pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.431 seguidores
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as religiões e todas as seitas do mundo têm tido a razão natural por guia. Só os cristãos
têm sido adstringidos a tomar suas regras fora de si mesmos, e a se informarem das que Jesus Cristo
deixou aos antigos para nos serem transmitidas. Há pessoas que se aborrecem com esse
constrangimento. Querem ter, como os outros povos, a liberdade de seguir as suas imaginações. É em
vão que lhes gritamos, como os profetas faziam outrora aos judeus: Ide à igreja; informai-vos das leis
que os antigos lhe deixaram e segui esses atalhos. Respondem como os judeus: Não iremos; queremos
seguir os pensamentos do nosso coração, e ser como os outros povos.

XLII

Há três meios de crer: a razão, o costume, a inspiração. A religião cristã, que é a única que tem
razão, não admite como verdadeiros filhos os que crêem sem inspiração: não que exclua a razão e o
costume, ao contrário; mas, é preciso abrir o espírito às provas, assegurar-se destas pelo costume,
oferecer-se pelas humilhações às inspirações, que são as únicas que podem fazer o verdadeiro e salutar
efeito: Ut non evacuetur crux Christi (57)(Coríntios, I, 17).

XLIII

Nunca se pratica o mal tão plena e tão alegremente como quando praticado por um falso
princípio de consciência.

XLIV

Os judeus que foram chamados a dominar as nações e os reis foram escravos do pecado; e os
cristãos, cuja vocação foi servir e ser sujeitos, são os filhos livres.

XLV

Haverá coragem num homem moribundo que, na fraqueza e na agonia, afronta um Deus todo-
poderoso e eterno?

XLVI

Eu creio de bom grado nas histórias cujas testemunhas se fazem degolar.

XLVII

O bom temor, vem da fé; o falso temor vem da dúvida. O bom temor traz a esperança, porque
nasce da fé e porque se espera no Deus em que se crê: o mau leva ao desespero, porque se teme o Deus
no qual não se tem fé. Uns temem perdê-lo, outros achá-lo.

XLVIII

Todos os pagãos falavam mal de Israel, e o profeta também; e bem longe está de que os
israelitas tivessem o direito de lhe dizer: Falais como pagãos, pois sua maior força está em que os
pagãos falem como ele.

XLIX

Deus não entende que submetêssemos a nossa crença a ele sem razão, e não pretende sujeitar-
nos com tirania. Mas, não pretende também dar-nos satisfação de todas as coisas; e, para pôr de acordo
essas contrariedades, entende fazer-nos ver nele, claramente, por provas convincentes, marcas divinas
que nos convençam do que ele é, e atrair a si autoridade por maravilhas e provas que não possamos
recusar; e que, em seguida, acreditássemos sem hesitar nas coisas que nos ensina, quando nelas não
encontrássemos outra razão para recusá-las, a não ser que não podemos nós mesmos conhecer se elas
são ou não.

L

Só há três espécies de pessoas: umas, que servem Deus, tendo-o encontrado; outras, que se
empenham em procurá-lo, não o tendo encontrado; e outras, que vivem sem procurá-lo nem o ter
encontrado. As primeiras são razoáveis e felizes; as últimas são loucas e infelizes; as do meio são
infelizes e razoáveis.

LI

Os homens tomam, muitas vezes, sua imaginação por seu coração; e julgam estar convertidos
desde que pensam converter-se.

A razão age com lentidão e com tantas vistas e sobre tantos princípios, os quais é preciso que
sejam sempre presentes, que a toda hora adormece e se afasta por não ter todos esses princípios
presentes. O sentimento não age assim: age num instante e está sempre pronto a agir. É preciso, pois,
pôr nossa fé nos sentimentos do coração; de outro modo, ela será sempre vacilante.

LII

Se há um Deus, é preciso amar somente a ele, e não as criaturas passageiras. O raciocínio dos
ímpios, na Sabedoria, é fundado exclusivamente sobre que não há Deus. Por conseguinte, dizem eles,
gozemos as criaturas: é o que há de pior. Mas, se soubessem que há um Deus que amar, teriam
concluído justamente o contrário. E eis a conclusão dos sábios: há um Deus; não gozemos, pois, as
criaturas. Portanto, tudo o que nos incita a nos ligar às criaturas é mau, pois isso nos impede, ou de
servir Deus se o conhecemos, ou de procurá-lo se o ignoramos. Ora, somos cheios de concupiscência:
portanto, somos cheios de mal; portanto, devemos odiar-nos a nós mesmos, e a tudo o que nos excita a
outro liame que não seja Deus somente.

