pascal_pensamentos
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pascal_pensamentos

Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.483 seguidores
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Ele não poderia por sua natureza amar outra coisa, senão para si mesmo e para sujeitá-la a si,
porque cada coisa se ama mais do que tudo. Mas, amando o corpo, ama-se a si mesmo, porque só tem
ser em si, por si e para si: qui adheret Deo unus, spiritus est (58)

O corpo ama a mão; e a mão, se tivesse uma vontade, deveria amar-se da mesma maneira por
que a alma a ama: todo amor que vai além é injusto.

Adherens Deo unus, spiritus est (59)a gente se ama porque é membro de Jesus Cristo. Ama-se
Jesus Cristo porque ele é o corpo de que se é membro. Tudo é um. Um é o outro, como as três pessoas.

É preciso amar somente a Deus e odiar somente a si.

Se o pé tivesse sempre ignorado que pertence ao corpo e se houvesse um corpo de que ele
dependesse, se ele só tivesse tido o conhecimento e o amor de si e viesse a conhecer que pertence a um
corpo do qual depende, que desgosto, que confusão de sua vida passada, de ter sido inútil ao corpo que
lhe influiu sua vida, que o teria aniquilado se o tivesse rejeitado e separado de si, como ele se separava
dele! que súplicas para que nele fosse conservado! e com que submissão se deixaria governar à vontade
que rege o corpo, até consentir em ser amputado quando preciso, ou perderia sua qualidade de membro,
pois é preciso que todo membro queira bem perecer para o corpo, que é o único para quem tudo é.

Para fazer que os membros sejam felizes, é preciso que tenham uma vontade e que a
conformem ao corpo.

A concupiscência e a força são as fontes de todas as nossas ações puramente humanas: a
concupiscência faz os voluntários: a força, os involuntários.

LIX

Os platônicos, e mesmo Epíteto e seus sectários, acreditam que Deus é o único digno de ser
amado e admirado, e desejaram ser amados e admirados pelos homens; e não conhecem sua corrupção.
Se se sentem cheios de sentimentos para amá-lo e adorá-lo, e se acham nisso a sua alegria principal,
estimem-se bons enquanto é tempo. Mas, se se acham repugnantes, se não têm nenhuma tendência

senão para quererem estabelecer-se na estima doa homens, e se, por toda perfeição, fazem somente que,
sem forçar os homens, os façam achar a sua felicidade em amá-los, direi que essa perfeição é horrível.
Como! conheceram Deus e não desejaram unicamente que os homens o amassem, mas que os homens
se detivessem neles; quiseram ser o objeto da felicidade voluntária dos homens!

LX

É verdadeiro que há dificuldade em entrar na piedade. Mas, essa dificuldade não vem da
piedade que começa a existir em nós, mas da impiedade que em nós ainda existe. Se os nossos sentidos
não se opusessem à penitência, e se a nossa corrupção não se opusesse à pureza de Deus, não haveria
nisso nada de penoso para nós. Só sofremos à proporção que o vício que nos é natural resiste à graça
sobrenatural O nosso coração sente-se dilacerado entre esses esforços contrários. Mas, seria bem
injusto imputar essa violência a Deus, que nos atrai, em lugar de atribuí-la ao mundo, que nos retém. É
como uma criança cuja mãe arranca-a dos braços dos ladrões e que deve amar no desgosto que sofre a
violência amorosa e legítima de quem procura a sua liberdade, e só detestar a violência impetuosa e
tirânica dos que a retém injustamente. A guerra mais cruel que Deus pode fazer aos homens, nesta vida,
é deixá-los sem essa guerra que ele veio causar. Eu vim trazer a guerra, disse ele; e, para instruir dessa
guerra, vim trazer o ferro e o fogo (Mateus, X, 34; Lucas, XII, 46). Antes dele, o mundo vivia numa
falsa paz.

