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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.479 seguidores
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o papa seja infalível na fé e que os doutores graves o sejam
em seus costumes, afim de ter a sua certeza.

LXXIII

É preciso não julgar o que é o papa por algumas palavras dos Pais, como diziam os gregos num
concílio (regra importante!), mas pelas ações da Igreja e dos Pais, .e pelos cânones.

LXXIV

O papa é o primeiro. Que outro é conhecido por todos? Que outro é reconhecido por todos
como tendo poder de insinuar em todo o corpo, porque detém a noiva branca que se insinua por toda
parte?

LXXV

Há heresia em explicar sempre omnes (61)por todos, e heresia em não explicar às vezes por
todos. Bibite ex hoc omnes (62): os huguenotes, hereges, explicando-o por todos. In quo omnes
peccaverunt (63): os huguenotes, hereges, excetuando os filhos dos fiéis. É preciso, pois, seguir os Pais
e a tradição para saber desde quando há heresia que temer por toda parte.

LXXVI

O menor movimento importa a toda a natureza: o mar inteiro se modifica com uma pedra.
Assim, na graça, a menor ação importa, por suas conseqüências, a tudo. Portanto, tudo é importante.

LXXVII

Todos os homens se odeiam naturalmente entre si. Servimo-nos como podemos da
concupiscência para fazê-la servir ao bem público. Mas, é só fingimento, e uma falsa imagem da
caridade; pois que, no fundo, é só ódio. Esse vil fundo do homem, figmentum malum (64) está apenas
coberto; não está omisso.

LXXVIII

Se se quer dizer que o homem é pouco demais para merecer a comunicaçã9 com Deus, é preciso
ser bem grande para julgar isso. 195

LXXIX

É indigno de Deus juntar-se ao homem miserável; mas, não é indigno de Deus tirá-lo de sua
miséria.

LXXX

(Quem nunca o compreendeu! Que absurdos!) Pecadores purificados sem penitência, justos
santificados sem a graça de Jesus Cristo. Deus sem poder sobre a vontade dos homens, uma
predestinação sem mistério, um Redentor sem certeza.

LXXXI

Unidade, multidão. Considerando a Igreja como unidade, o papa, quem quer que seja ele, é o
chefe, é como tudo. Considerando-a como multidão, o papa é apenas uma parte dela. A multidão que
não se reduz à unidade é confusão; a unidade que não depende da multidão é tirania.

LXXXII

Deus não faz milagres na conduta ordinária de sua Igreja. Seria estranho que a infalibilidade
estivesse em um; mas, estar na multidão, isso parece tão natural, quanto a conduta de Deus estar oculta
sob a natureza, como em todas as suas outras obras.

LXXXIII

(Que a religião cristã não é única), bem longe está de que isso seja uma razão que faça crer que
não é verdadeira, pois que, ao contrário, é o que faz crer que o é.

LXXXIV

A Escritura santa não é uma ciência do espírito, mas do coração. Só é inteligível para os que
têm o coração direito. O véu que existe sobre a Escritura para os judeus também existe para os cristãos.
A caridade é não só o objeto da Escritura santa, mas é também a sua porta..

LXXXV

Se nada fosse preciso senão para o certo, nada se deveria fazer pela religião: pois ela não é
certa. Mas, quantas coisas se fazem pelo incerto! as viagens por mar, as batalhas! Digo, pois, que nada
absolutamente seria preciso fazer, pois nada é certo; e que há mais certeza na religião do que na
esperança de vermos o dia de amanhã: pois não é certo que vejamos amanhã; mas, é certamente
possível que não o vejamos. Não se pode dizer o mesmo da religião. Não é certo que ela o seja; mas,
quem ousará dizer que é certamente possível que não o seja? Ora, quando se trabalha para amanhã e
pelo incerto, age-se com razão.

LXXXVI

As invenções doa homens vão avançando de século em século. A bondade e a malícia do
mundo em geral, também.

LXXXVII

É preciso ter um pensamento retrógrado e julgar tudo por isso: falando, todavia, como o povo.

LXXXVIII

A força é a rainha do mundo, e não a opinião; mas, é a opinião que usa da força.

LXXXIX

O acaso dá os pensamentos, o acaso Os tira; nenhuma arte para conservar nem para adquirir.

