pascal_pensamentos
121 pág.

pascal_pensamentos

Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.500 seguidores
Pré-visualização43 páginas
de uma posse tão natural no meio das nossas misérias, dos nossos erros,
etc., que perdemos mesmo a vida com alegria, desde que se fale disso.

III

A vaidade está de tal forma arraigada no coração do homem, que um soldado, um criado, um
cozinheiro, um malandro, se gaba e quer ter seus admiradores; e os filósofos também o querem. É os
que escrevem contra (a glória) querem ter escrito bem, e os que o lêem querem ter a glória de o ter lido;
e eu, que escrevo isto, talvez tenha essa vontade, e talvez os que me lerem... (também a tenham).

IV

Somos tão presunçosos que desejaríamos ser conhecidos de toda a terra, e até das pessoas que
vierem quando nela não estivermos mais; e somos tão vãos que a estima de cinco ou seis pessoas que
nos cercam nos diverte e nós contenta.

V

Curiosidade não é senão vaidade. O mais das vezes, não se quer saber senão para falar disso. De
outro modo, não se viajaria por mar para nunca dizer nada a respeito, e só pelo prazer de ver, sem
esperança de nunca comunicá-lo.

VI

As cidades por onde se passa, a gente não se importa de ser nelas estimado; mas, quando se
deve ai ficar algum tempo, a gente se importa. Quanto tempo é preciso? Um tempo proporcionado à
nossa duração vã e mesquinha.

VII

Quem quiser conhecer por completo a vaidade do homem não tem senão que considerar as
causas e os efeitos do amor. A causa é um não sei quê (Corneille) e os efeitos são espantosos. Esse não
sei quê, tão pouca coisa que não se pode reconhecê-lo, revolve toda a terra, os príncipes, os exércitos, o
mundo inteiro.

Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto, toda a face da terra teria mudado.

VIII

Que uma coisa tão visível como é a vaidade do mundo seja tão pouco conhecida, que seja uma
coisa estranha e surpreendente dizer que é uma tolice procurar as grandezas, isso é admirável!

IX — Amor-próprio (76)

A natureza do amor-próprio e desse eu humano é não amar senão a si, e não considerar senão a
si. Mas, que fará ele? Ele não saberia impedir que esse objeto que ama não seja cheio de defeitos e de
misérias: quer ser grande e se vê pequeno: quer ser feliz e se vê miserável: quer ser perfeito e se vê
cheio de imperfeições: quer ser o objeto do amor e da estima dos homens, e vê que os seus defeitos só
merecem a sua aversão e o seu desprezo. Esse embaraço em que se acha produz nele a mais injusta e
mais criminosa paixão que é possível imaginar-se; pois concebe um ódio mortal contra essa verdade
que o repreende e o convence dos seus defeitos. Desejaria aniquilá-la e, não podendo destruí-la em si
mesma, ele a destrói, tanto quanto pode, no seu conhecimento e no dos outros; isto é, põe todo o seu
cuidado em ocultar seus defeitos aos outros e a si mesmo, e não pode tolerar que o façam vê-los, nem
que os vejam.

É sem dúvida um mal ser cheio de defeitos; mas, é ainda um mal maior ser cheio deles e não
querer reconhecê-los, de vez que isso é ajuntar-lhes ainda o de uma ilusão voluntária. Não queremos
que os outros nos enganem; não achamos justo que queiram ser estimados por nós mais do que
merecem: não é, pois, justo também que os enganemos e queiramos que nos estimem mais do que o
merecemos.

Assim, quando eles só descobrem em nós imperfeições e vícios que na realidade temos, é
visível que não nos fazem injustiça, pois não são eles a causa disso; e nos fazem um bem, pois nos
ajudam a nos livrarmos de um mal, que é a ignorância dessas imperfeições. Não devemos aborrecer-
nos pelo fato de as conhecerem, sendo justos, e nos conhecerem pelo que somos, e nos desprezarem se
somos desprezíveis.

Eis os sentimentos que nasceriam de um coração que fosse cheio de eqüidade e de justiça. Que
devemos dizer, pois, do nosso, vendo nele uma disposição inteiramente contrária? Pois não é
verdadeiro que odiamos a verdade e os que no-la dizem, e gostamos que se enganem em nosso
benefício, e queremos ser por eles julgados outros que não somos na realidade?