LXI

Deus só observa o interior: a Igreja só julga pelo exterior. Deus absolve logo que vê a
penitência no coração; a Igreja, quando a vê nas obras. Deus fará uma Igreja pura por dentro, que
confunda por sua santidade interior e toda espiritual a impiedade interior dos sábios soberbos e dos
fariseus; e a Igreja fará uma assembléia de homens cujos costumes exteriores sejam tão puros que
confundam os costumes dos pagãos. Se há hipócritas tão bem disfarçados que ela não conhece o seu
veneno, tolera-os; com efeito, ainda que eles não sejam recebidos por Deus, que não podem enganar, o
são pelos homens, que enganam. Assim, ela não é desonrada por sua conduta, que parece santa

Mas, quereis que a Igreja não julgue nem o interior, porque isso só compete a Deus, nem o
exterior, porque Deus só se detém no interior, e assim, tirando-lhe toda escolha dos homens, retendes
na Igreja os mais depravados e os que a desonram tanto que as sinagogas dos judeus e as seitas dos
filósofos os teriam exilado como indignos e os teriam abominado como ímpios.

LXII

A lei não destruiu a natureza, mas a instruiu: a graça não destruiu a lei, mas a fez exercer. Faz-
se um ídolo da própria verdade: pois a verdade, fora da caridade, não é Deus: é a sua imagem e um
ídolo que não se deve amar nem adorar; e ainda menos se deve amar e adorar o seu contrário, que é a
mentira.

LXIII

Todos os grandes divertimentos são perigosos para a vida cristã; mas, dentre todos os que o
mundo inventou, não há nenhum que seja mais temível do que a comédia. É uma representação tão
natural e tão delicada das paixões, que as excita e as faz nascer em nosso coração, sobretudo a do amor,
principalmente quando representado muito casto e muito honesto. Com efeito, quanto mais parece
inocente às almas inocentes, tanto mais estas são capazes de se comover. Sua; violência agrada ao

nosso amor-próprio, que forma logo um desejo de causar os mesmos efeitos que se vêem tão bem
representados; e se faz ao mesmo tempo uma consciência fundada sobre a honestidade dos sentimentos
que se vêem, que extingue o medo das almas puras, as quais imaginam que não é ferir a pureza amar
com um amor que lhes parece tão sábio. Assim, saímos da comédia com o coração tão cheio de todas
as belezas e de todas as doçuras do amor, a alma e o espírito tão persuadidos de sua inocência, que
ficamos inteiramente preparados para receber as suas primeiras impressões, ou antes, para procurar a
ocasião de fazê-las nascer no coração de alguém, para receber os mesmos prazeres e os mesmos
sacrifícios que vimos tão bem pintados na comédia.

LXIV

As opiniões relaxadas agradam tanto aos homens que é estranho que as deles (60)lhes
desagradem. É que eles excederam todos os limites. E, além disso, há muita gente que vê o verdadeiro
e não pode atingi-lo. Mas, há pouca que não saiba que a pureza da religião é contrária às nossas
corrupções. Ridículo é dizer que uma recompensa eterna é oferecida a costumes escobartíneos.

LXV

Receio que tenha escrito mal, vendo-me condenado; mas, o exemplo de escritos tão piedosos
me faz acreditar no contrário. Não é mais permitido escrever bem, de tal maneira a Inquisição é
corrompida e ignorante.

É melhor obedecer a Deus do que aos homens. Nada receio; nada espero; os bispos não são
assim. O Port-Royal receia, e é má política separá-los; pois não recearão mais e se farão mais recear.

O silêncio é a maior perseguição. Nunca os santos se calaram. É verdade que é preciso vocação,
mas não são as sentenças do conselho que, é preciso conhecer quando se é chamado; e sim a
necessidade de falar.

Se as minhas Cartas são condenadas em Roma, o que eu nelas condeno é condenado no céu.

A Inquisição e a Sociedade, dois flagelos da verdade.

LXVI

A máquina aritmética produz efeitos que aproximam mais do pensamento do que tudo o que
fazem os animais; mas, não faz nada que possa fazer dizer que ela tem vontade como os animais.

LXVII

A natureza tem perfeições, para mostrar que é a imagem de Deus; e defeitos, para mostrar que é
apenas a sua imagem.

LXIX

Tirai a probabilidade, não se pode mais agradar ao mundo: ponde a probabilidade, não se pode
mais desagradar-lhe.

LXX

O ardor dos santos em investigar e praticar o bem seria inútil se a probabilidade fosse certa.

LXXI

Para fazer de um homem um santo, é preciso que haja a graça; e quem duvida disso não sabe o
que é ser santo nem homem.

LXXII

Deseja-se a certeza. Deseja-se que