pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.500 seguidores
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XXV

O que nos indispõe para comparar o que se passou outrora na Igreja com o que se vê agora é
que, ordinariamente, se encaram Santo Atanásio, Santa Teresa e outros como coroados de glória. No
presente, que o tempo esclareceu as coisas, isso parece assim. Mas, ao tempo em que era perseguido,
esse grande santo era um homem que se chamava Atanásio; e Santa Teresa era uma rapariga (como as
outras.) Elias era um homem como nós, e sujeito às mesmas paixões que nós, diz o apóstolo Tiago
(Tiago, V, 17) para desenganar os cristãos dessa falsa idéia que nos faz rejeitar o exemplo dos santos
como desproporcionado ao nosso estado: Eram santos; dizemos; não como nós.

XXVI

Os homens têm desprezo pela religião odeiam-na e têm medo de que seja verdadeira. Para curar
isso, é preciso começar por mostrar que a religião não é contrária à razão; em segui-la, que é venerável,
respeitá-la: torná-la, em seguida, amável; fazer os bons desejarem que fosse verdadeira, e, depois,
mostrar que ela é verdadeira; venerável, porque conheceu bem o homem; amável, porque promete o
verdadeiro bem.

Uma palavra de Davi, ou de Moisés, como que Deus circuncidará os corações (Deuteronômio,
XXX, 6), faz julgar do seu espírito. Que todos os outros discursos sejam equívocos e duvidosos de ser,
filósofos ou cristãos; enfim, uma palavra dessa natureza determina todas as outras, como uma palavra
de Epíteto determina, ao contrário, todo o resto. Até ai, a ambigüidade dura, e não depois.

Eu teria muito mais medo de me enganar e de achar que a religião cristã seja verdadeira do que
de não me enganar acreditando-a verdadeira.

(Por nos enganarmos crendo verdadeira a religião cristã, não há grande coisa que perder. Mas,
que desgraça nos enganarmos crendo-a falsa!)

XXVII

As condições mais fáceis de viver segundo o mundo são as mais difíceis de viver segundo
Deus: e, ao contrário, nada é tão difícil segundo o mundo como a vida religiosa; nada é mais fácil , do
que passá-la segundo Deus: nada é mais fácil do que ter um grande cargo e grandes bens segundo o
mundo; nada é mais difícil do que nele viver segundo Deus, e sem dele tomar parte e gosto.

XXVIII

O Antigo Testamento continha as figuras da alegria futura, e o Novo contém os meios de
alcançá-la. As figuras eram alegria, os meios são penitência; e, contudo, o cordeiro pascoal era comido
com alfaces selvagens, cum amaritudinibus (53)(Êxodo, XII, 8 ex Hebr.), ( para marcar que não se
podia achar a alegria senão na amargura.)

XXIX

A palavra Galileu, que a multidão dos judeus pronunciou como por acaso, acusando Jesus
Cristo perante Pilatos (Lucas, XXIII, 5), deu motivo a Pilatos para enviar Jesus Cristo a Herodes; em
que foi realizado o mistério, segundo o qual ele devia ser julgado pelos judeus e os gentios. O acaso em
aparência foi a causa da realização do mistério;

XXX

Uma pessoa me disse, um dia, que sentia grande alegria e confiança ao sair da confissão; uma
outra me disse que ficava com medo. Pensei, então, que das duas se faria uma boa, faltando em cada
uma o sentimento da outra. XXXI

Há prazer de estar num barco batido pela tempestade, quando se está certo de que ele não
perecerá. As perseguições que trabalham a Igreja são dessa natureza.

A história da Igreja deve ser propriamente chamada história da verdade. XXXII

Como as duas fontes dos nossos pecados são o orgulho e a preguiça, Deus nos descobriu duas
qualidades suas para curá-las: a misericórdia e a justiça. A propriedade da justiça é abater o orgulho,
por santas que sejam as obras, et non intres judicium (54); e a propriedade da misericórdia é combater a
preguiça convidando às boas obras, segundo esta passagem: A misericórdia de Deus convida à
penitência (Romanos, 4), e esta outra dos Ninivitas: Façamos penitência, para ver se porventura ele terá
piedade de nós (Jonas, III, 9). E assim, bem longe da misericórdia autorizar o relaxamento, que é, ao
contrário, a qualidade que o combate formalmente, de sorte que, em lugar de dizer: Se não houvesse em
Deus misericórdia, seria preciso fazer toda sorte de esforços para a virtude; é preciso dizer, ao
contrário, que é por haver em Deus misericórdia que é preciso fazer toda sorte de esforços.

