pascal_pensamentos
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SOBRE A RELIGIÃO

I

O pirronismo é o verdadeiro; pois, afinal de contas, os homens, antes de Jesus Cristo, não
sabiam onde estavam, nem se eram grandes ou pequenos. E os que disseram um ou outro não sabiam
nada disso, e adivinhavam sem razão e por acaso; e mesmo erravam sempre, excluindo um ou outro.

II

A conduta de Deus, que dispõe todas as coisas com doçura, é pôr a religião no espírito pelas
razões, e no coração pela graça. Mas, querer pô-la no coração e no espírito pela força e pelas ameaças,
não é pôr neles a religião, mas o terror. Começai por lastimar os incrédulos; eles são bastante infelizes.
Não seria preciso injuriá-los senão no caso em que isso servisse; mas, isso lhes é prejudicial.

Toda a fé consiste em Jesus Cristo e em Adão; e toda a moral na concupiscência e na graça.

III

O coração tem suas razões, que a razão não conhece: sabe-se isso em mil coisas. Eu digo que o
coração ama o ser universal naturalmente e a si mesmo naturalmente, conforme a isso se aplique; e se
endurece contra um ou outro, à sua escolha. Rejeitastes um e conservastes o outro: é com razão que
amais?

É o coração que sente Deus, e não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração, não à
razão.

IV

O mundo subsiste para exercer misericórdia e julgamento: não como se os homens nele
estivessem saindo das mãos de Deus, mas como inimigos de Deus, aos quais ele dá por graça bastante
luz para voltar se eles querem procurá-lo e segui-lo, mas para puni-los se recusam procurá-lo ou segui-
lo.

V

É bom estar cansado e fatigado pela inútil procura do verdadeiro bem, afim de estender os
braços ao libertador.

Os verdadeiros cristãos obedecem às loucuras; não, todavia, que respeitem as loucuras, mas a
ordem de Deus, que, pela punição dos homens, os sujeitou a essas loucuras.

Há poucos verdadeiros cristãos, e o digo mesmo quanto à fé. Há muitos que crêem, mas por
superstição; há muitos que não crêem, mas por libertinagem. Poucos existem entre os dois.

Não compreendo nisso (na superstição) os que estão na verdadeira piedade de costumes, e todos
os que crêem por um sentimento do coração.

VI

É uma coisa deplorável ver todos os homens não deliberar senão os meios, e não o fim. Cada
qual sonha como cumprirá sua missão; mas, quanto à escolha da condição e da pátria, a sorte no-la dá.

VII

É inútil dizer, é preciso confessar que a religião cristã tem alguma coisa de assombroso! É
porque nascestes nela, dir-se-á. Bem longe disso: eu resisto por essa razão mesma, de medo que essa
prevenção me suborne. Mas, embora eu nela tenha nascido, não deixo de achá-lo assim.

VIII

Há duas maneiras de persuadir as verdades da nossa religião: uma pela força da razão, outra
pela autoridade de quem fala. Não nos servimos da última, mas da primeira. Não dizemos: É preciso
crer nisso pois a Escritura que o diz é divina; mas, dizemos que é preciso crer por tal e tal razão, que
são fracos argumentos, sendo a razão flexível a tudo.

(Os que parecem mais contrários à glória da religião não serão por isso inúteis para os outros.
Faremos disso o primeiro argumento, que há alguma coisa de sobrenatural: pois uma cegueira dessa
espécie não é uma coisa natural; e, se sua loucura os torna tão contrários ao próprio bem, ela servirá
para garantir disso os outros pelo horror de um exemplo tão deplorável e de uma loucura tão digna de
compaixão.)

IX

Sem Jesus Cristo, o mundo não subsistiria; pois seria preciso ou que fosse destruído ou que
fosse como um inferno.

Quem só conhece a natureza só a conhecerá para ser miserável? Quem só a conhece será o
único infeliz?

É preciso que o homem não veja nada absolutamente; é preciso também que não veja bastante
para crer que o possui, mas que veja bastante para conhecer que o perdeu: pois, para conhecer o que se
perdeu, é preciso ver e não ver; e é precisamente o estado em que está a natureza.

