pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.479 seguidores
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Pensam que excluímos essa verdade; e eis porque nos fazem tantas objeções sobre as
passagens dos Pais que o dizem. Enfim, negam a presença real; e nisso são hereges.

3o. exemplo: As indulgências.

Eis porque o mais curto meio para impedir as heresias é instruir de todas as verdades, e o mais
seguro meio de refutá-las é declará-las todas.

A graça estará sempre no mundo, e também a natureza, de sorte que é até certo ponto natural. E
assim haverá sempre pelagianos, e sempre católicos, e sempre combate; porque o primeiro nascimento
faz uns, e a graça do segundo nascimento faz outros.

Será uma das confusões dos danados ver que serão condenados por sua própria razão, pela qual
pretendem condenar a religião cristã.

XIV

O que há de comum entre a vida ordinária dos homens e dos santos é que aspiram todos à
felicidade; diferem apenas no objeto em que a colocam. Uns e outros chamam seus inimigos os que os
impedem de alcançá-la.

É preciso julgar o que é bom ou mau pela vontade de Deus, que não pode ser nem injusta, nem
cega, e não pela nossa própria, que é sempre cheia de malícia e de erro.

XV

Quando São Pedro e os apóstolos (Atos, XV) deliberam abolir a circuncisão, em que se tratava
de agir contra a lei de Deus, eles não consultam os profetas, mas simplesmente a recepção do Santo

Espírito na pessoa dos incircuncisos. Julgam mais certo que Deus aprove os que enche com seu
Espírito do que necessário observar a lei; sabiam que o fim da lei não era senão o Santo Espírito, e que
assim, uma vez que o tínhamos sem circuncisão, esta não era necessária.

XVI

Duas leis bastam para regular toda a república cristã melhor do que todas as leis políticas: (o amor de
Deus e o do próximo.)

A religião é proporcionada a todas as espécies de espíritos. Os primeiros se apegam
exclusivamente ao estabelecimento (em que ela está); e essa religião é tal que o seu estabelecimento é
suficiente para provar a sua verdade. As outras vão até aos apóstolos. Os mais instruídos vão até ao
começo do mundo. Os anjos a vêem ainda melhor e de mais longe; (pois a vêem no próprio Deus.)

Aqueles a quem Deus deu a religião por sentimento de coração são bem felizes e bem
persuadidos. Mas, quanto aos que não a têm, só podemos proporcioná-la a eles pelo raciocínio,
esperando que o próprio Deus a imprima no seu coração; sem o que, a fé é inútil para a salvação.

Deus, para reservar-se a si somente o direito de nos instruir, e para exprimir-nos a dificuldade
do nosso ser ininteligível, ocultou o seu nó tão alto, ou melhor, tão baixo, que fôssemos incapazes de
alcançá-lo: de sorte que não é pelas agitações da nossa razão, mas pela simples submissão da razão, que
podemos verdadeiramente conhecer-nos.

XVII

Os ímpios que fazem profissão de seguir a razão devem ser estranhamente fortes em razão. Que
dizem eles, pois? Não vemos, perguntam, morrer e viver os animais como os homens, e os turcos como
os cristãos? Eles têm suas cerimônias, seus profetas, seus doutores, seus santos, seus religiosos, como
nós, etc. Isso é contrário à Escritura? Ela não diz tudo isso? Se não vos importais em saber a verdade,
eis o bastante para ficardes em repouso. Mas, se desejais de todo o coração conhecê-la, isso não é o
bastante; observai em detalhe. Seria o bastante, (talvez), para uma (vã) questão de filosofia; mas, aqui,
onde é óbvio... E, no entanto, após uma ligeira reflexão dessa espécie, divertir-nos-emos, etc.

É uma coisa horrível sentir continuamente escoar-se tudo o que se possui (e a que a gente se
possa ligar, sem ter vontade de procurar se não há alguma coisa de permanente.)

É preciso, ao contrário, viver no mundo segundo estas diversas suposições: Se se pode existir
sempre nele, se é certo que não se existirá mais tempo, e incerto se se existirá uma hora. Esta última
suposição é a nossa.

XVIII

Pelos partidos, deveis dar-vos ao trabalho de pesquisar a verdade. Com efeito, se morreis sem
adorar o verdadeiro princípio, estais perdido. Mas, dizeis, se ele tivesse querido que eu o adorasse, ter-
me-ia deixado sinais de sua vontade. Também ele o fez; mas, vós os negligenciais. Procurai-os ao
menos; bem o merecem.

