pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.373 seguidores
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inconstância das
aparências; nada pode fixar o finito entre os infinitos que a encerram e a evitam.

Bem compreendido isso, creio que se ficará em repouso, cada qual no estado em que a natureza
o colocou.

Esse meio que nos coube em partilha, estando sempre distante dos extremos, que importa que o
homem tenha um pouco mais de inteligência das coisas? Se a tem, toma-as um pouco mais de cima.

Não está ele sempre infinitamente afastado da extremidade, e a duração da nossa vida não está
também infinitamente afastada da eternidade, para durar dez anos mais?

Diante desses infinitos, todos os finitos são iguais; e não vejo porque assentar a imaginação
antes sobre um que sobre o outro. Só a comparação que fazemos de nós com o finito nos causa pena.

Se o homem se esforçasse por ser o primeiro, veria quanto é capaz de passar além. Como
admitir que uma parte conheça o todo? Mas, ele aspirará, talvez, à conhecer ao menos as partes com as
quais tem proporção. Mas, as partes do mundo têm todas uma tal relação e um tal encadeamento uma
com a outra, que julgo impossível conhecer uma sem a outra e sem o todo.

O homem, por exemplo, tem relação com tudo o que conhece. Tem necessidade de lugar para
contê-lo, de tempo para durar, de movimento para viver, de elementos para compô-lo, de calor e de
alimentos para nutrir-se, de ar para respirar. Vê a luz, sente os corpos; enfim, tudo cai sob a sua aliança.

É preciso, pois, para conhecer o homem, saber porque é que ele tem necessidade de ar para
subsistir; e, para conhecer o ar, saber porque tem ele relação com a vida do homem, etc.

A chama não subsiste sem o ar: portanto para conhecer um, é preciso conhecer o outro.

Portanto, todas as coisas, sendo causadas e causantes, ajudadas e ajudantes, mediata e
imediatamente, e todas entretendo-se por um laço natural e insensível que liga as mais afastadas e as
mais diferentes, considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, não mais que conhecer o
todo sem conhecer particularmente as partes.

E o que acaba a nossa impotência de conhecer as coisas é que elas são simples em si mesmas e
que nós somos compostos de duas naturezas opostas e de diversos gêneros: de alma e de corpo. Pois é
impossível que a parte que raciocina em nós seja outra senão espiritual; e, quando se pretendesse que
fôssemos simplesmente corporais, isso nos excluiria mais do conhecimento das coisas, não havendo
nada tão inconcebível como dizer que a matéria se conhece a si mesma. Não nos é possível conhecer
como ela se conheceria.

E assim, se somos simplesmente materiais, não podemos conhecer absolutamente nada; e, se
somos compostos de espírito e de matéria, não podemos conhecer perfeitamente as coisas simples,
espirituais e corporais.

Eis porque quase todos os filósofos confundem as idéias das coisas e falam das coisas corporais
espiritualmente e das espirituais corporalmente, pois dizem ousadamente que os corpos tendem para
baixo, que aspiram ao seu centro, que evitam a sua destruição, que temem o vazio, que têm inclinações,
simpatias, antipatias, que são todas as coisas que só pertencem aos espíritos. E, falando dos espíritos
consideram-nos como em um lugar e lhes atribuem o movimento de um lugar para outro, que são
coisas que só pertencem aos corpos Em lugar de receber as idéias dessas coisas puras, nós as tingimos
das nossas qualidades e impregnamos o nosso ser composto (em) todas as coisas simples que
contemplamos.

Quem não acreditaria, ao ver-nos compor todas as coisas de espírito e de corpo, que essa
mistura nos seria bem compreensível? E, contudo, a coisa que menos se compreende. O homem é, em
si mesmo, o mais prodigioso objeto da natureza; pois não pode conceber o que é corpo, e ainda menos
o que é espírito, e menos que nenhuma coisa como um corpo possa ser unida com um espírito. Eis aí o
cúmulo de suas dificuldades, e, no entanto, é o próprio ser: Modus quo corporibus adaeret spiritus
comprehendi ab hominibus non podest; et hoc tamen homen est(72).

