Ao tempo de Jesus Cristo), uns acreditavam nele, outros não acreditavam, por causa das
profecias que diziam que ele devia nascer em Belém; deviam tornar mais cuidado se ele não o tivesse;
pois os seus milagres, sendo convincentes, deviam certificá-los dessas pretensas contradições de sua
doutrina com a Escritura, e essa obscuridade não os escusava, mas os cegava.

Jesus Cristo curou o cego de nascença e fez uma porção de milagres no dia do sabbat (38),
pelos quais cegava os fariseus que diziam que era preciso julgar os milagres pela doutrina.

(Mas, pela mesma regra por que se devia crer em Jesus Cristo, não se deverá crer no Anticristo.)

Jesus Cristo não falava nem contra Deus nem contra Moisés. O Anticristo e os falsos profetas,
preditos por um e outro Testamento, falarão abertamente contra Deus e contra Jesus Cristo. Quem fosse
inimigo coberto, Deus não permitiria que fizesse milagres abertamente.

Moisés predisse Jesus Cristo e ordenou que ele fosse seguido. Jesus Cristo predisse o Anticristo
e proibiu que fosse seguido.

Os milagres de Jesus Cristo não são preditos pelo Anticristo; mas, os milagres do Anticristo são
preditos por Jesus Cristo. É assim, se Jesus Cristo não fosse o Messias, teria induzido em erro; mas, não
se poderia ser induzido em erro com razão pelos milagres do Anticristo. E eis porque os milagres do
Anticristo não prejudicam os de Jesus Cristo. (Com efeito), quando Jesus Cristo predisse os milagres
do Anticristo, julgava destruir a fé dos seus próprios milagres? Não há nenhuma razão para crer no
Anticristo que não seja para crer em Jesus Cristo, mas as há em Jesus Cristo que não existem no outro.

VI

Os milagres serviram à fundação e servirão à continuação da Igreja até ao Anticristo, até ao fim.

Ou Deus, (afim de conservar essa prova em sua Igreja), confundiu os falsos milagres, ou os
predisse: e, por um e outro, elevou-se acima do que é sobrenatural em relação a nós e nos elevou a nós
mesmos.

(Acontecerá o mesmo no futuro: ou Deus não permitirá falsos milagres, ou proporcionará
maiores; pois) os milagres têm tal força que foi preciso que Deus advertisse que não se pensasse neles
(quando fossem contra ele), de tal maneira é claro que há um Deus; sem o que, eles teriam sido capazes
de perturbar.

E assim, bem longe está de que essas passagens do terceiro capítulo do Deuteronômio, que
trazem que é preciso não crer nem escutar os que fizerem milagres e se desviarem do serviço de Deus;
e de que a de São Marcos: Elevar-se-ão falsos Cristos e falsos profetas que farão coisas assombrosas,
até seduzirem, se possível, os próprios eleitos (Marcos, XIII, 22), e algumas outras semelhantes, façam
contra a autoridade milagres cuja força por nada mais do que isso é marcada.

VII

O que faz que não se creia nos verdadeiros milagres é a falta de caridade: Não credes, disse
Jesus Cristo, falando aos juizes, porque não sois das minhas ovelhas (João, X, 26). O que faz crer nos
falsos é a falta de caridade: Eo quod charitatem veritatis non receperunt ut salvi fuerent, ideo mittet illis
Deus operationem erroris, ut credant mendacio(39)(Tessalonicenses, II, 10).