XXXIII

Tudo o que está no mundo é concupiscência da carne, ou concupiscência dos olhos, ou orgulho
da vida, libido sentiendi, libido sciendi, libido dominandi (55) (João, — II, 16). Infeliz a terra de
maldição que esses três rios de fogo abrasam em lugar de regarem! Felizes os que, estando sobre esses
rios, não mergulhados, não arrastados, mas imovelmente firmes, não de pé, mas sentados num assento
baixo e seguro, de que nunca se levantam antes da luz, mas, depois de terem repousado em paz,

estendem a mão ao que os deve levantar para fazê-los ficar de pé e firmes nos pórticos da santa
Jerusalém, onde o orgulho não poderá mais combatê-los e abatê-los; e que, entretanto, choram não de
ver escoarem-se todas as coisas perecíveis, que as torrentes arrastam, mas de saudade de sua pátria, da
Jerusalém celeste, de que se lembram sem cessar na extensão do seu exílio!

XXXIV

Um milagre, diz-se, consolidaria minha crença. Diz-se isso quando não se vê. As razões que,
sendo vistas de longe, parecem limitar nossa vista, não a limitam mais quando se chegou; começa-se a
ver ainda além. Nada detém a volubilidade do nosso espírito. Não há, diz-se, regra que não tenha
alguma exceção, nem verdade tão geral que não tenha alguma face por onde falha. Basta que ela não
seja absolutamente universal para nos dar motivo de aplicar a exceção ao assunto presente, e dizer: Isso
não é sempre verdadeiro; portanto, há casos em que isso não o é. Não resta mais senão mostrar que
aquilo o é; e é em que se é bem desajeitado ou bem desgraçado se tal não se acha algum dia.

XXXV

A caridade não é um preceito figurativo. Dizer que Jesus Cristo, que veio tirar as figuras para
pôr a verdade, só veio para pôr a figura da caridade, para tirar a realidade que era antes, é horrível.

XXXVI

Quantos seres as lunetas nos descobriram que não existiam para os filósofos de outrora!
Atacava-se maldosamente a Escritura santa por causa do grande número de estrelas, dizendo: Existem
somente mil e vinte e duas;, nós o sabemos.

XXXVII

O homem é feito de tal maneira que, à força de lhe dizer que é tolo, ele o crê; e, à força de se
dizer isso a si mesmo, faz-se com que o creia. Com efeito, o homem tem sozinho uma conversação
interior, que importa regular bem: Corrumpunt mores bonos colloquia mala (56)(I, Coríntios, XV, 33).
É preciso ficar em silêncio tanto quanto se puder,. e só se importar com Deus, que se sabe ser a
verdade; e assim a gente se persuade a si mesmo.

XXXVIII

Que diferença entre um soldado e um cartuxo, quanto à obediência? Pois são igualmente
obedientes e dependentes, e em exercícios igualmente penosos. Mas, o soldado espera sempre tornar-se
senhor, e nunca se torna, pois até os capitães e os príncipes são sempre escravos e dependentes; mas,
espera sempre e trabalha sempre para chegar a isso; ao passo que o cartuxo faz voto de nunca ser senão
dependente. Então, não diferem na servidão perpétua que ambos têm sempre, mas na esperança que um
tem sempre e o outro nunca.

XXXIX

A própria vontade nunca se satisfaria, quando tivesse poder de tudo o que quer; mas, fica-se
satisfeito desde o instante em que se renuncia a isso. Com ela, só se pode estar descontente; sem ela, só
se pode estar contente.

A verdadeira e única virtude é odiar a si mesmo, pois se é odiável pela própria concupiscência,
e procurar um ser verdadeiramente amável, para o amar. Mas, como não podemos amar o que está fora
de nós, é preciso amar um ser que esteja em nós, e que não esteja em nós. Ora, só o Ser universal o é. O
reino de Deus está em nós (Lucas, XVII, 21); o bem universal está em nós mesmos, e não somos nós.

XL

É ser supersticioso ter esperança nas formalidades; mas, é ser soberbo não querer submeter-se a
elas.

XLI

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