Eis disso uma prova que me causa horror. A religião católica não obriga a descobrir seus
pecados indiferentemente a toda a gente: tolera que se fique oculto a todos os outros homens, mas
excetua um só a quem recomenda descobrir o fundo do seu coração e fazer-se ver tal qual se é. Só há
esse único homem no mundo que ela nos ordena que desenganemos, e obriga a um segredo inviolável,
que faz que esse conhecimento esteja nele como se não o estivesse. Pode-se imaginar nada mais
caritativo e mais doce? E, contudo, a corrupção do homem é tal que acha ainda dureza nessa lei, e é
uma das principais razões que fazem revoltar contra a Igreja uma grande parte da Europa.

Como o coração do homem é injusto e extravagante, para achar mau que o obriguem a fazer em
relação a um homem o que seria justo, de certa maneira, que ele fizesse em relação a todos os homens!
Pois é justo que nos enganemos?

Há diferentes graus nessa aversão pela verdade; mas, pode dizer-se que ela existe em todos em
algum grau, porque é inseparável do amor-próprio. É essa má delicadeza que obriga os que estão na
necessidade de repreender os outros a escolher tantos atalhos e temperamentos para evitar chocá-los.
Precisam diminuir os nossos defeitos, fazer menção de desculpá-los, misturar a isso louvores e
testemunhos de afeição e estima. Com tudo isso, essa medicina não deixa de ser amarga ao amor-
próprio. Ele toma o menos que pode e sempre com desgosto, e muitas vezes mesmo com um secreto
despeito contra os que lha apresentam.

Acontece, por isso, que, quando se tem algum interesse em ser amado por nós, evita-se dar-nos
um ofício que se sabe nos ser desagradável; tratam-nos como queremos: odiamos a verdade, no-la
ocultam; queremos ser adulados, adulamos; gostamos de ser enganados, enganam-nos.

É o que faz que cada grau de boa fortuna que nos eleva no mundo nos afaste mais da verdade,
porque se receia mais ferir aqueles cuja afeição é mais útil e cuja aversão mais perigosa. Um príncipe
será a fábula de toda a Europa, e somente ele nada saberá. Não me admira: dizer a verdade é útil àquele
a quem a dizem, mas desvantajoso aos que a dizem, porque eles se fazem odiar. Ora, os que vivem com
os príncipes amam mais os seus interesses do que os do príncipe que servem; e, assim, não se
incomodam de lhe proporcionar uma vantagem prejudicando-se a si mesmos.

Essa infelicidade é, sem dúvida, maior e mais ordinária nas maiores fortunas; mas, as menores
não estão isentas, porque há sempre algum interesse em se fazer amar pelos homens. Assim, a vida
humana não é senão uma ilusão perpétua; não se faz outra coisa senão enganar-se e adular-se
mutuamente. Ninguém fala de nós em nossa presença como fala em nossa ausência. A união que existe
entre os homens é fundada .exclusivamente sobre esse recíproco ludíbrio; poucas amizades subsistiriam
se um soubesse o que seu amigo diz de si quando ele não está, embora falando sinceramente e sem
paixão.

O homem não é, pois, senão disfarce, mentira e hipocrisia, quer em si mesmo, quer em relação
aos outros. Não quer que se lhe diga a verdade, evita dizê-la aos outros; e todas essas disposições, tão
afastadas da justiça e da razão, têm uma raiz natural em seu coração.

X — Imaginação.

É essa parte enganadora no homem, essa senhora de erro e de falsidade, tanto mais velhaca
quanto não o é sempre; pois seria regra infalível de verdade, se o fosse infalível de mentira. Mas, sendo
o mais das vezes falsa, não dá nenhuma marca de sua qualidade, marcando com o mesmo caráter o
verdadeiro e o falso.

Não falo dos loucos, falo dos mais sábios, e é entre eles que a imaginação tem o grande dom de
persuadir os homens. A razão tem ocasião de gritar, não pode pôr preço às coisas.

Essa soberba potência inimiga da razão, que se compraz em controlá-la e em dominá-la para
mostrar quanto pode em todas as coisas, estabeleceu no homem uma segunda natureza. Tem seus
felizes, seus infelizes, seus sãos, seus doentes, seus ricos, seus pobres; faz crer, duvidar, negar a razão;
suspende