LIII

Quando queremos pensar em Deus, não há nada que nos desvie e que nos tente a pensar em
outra coisa? Tudo isso é mau e nasceu conosco.

LIV

É falso que sejamos dignos de que os outros nos amem: é injusto que o queiramos. Se
nascêssemos razoáveis ou indiferentes e conhecendo-nos a nós e aos outros, não daríamos essa
inclinação à nossa vontade. Nascemos, no entanto, com ela: nascemos, portanto, injustos, pois tudo
tende a si. Isso é contra toda ordem: é preciso tender ao geral; e a tendência para si é o começo de toda
desordem, em guerra, em polícia, em economia, no corpo particular do homem. A vontade está, pois,
depravada.

Se os membros das comunidades naturais e civis tendem ao bem do corpo, as próprias
comunidades devem tender a um outro corpo mais geral, de que são membros.

Quem não odeia em si o seu amor-próprio e esse instinto que o leva a se fazer Deus é bem cego.
Quem não vê que nada é tão oposto à justiça e à verdade? pois é falso que merecêssemos isso; e é
injusto e impossível chegar a isso, uma vez que todos pedem a mesma coisa. É, pois, uma manifesta
injustiça em que nascemos, da qual não podemos desfazer-nos e da qual é preciso desfazer-nos.

No entanto, nenhuma religião (a não ser a cristã) notou que isso fosse um pecado, nem que nele
tenhamos nascido, nem que fôssemos obrigados a resistir a ele; nem pensou em nos dar os remédios
para ele.

LV

(Há uma) guerra intestina do homem entre a razão e as paixões. (Ele poderia gozar de alguma
paz) se só tivesse a razão sem paixões... se só tivesse as paixões sem razão. Mas, tendo ambas, não
pode existir sem guerra, só podendo ter paz com uma tendo guerra com a outra. Assim, está sempre
dividido e contrário a si mesmo.

Se é uma cegueira sobrenatural a de viver sem procurar o que se é, terrível é a de viver mal
crendo em Deus.

LVI

É indubitável que a alma é mortal ou imortal Isso deve pôr uma diferença completa na moral; e,
no entanto, os filósofos conduziram a moral independentemente disso (Que estranha cegueira !)

O último ato é sangrento, por bela que seja a comédia em todo o resto. Lança-se, enfim, terra
sobre a cabeça, e isso para sempre.

LVII

Tendo feito o céu e a terra sem sentir a felicidade do seu ser, quis Deus fazer seres que
conhecessem e compusessem um corpo de membros pensantes, pois nossos membros não sentem a
felicidade de sua união, de sua admirável inteligência, do cuidado que a natureza tem de neles influir os
espíritos e fazê-los crescer e durar Como seriam felizes se o sentissem, se o vissem! Mas, seria preciso,

para isso, que tivessem inteligência para conhecê-lo e boa vontade para consentir à da alma universal. É
que, se, tendo recebido inteligência, se servissem dela para reter em si mesmos a nutrição, sem deixá-la
passar para os outros membros, seriam não só injustos, mas ainda miseráveis, e se odiariam em lugar de
se amarem: consistindo a sua beatitude, assim como o seu dever, em consentir à conduta da alma
inteira a que pertencem e que os ama mais do que eles se amam a si mesmos.

LVIII

Ser membro é só ter vida, ser e movimento pelo espírito do corpo e para o corpo. O membro
separado, não vendo mais o corpo ao qual pertence, não tem mais que um ser perecente e moribundo.

No entanto, acredita ser um todo; e, não se vendo corpo do qual dependa, crê não depender
senão de si e quer fazer-se centro e o próprio corpo. Mas, não tendo em si princípio de vida, não faz
senão afastar-se e se assombra na incerteza do seu ser, sentindo bem que não é corpo e não vendo,
contudo, que seja membro de um corpo. Enfim, quando vem a se conhecer, é como se tivesse voltado a
si, e se ama exclusivamente para o corpo; lamenta os seus desvios passados.