Seria preciso que a verdadeira religião ensinasse a grandeza, a miséria; conduzisse à estima e ao
desprezo de si, ao amor e ao ódio.

Vejo a religião cristã fundada sobre uma religião precedente, e eis o que acho de efetivo.

Não falo aqui dos milagres de Moisés, de Jesus cristo e dos apóstolos, porque não parecem de
início convincentes, e porque só quero pôr aqui em evidência todos os fundamentos dessa religião
cristã que são indubitáveis e que não podem ser postos em dúvida por quem quer que seja.

X

A religião é uma coisa tão grande que é justo que os que não desejavam dar-se ao trabalho de
procurá-la, por ser ela obscura, fossem privados dela. De que, pois, nos lastimamos, se ela é tal que a
podemos encontrar quando a procuramos?

O orgulho contrapesa e elimina todas as misérias. Eis um estranho monstro, e um desvio bem
visível (do homem). Caldo do seu lugar, ele a procura com inquietude.

Depois da corrupção, é justo que todos os que estão nesse estado o conheçam, quer os que
gostam, quer os que se desgostam. Mas, não é justo que todos vejam a redenção.

Quando se diz que Jesus Cristo não morreu por todos, abusais de um vício dos homens que se
aplicam incontinente esta exceção: o que é favorecer o desespero, em lugar de os evitar para favorecer
a esperança.

XI

Os ímpios, que se abandonam cegamente às suas paixões sem conhecer Deus e sem dar-se ao
trabalho de procurá-lo, verificam por si mesmos esse fundamento da fé que combatem, que é que a
natureza dos homens está na corrupção. E os judeus, que combatem tão obstinadamente a religião
cristã, verificam ainda este outro fundamento dessa mesma fé que atacam: que é que Jesus Cristo é o
verdadeiro Messias, e que veio redimir os homens e retirá-los da corrupção e da miséria em que eles
estavam; tanto pelo estado em que os vemos hoje e que se acha predito nas profecias, como por essas
mesmas profecias que eles trazem e conservam inviolavelmente como as marcas pelas quais se deve
reconhecer o Messias. (Assim, as provas da corrupção dos homens e da redenção de Jesus Cristo, que
são as duas principais verdades que estabelece o cristianismo, se tiram dos ímpios que vivem na
indiferença da religião, e dos judeus que são seus inimigos irreconciliáveis).

XII

A dignidade do homem consistia, em sua inocência, em dominar as criaturas e aproveitar-se
delas; mas, hoje, consiste em separar-se delas e sujeitar-se a elas.

XIII

(Numerosos são os que erram tanto mais perigosamente quanto tomam uma verdade pelo
princípio do seu erro. A sua falta não é seguir uma falsidade, mas seguir uma verdade com exclusão de
outra.)

Há um grande número de verdades, de fé como de moral, que parecem repugnantes e que
subsistem todas numa ordem admirável.

A fonte de todas as heresias é a exclusão de algumas dessas verdades; e a fonte de todas as
objeções que nos fazem os hereges é a ignorância de algumas dessas verdades.

E, de ordinário, acontece que, não podendo conceber a relação de duas verdades opostas, e
crendo que a confissão de uma encerra a exclusão da outra, eles se apegam a uma e excluem a outra.

1o. exemplo: Jesus Cristo é Deus e homem. Os arianos, não podendo aliar essas coisas que
crêem incompatíveis, dizem que ele é homem: nisso, são católicos. Mas, negam que ele seja Deus:
nisso, são hereges. Pretendem que neguemos sua humanidade: nisso, são ignorantes.

2o. exemplo, a propósito do Santo Sacramento. Cremos que, sendo a substância do pão mudada
consubstancialmente na do corpo de Nosso Senhor, Jesus Cristo está realmente presente. Eis uma
verdade. A outra é que esse sacramento é também uma das figuras da cruz e da glória, e uma
comemoração de ambas. Eis a fé católica, que compreende essas duas verdades que parecem opostas.

A heresia de hoje, não concebendo que esse sacramento contenha ao mesmo tempo a presença
de Jesus Cristo e a sua figura, e que seja sacrifício, acredita que não se pode admitir uma dessas
verdades sem excluir a outra.

Apegam-se, por isso, ao único ponto de que esse sacramento é figurado; e nisso não são
hereges.