pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.431 seguidores
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por uma maçã, combatem a moral dos católicos. Se se fazem milagres entre eles, isso
não é mais uma marca de santidade, e é, ao contrário, uma suspeita de heresia.

(Eis o excesso estranho a que a paixão dos jesuítas os levou; e não lhes restava mais que isso
para destruir os principais fundamentos da religião cristã. Pois) as três marcas da religião (são) a
perpetuidade, a boa vida, os milagres. Eles destroem a perpetuidade pela probabilidade, a boa vida por
sua moral; os milagres, destruindo ou a sua verdade ou a sua conseqüência.

Os hereges os negam ou negam-lhes a conseqüência: os jesuítas também. (Assim), para
enfraquecer os adversários, desarmam a Igreja (e se juntam a todos os seus inimigos, emprestando
deles todas as razões pelas quais combatem os milagres. Pois) a Igreja tem três espécies de inimigos: os
judeus, que nunca foram do seu corpo; os hereges, que dele se retiraram; e os maus cristãos, que a
dilaceram por dentro.

Essas três espécies de diferentes adversários a combatem, de ordinário, diversamente; mas aqui
a combatem de uma mesma maneira. Como são todos sem milagres, e como a Igreja teve sempre
milagres contra eles, tiveram todos o mesmo interesse em omiti-los e se serviram todos desta desculpa:
que é preciso não julgar a doutrina pelos milagres, mas os milagres pela doutrina. Havia dois partidos
entre os que escutavam Jesus Cristo: uns, que seguiam sua doutrina por seus milagres; outros, que
diziam: Ele expulsa os demônios em nome de Belzebú.

Havia dois partidos ao tempo de Calvino: (o da Igreja e o dos sacramentários, que a
combatiam). Há agora os jesuítas, (e os que eles chamam de jansenistas que contestam. Mas, estando os
milagres do lado dos jansenistas, os jesuítas recorreram a essa desculpa geral dos judeus e dos hereges,
segundo a qual é preciso julgar os milagres pela doutrina.)

Não é este o país da verdade: esta era desconhecida entre os homens. Deus cobriu-a de um véu
que a deixa desconhecida dos que não lhe ouvem a voz. O lugar é aberto às blasfêmias, e mesmo sobre
verdades ao menos bem aparentes. Se se publicam as verdades do Evangelho, publicam-se contrárias, e
se obscurecem as questões, de forma que o povo não possa discernir. E pergunta-se:

Que tendes para vos fazerdes crer mais do que os outros? que prodígio fazeis? Não tendes senão
palavras, e nós também. Se tivésseis milagres, bem. Da verdade de que a doutrina deve ser sustentada
pelos milagres se abusa para blasfemar a doutrina. E, se os milagres chegam, diz-se que os milagres
não bastam sem a doutrina, o que é outra verdade para blasfemar os milagres.

Como achais fácil saber as regras gerais, pensando por isso lançar a confusão e tornar tudo
inútil! Sereis impedidos, meu padre (43): a verdade é una e firme.

Era impossível que ao tempo de Moisés se reservasse sua crença ao Anticristo, que lhes era
desconhecido. Mas, é bem fácil, ao tempo do Anticristo, crer em Jesus Cristo, já conhecido.

(Quando os cismáticos fizessem milagres, não induziriam ao erro. E assim não é certo que não
possam fazê-los. O cisma é visível; o milagre é visível; mas, o cisma é mais marcado de erro que o
milagre marcado de verdade. Portanto, o milagre de um cismático não pode induzir ao erro. Mas, fora
do cisma, o erro não é tão visível quanto o milagre é visível. Portanto, o milagre induziria ao erro.
Assim, um milagre entre os cismáticos não é de se temer tanto; pois o cisma, que é mais visível que o
milagre, marca visivelmente o seu erro. Mas, quando não há cisma e o erro está em disputa, o milagre
discerne.

O mesmo sucede com os hereges. Os milagres (lhes) seriam inúteis; pois a Igreja, autorizada
pelos milagres que preocuparam a crença, nós diz que eles não têm a verdadeira fé. Não há dúvida de
que eles não a têm desde que os primeiros milagres da Igreja excluem a fé dos seus, quando eles a
tivessem. Haveria milagres contra milagres, e primeiros e maiores do lado da Igreja; (assim, seria
preciso sempre crer nela contra os milagres.)