Eis uma parte das causas que tornam o homem tão imbecil para conhecer a natureza. Ela é
infinita de duas maneiras, e ele finito e limitado; ela permanece e se mantém perpetuamente em seu ser,
e ele passa e é mortal; as coisas em particular se corrompem e se transformam a cada instante, e ele só
as vê de passagem; elas têm o seu princípio e o seu fim, e ele não conhece nem um nem outro; elas são
simples, e ele é composto de duas naturezas diferentes. E, para consumar a prova da nossa fraqueza,
acabarei por esta reflexão sobre o estado da nossa natureza.

II — Dois infinitos. Meio.

Quando se lê depressa demais ou devagar demais, não se entende nada.

Vinho demais e pouco demais não lho deis, ele não pode achar a verdade; dai-lho demais,
também.

A natureza nos colocou tão bem no meio que, se mudarmos um lado da balança, mudamos
também o outro. Isso me faz crer que há molas em nossa cabeça, de tal maneira dispostas que quem
toca uma toca também a contrária.

Se somos jovens demais, não julgamos bem; velhos demais, também.

Se não meditamos bastante nisso, se não meditamos demais, teimamos e encasquetamos.

Se considerarmos a nossa obra imediatamente depois de a termos executado, ainda somos
bastante prevenidos; se muito tempo depois, não a entendemos mais.

Também os quadrados vistos de muito longe, e de muito perto; e só há um ponto indivisível que
é o verdadeiro lugar: os outros estão perto demais, longe demais, alto demais ou baixo demais. A
perspectiva destina-o à arte da pintura; mas, na verdade e na moral, quem o destinará?

III

Cremos tocar órgãos ordinários quando tocamos o homem: são órgãos, na verdade, mas
bizarros, cambiantes, variáveis, cujas cordas não se seguem por graus conjuntos. Os que só sabem tocar
os ordinários não produziriam acordes.

IV

Conhecemo-nos tão pouco que muitos pensam morrer quando estão passando bem, e muitos
parecem passar bem quando estão próximos da morte, não sentindo a febre próxima ou o abcesso
prestes a se formar.

Quando considero a pequena duração de minha vida absorvida na eternidade precedente e
seguinte, memoria hospitis unius diei proetereuntis (73), o pequeno espaço que encho, e mesmo que
vejo abismado na infinita imensidade dos espaços que ignoro, e que tu ignoras, espanto-me e
assombro-me ao ver aqui antes que lá, pois não havia razão por que aqui antes que lá, por que agora
antes que então! quem me pôs aqui? Por ordem e conduta de quem este lugar e este tempo me foram
destinados?

Porque meu conhecimento é limitado? meu talhe? minha duração em cem anos em lugar de
mil? Que razão teve a natureza de ma dar tal, e de escolher este número em lugar de outro na
infinidade, dos quais não há mais razão de escolher um do que o outro, nada tentando um mais do que o
outro?

ARTIGO XVIII. GRANDEZA DO HOMEM

I

Censuro, igualmente, não só os que tomam o partido de louvar o homem, como também os que
tomam o de o censurar e os que tomam o de o divertir; e só posso aprovar os que procuram gemendo.
Os estóicos dizem: Tornai a entrar dentro de vós mesmos; é ai que encontrareis o vosso repouso: e isso
não é verdadeiro. Outros dizem: Saí e buscai a felicidade divertindo-vos: e isso não é verdadeiro. Vêm
as doenças: a felicidade não está nem em nós, nem fora de nós; está em Deus, tanto fora como dentro
de nós.

II

A natureza do homem se considera de duas maneiras: uma segundo seu fim, e, então ele é
grande e incomparável; outra, segundo a multidão, como se julga da natureza do cavalo e do cão, pelo
hábito de ver neles a corrida e pelo animum arcendi (74); e, então, o homem é abjeto e vil. Eis as duas
vias que fazem julgar disso diversamente, e que fazem os filósofos discutirem tanto: pois um nega a
suposição do outro; um diz: Ele não nasceu para esse fim; pois todas as suas ações lhe repugnam; outro
diz: Ele se afasta do seu fim quando pratica essas ações baixas.

III

Temos uma idéia tão grande da alma do homem que não