Tendo considerado que se presta tanta fé a tantos impostores que dizem que têm remédios, até
ao ponto de muitas vezes pôr a vida entre suas mãos, pareceu-me que a verdadeira causa é que há
verdadeiros; pois não seria possível que houvesse tantos falsos e que se lhes prestasse tanta fé, se não
houvesse verdadeiros. Se nunca houvesse remédio a nenhum mal, e se todos os males fossem
incuráveis, é impossível que os homens imaginassem que poderiam dar-lhes crédito; e ainda mais que
tantos outros tivessem dado crédito aos que se gabavam de os ter feito; assim como, se um homem se
gabasse de impedir de morrer, ninguém o acreditaria, porque não há nenhum exemplo disso. Mas,
como há uma porção de remédios que se acharam verdadeiros pelo conhecimento mesmo dos maiores
homens, o crédito dos homens se dobrou por isso, e, sendo isso conhecido como possível, concluiu-se
dai que o era. De fato, o povo raciocina ordinariamente assim: uma coisa é possível, logo existe; porque
a coisa, não podendo ser negada em geral, por haver efeitos particulares que são verdadeiros, o povo,
que não pode discernir quais dentre esses efeitos particulares são os verdadeiros, acredita em todos
eles. Assim também, o que faz que se creia em tantos falsos efeitos da lua é que os há verdadeiros,
como o fluxo do mar.

Tendo considerado como se explica que haja tantos falsos milagres, falsas revelações,
sortilégios, etc., pareceu-me que a verdadeira causa é que os há verdadeiros; pois não seria possível que
houvesse tantos falsos milagres se não os houvesse verdadeiros, nem tantas falsas revelações se não as
houvesse verdadeiras, nem tantas falsas religiões se não houvesse uma verdadeira. Pois, se nunca
tivesse havido tudo isso, é como impossível que os homens o tivessem imaginado, e ainda mais
impossível que tantos outros o tivessem acreditado. Mas, como houvesse grandíssimas coisas
verdadeiras, e que assim foram julgadas por grandes homens, essa impressão deu causa a que quase
todos se tornassem capazes de crer também nas falsas. E assim, em lugar de concluir que não há
verdadeiros milagres, uma vez que há tantos falsos, é preciso dizer, ao contrário, que há verdadeiros
milagres, uma vez que há tantos falsos; e que os há falsos, por isso que os há verdadeiros; e que não há
mesmo falsas religiões senão porque há uma verdadeira. A objeção a isso, de que os selvagens têm uma
religião: mas, é que ouviram falar da verdadeira, como aparece pela cruz de Santo André, o dilúvio, a
circuncisão, etc. Provém isso do fato de que o espírito do homem, achando-se dobrado desse lado pela
verdade, se torna susceptível por isso de todas as falsidades.

VIII

Foi dito: Crede na Igreja; mas, não foi dito: Crede nos milagres; por isso que o último é natural,
e não o primeiro. Um tinha necessidade de preceito, não o outro.

IX

Essas raparigas (40), admiradas de que se diga que elas estão no caminho da perdição, de que os
seus confessores as ponham em Genebra (41), de que eles lhes inspirem que Jesus Cristo não está na
Eucaristia, nem à direita do Pai: sabem elas que tudo isso é falso; oferecem-se, pois, a Deus nesse
estado, (dizendo-lhe com o Profeta): Vide si via iniquitatis in me est (42)(Salmo CXXXIX, 24.) Que
acontece, então? Esse lugar, que se diz ser o templo do diabo, Deus faz dele seu templo. Diz-se que é
preciso tirar dele as crianças: Deus as cura nele. Diz-se que é o arsenal do inferno: Deus faz dele o
santuário de suas graças. Enfim, ameaçam-nas de todas as vinganças do céu, e Deus as cumula com
seus favores. Seria preciso ter perdido o senso para concluir que elas se acham no caminho da perdição.

(Os jesuítas não deixaram, contudo, de tirar essa conclusão; pois concluem de tudo que os seus
adversários são hereges.) Se estes lhes censuram seus excessos, dizem que falam como hereges. Se
dizem que a nossa salvação depende de Deus, são hereges. Se dizem que se submetem ao papa, é uma
hipocrisia. Estão prontos a subscrever todas as suas constituições; isso não basta. Se dizem que é
preciso não matar