(Vejamos, por isso, o que se diz concluir doa milagres de Port-Royal.)

Os fariseus diziam: Non est hic homo a Deo, qui sabbatum custodit (44)(João, IX,16). Os outros
diziam: Quomodo potest homo peccator hiec signa facere? (45) Qual é o mais claro? (Na contestação
presente, uns dizem :) Essa casa não é de Deus; pois não se crê que as suas cinco proposições estejam
em Jansênio. Outros: Essa casa é de Deus : pois nela se fazem estranhos milagres. Qual é o mais claro?

(Assim, a mesma razão que torna culpáveis os judeus de não terem acreditado em Jesus Cristo
torna os jesuítas culpáveis de terem continuado a perseguir a casa de Port-Royal.)

Fora dito aos judeus, assim como aos cristãos, que nem sempre acreditassem nos profetas. No
entanto, os fariseus e os escribas fazem grande estado dos milagres de Jesus Cristo, e tentam mostrar
que eles são falsos ou feitos pelo diabo: tendo necessidade de ser convencidos, se reconhecem que são
de Deus.

Não nos damos, hoje, ao trabalho de fazer esse discernimento; contudo, é bem fácil fazê-lo. Os
que não negam nem Deus nem Jesus Cristo não fazem milagres que não sejam seguros. Mas, nós não
precisamos fazer esse discernimento. Eis uma relíquia sagrada. Eis um espinho da coroa do Salvador
do mundo, em que o príncipe deste mundo não tem poder, que faz milagres pelo próprio poder desse
sangue espalhado por nós. Deus escolheu ele próprio essa casa para nela fazer brilhar o seu poder.

Não são homens que fazem esses milagres por uma virtude desconhecida e duvidosa que nos
obriga a um difícil discernimento. É o próprio Deus; é o instrumento da paixão do seu filho único que,
estando em vários lugares, escolheu esse, e fez vir de todos os lados homens para nele receber esses
alívios milagrosos em seus langores.

A dureza dos jesuítas ultrapassa, pois, a dos judeus, uma vez que estes só recusavam crer em
Jesus Cristo inocente porque duvidavam se os seus milagres eram de Deus. Ao passo que os jesuítas,
não podendo duvidar que os milagres de Port Royal não sejam de Deus, não deixam de duvidar ainda
da inocência desta casa.

(Mas, dizem eles), os milagres não são mais necessários, por isso que já os temos; (e, assim, não
são mais provas da verdade da doutrina. Sim): mas, quando já não escutamos a tradição, quando só
propomos o papa, quando a surpreendemos, e quando, tendo excluído a verdadeira fonte da verdade,
que é a tradição, e tendo prevenido o papa, que é o seu depositário, a verdade já não tem liberdade de
aparecer: então, os homens não falando mais da verdade, é a própria verdade que deve falar aos
homens. Foi o que aconteceu no tempo de Ano.

Os que seguem Jesus Cristo por causa dos seus milagres honram sua potência em todos os
milagres que ela produz; mas, os que, fazendo profissão de o seguir por seus milagres, só o seguem
efetivamente porque ele os consola e os sacia dos bens do mundo, desonram seus milagres, quando eles
são contrários às suas comodidades.

(É o que fazem os jesuítas. Exaltam os milagres: combatem os que os convencem.) Juizes
injustos, não fazeis leis no mesmo instante; julgais por aquelas que foram estabelecidas por vós
mesmos: Vos qui conditis leges iniquas(46).

A maneira pela qual a Igreja subsistiu é que a verdade foi sem contestação; ou, se foi
contestada, houve o papa, e, se não, houve a Igreja.

O milagre é um efeito que excede a força natural dos meios que nele se empregam, e não
milagre é um efeito que não excede a força que nele se emprega. Assim, os que curam por invocação
do diabo não fazem um milagre, pois isso não excede a força natural do diabo.

Os milagres provam o poder que Deus tem sobre os corações por aquele que ele exerce sobre os
corpos.

Importa aos reis, aos príncipes, estar em estima de piedade; e, para isso, é preciso que se
confessem a vós (Dos jesuítas).

Os jansenistas assemelham-se aos hereges pela reforma dos costumes; mas, vós vos assemelhais
a eles no mal.

ARTIGO XVI

PENSAMENTOS DIVERSOS