XC

É feito padre quem quer sê-lo, como sob Jeroboão.

XCI

Só se consultam os ouvidos porque não se tem coração.

XCII

As crianças que têm medo do rosto que lambuzaram são crianças; mas, o meio de que o que é
tão fraco sendo criança seja bem forte sendo mais idoso? Não se faz senão mudar de fraqueza.

XCIII

Incompreensível que Deus seja, e incompreensível que não seja; que a alma seja com o corpo,
que não tenhamos alma, que o mundo seja criado, que não o seja, etc.; que o pecado original seja, e que
não seja.

XCIV

Ateísmo marca força de espírito, mas até certo ponto somente.

XCV

Incrédulos, os mais crédulos. Crêem nos milagres de Vespasiano, para não crer nos de Moisés

XCVI — Sobre a filosofia de Descartes

É preciso dizer em grosso: Isso se faz por figura e movimento, pois isso é verdadeiro; irias,
dizer quais e compor a máquina, é ridículo; pois é inútil, e incerto, e penoso. E, quando isso fosse
verdadeiro, não estimamos que toda a filosofia valha uma hora de trabalho.

XCVII

A fé é um dom de Deus. Não acrediteis que disséssemos que é um dom de. raciocínio. As outras
religiões não dizem isso de sua fé; davam somente o raciocínio para chegar a ela, que não vem apesar
de tudo.

Deus serviu-se da concupiscência dos judeus para fazê-los servir a Jesus Cristo.

XCVIII

Abraão não tomou nada para si, mas somente para os seus servidores; assim, o justo não toma
nada para si do mundo e dos aplausos do mundo, mas somente para as suas paixões, das quais se serve
como senhor, dizendo: Vai e volta. Sub te erit appetitus tuus (65) As paixões assim dominadas são
virtudes; a avareza, a inveja, a cólera, o próprio Deus as atribui a si; e são tanto virtudes como a
demência, a paciência e a constância, que são também paixões. É preciso servirmo-nos delas como
escravos, e, deixando-lhes seu alimento, impedir que a alma compartilhe; pois, quando as paixões são
as senhoras, elas são vícios, e então dão à alma seu alimento, e a alma com elas se nutre e se envenena.

XCIX

A nossa religião é sábia e louca; sábia, porque é a mais sábia e a mais fundada em milagres,
profetas, etc.; louca, porque não é tudo isso que faz o que se é; o que faz é condenar os que não o são,
mas não crer nos que são. O que os faz crer é a cruz: Ne evacuata sit crux (66). E, assim, São Paulo,
que veio em sabedoria e em sinais, disse que não veio nem em sabedoria nem em sinais, porque vinha
para converter. Mas, os que só vêm para convencer, podem dizer que vêm em sabedoria e em sinais.

C

Fascinatio nugacitatis (67). A fim de que a paixão não prejudique, façamos como se só
houvesse oito dias de vida.

CI

De tudo o que existe sobre a terra, ele (o verdadeiro cristão) só toma parte nos desprazeres, não
nos prazeres; ama os seus próximos, mas a sua caridade não se encerra nesses limites e se espalha sobre
os seus inimigos, e depois sobre os de Deus.

ARTIGO XVII

CONHECIMENTO GERAL DO HOMEM

I

Eis aonde nos conduzem os conhecimentos naturais. Se estes não são verdadeiros, não há
verdade no homem; e, se o são, descubro nisso um grande motivo de humilhação; e, uma vez que ele
não pode subsistir sem crer neles, desejo, antes de entrar em maiores indagações da natureza, que a
considere uma vez seriamente e com vagar, que se observe também a si mesmo e julgue se tem alguma
proporção com ela pela comparação que fará desses dois objetos.

Que o homem contemple, pois, a natureza inteira em sua alta e plena majestade; que afaste a
vista dos objetos baixos que o cercam; que observe essa brilhante luz posta como uma lâmpada eterna
para o universo; que a terra lhe pareça como um ponto, à custa da vasta volta que esse astro descreve
(68); e que se admire de que até essa vasta volta não passe de um ponto insignificante em relação à que
os astros, que rolam no firmamento, abraçam. Mas, se a nossa vista se detém ai, que a imaginação
passe além: ela se deixará antes de conceber que a natureza de fornecer. Todo este mundo visível não é
senão um traço imperceptível no amplo seio da