Os ateus devem dizer coisas perfeitamente claras. Ora, seria preciso ter perdido o bom senso,
para dizer que é perfeitamente claro que a alma é mortal. Eu acho bom que não se aprofunde a opinião
de Copérnico, mas a toda vida importa saber se a alma é mortal ou imortal.

XIX

Os profetas, os milagres mesmo e as outras provas da nossa religião não são de tal natureza que
se possa dizer que sejam absolutamente convincentes. Mas, são também de tal natureza que não se
pode dizer que não se tem razão de crer neles. Assim, há evidência e obscuridade, para esclarecer uns e
obscurecer outros. Mas, a evidência é tal que ultrapassa ou iguala, pelo menos, a evidência do
contrário: de maneira que não é a razão que pode determinar a não segui-la; assim, só podem ser a
concupiscência e a malícia do coração. E, por esse meio, há bastante evidência para condenar e não
bastante para convencer: a fim de parecer que, nos que a seguem, é a graça e não a razão, que faz
seguir; e que, nos que a evitam, é a concupiscência e não a razão que faz evitar.

Quem pode deixar de admirar e abraçar uma religião que conhece a fundo o que se reconhece
tanto mais quanto mais luz se tem?

Um homem que descobre provas da religião cristã é como um herdeiro que acha os títulos de
sua casa. Dirá ele que são falsos e deixará de examiná-los?

XX

Duas espécies de pessoas conhecem um Deus: os que têm o coração humilhado e amam a
baixeza, algum grau de espírito que possuam, alto ou baixo; ou os que têm bastante espírito para ver a
verdade, alguma oposição que possuam.

Os sábios, entre os pagãos, que disseram que só há um Deus, foram perseguidos, os judeus
odiados, os cristãos ainda mais.

XXI

Que têm eles que dizer contra a ressurreição e contra o parto da Virgem? É mais difícil
reproduzir um homem ou um animal do que produzi-lo? E, se nunca tivessem visto uma espécie de
animais, poderiam adivinhar se eles se produzem sem a companhia uns dos outros?.

XXII

(Há grande) diferença entre repouso e segurança de consciência. Nada dá a segurança a não ser a
verdade; e nada dá o repouso a não ser a pesquisa sincera da verdade.

Há duas verdades de fé igualmente constantes: uma, que o homem, no estado da criação, ou no
da graça, é elevado acima de toda a natureza, tornado semelhante a Deus, e participante da divindade;
outra, que, no estado de corrupção e do pecado, desceu desse estado, e se tornou semelhante aos
animais. Essas duas proposições são igualmente firmes e certas.. A Escritura no-las declara
manifestamente quando diz em alguns lugares: Delicioe meoe, esse cum filiis hominum (47)
(Provérbios, VIII, 31). Effundam spiritum meum super omnem carnem (48)(Joel, II, 28). Dii estis,
(49)etc. (Salmo LXXXI, 6); e quando diz em outros: Omnis caro foenum (50) (Isaias, XL, 6). Homo
comparatus est jumentis insipientibus et similis factus est illis (51) (Salmo XLVIII, 13). Dixi in corde

meo de filiis hominum, ut probaret eos Deus et ostenderet similes esse bestiis,(52), etc. (Eclesiastes, III,
18).

XXIII

Os exemplos das mortes generosas dos lacedemônios e outras não nos tocam; pois, que é que
isso nos traz? Mas, o exemplo da morte dos mártires nos toca; pois são nossos membros. Temos um
laço comum com eles: a sua resolução pode formar a nossa, não somente pelo exemplo, mas porque
talvez tenha merecido a nossa. Não há nada disso nos exemplos dos pagãos; não temos ligação com
eles; como não se fica rico para ver um estrangeiro que o é, mas para ver o seu pai ou o seu marido que
o sejam.

XXIV

Os eleitos ignorarão as suas virtudes, e os réprobos os seus crimes. Senhor, dirão uns e outros,
quando vos vimos ter fome? etc. (Mateus, XXV, 37, 44).

Jesus Cristo não quis o testemunho dos demônios, nem o dos que não tinham vocação; mas o de
Deus e o de João Batista.