pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.373 seguidores
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os sentidos, fá-los sentir; tem seus loucos e seus sábios: e nada nos despeita mais do que ver
que ela enche seus hóspedes de uma satisfação, bem ao contrário, plena e completa, que não a razão.
Os hábeis por imaginação se comprazem, bem ao contrário, em si mesmos, de que os prudentes não se
possam razoavelmente agradar. Observam as pessoas com império; disputam com ousadia e confiança;
os outros, com medo e desconfiança: e essa alegria de rosto lhes dá muitas vezes vantagem na opinião
dos ouvintes, de tal maneira os sábios imaginários gozam de favor junto aos juizes do mesmo modo
que a natureza! Ela não pode tornar sábios os loucos; mas, os torna felizes em relação à razão, que só
pode tornar seus amigos miseráveis, uma cobrindo-os de glória, a outra de vergonha.

Quem dispensa a reputação? quem dá o respeito e a veneração às pessoas, às obras, às leis, aos
grandes, senão essa faculdade imaginante? Todas as riquezas da terra são insuficientes sem o seu
consentimento.

Não diríeis que esse magistrado, cuja velhice venerável impõe respeito a todo um povo, se
governa por uma razão pura e sublime e que julga coisas por sua natureza, sem deter-se nessas vãs
circunstâncias que só ferem a imaginação dos fracos? Vêde-o entrar num sermão em que traz um zelo
todo devoto, reforçando a solidez da razão pelo ardor da caridade. Ei-lo pronto a ouvir com um respeito
exemplar. Que o pregador chegue a aparecer: se a natureza lhe deu uma voz rouquenha e uma
fisionomia esquisita, se o seu barbeiro o barbeou mal, se o acaso ainda por cima o lambuzou, por
maiores que sejam as verdades que ele anuncia, aposto pela perda da gravidade do nosso senador.

O maior filósofo do mundo, sobre uma tábua mais larga do que é preciso, se há em baixo um
precipício, embora a razão o convença de sua segurança, a imaginação prevalecerá. A maioria não
poderia sustentar o pensamento sem empalidecer e suar.

Quem não sabe que a visão dos galos, dos ratos, o esmagamento de um carvão, põe a razão fora
dos gonzos? O tom de voz impõe aos mais sábios e muda um discurso e um poema de face.

A afeição ou o ódio mudam a justiça de face: e quanto um advogado bem pago adiantadamente
acha mais justa a causa que defende! quanto o seu gesto ousado o faz parecer melhor aos juizes
enganados por essa aparência! Divertida razão que um vento maneja em todos os sentidos!

Não quero relacionar todos os seus efeitos (77); eu relacionaria quase todas as ações dos
homens que quase só se abalam por suas sacudidelas. Pois a razão tem sido obrigada a ceder, e a mais
sábia toma por seus princípios os que a imaginação dos homens temerariamente introduziu em cada
lugar.

Os nossos magistrados conheceram bem esse mistério. As suas túnicas vermelhas, os arminhos
com que se enfaixam de gatos pingados, os palácios em que julgam, as flores-de-lis, todo esse aparato
augusto era muito necessário: e, se os médicos não tivessem sotainas e galochas, e os doutores não
tivessem bonés quadrados, e túnicas muito amplas de quatro partes, nunca teriam enganado o mundo,
que não pode resistir a esse monstro tão autêntico. Só os homens de guerra não estão disfarçados assim,

porque na realidade a sua parte é mais essencial: estabelecem-se pela força, ao passo que os outros pela
careta.

Eis porque os nossos reis não investigaram esses disfarces. Não estão mascarados de hábitos
extraordinários para parecer tais; mas, estão acompanhados de guardas, de alabardas: essas carrancas
armadas que não têm mãos e força senão para eles, as trombetas e os tambores que marcham na frente,
e essas legiões que os cercam, fazem tremer os mais firmes. Não têm o hábito somente, têm a força.
Seria preciso ter uma razão bem purificada para observar como outro homem o Grande Senhor cercado,
em seu soberbo serralho, de quarenta mil janízaros.

Se eles (78)tivessem a verdadeira justiça, se os médicos tivessem a verdadeira arte de curar, não
precisariam fazer bonés quadrados: a majestade dessas ciências seria bastante venerável por si mesma.
Mas, só tendo ciências imaginárias, precisam tomar esses vãos instrumentos que ferem a imaginação
com que se relacionam; e, por isso, na realidade se fazem respeitar.

Não podemos nem mesmo ver um advogado com sotaina e o boné na cabeça, sem uma opinião
favorável de sua suficiência.

A imaginação dispõe de tudo; faz a beleza, a justiça e a felicidade, que é tudo no mundo. Eu
desejaria de bom grado ver o livro italiano, do qual só conheço o titulo, que vale sozinho muitos livros,
Della Opinione, Regina del Mondo (79). Subscrevo-o sem o conhecer, salvo o mal, se nele existe.

Eis, aproximadamente, os efeitos dessa faculdade enganosa que parece nos ser dada de
propósito para induzir-nos a um erro necessário. Temos princípios bem diferentes.

ARTIGO XX

FRAQUEZA DO HOMEM; INCERTEZA DE SEUS CONHECIMENTOS NATURAIS

I

O homem não é senão um sujeito cheio de erro natural e indelével sem a graça. Nada lhe mostra
a verdade; tudo o engana. Esses dois princípios de verdade, a razão e os sentidos, além de não terem
sinceridade, se enganam reciprocamente. Os sentidos enganam a razão com falsas aparências; e até essa
balela que impingem à razão, recebem-na dela por sua vez. Ela se vinga: as paixões da alma perturbam
os sentidos e lhes causam impressões falsas: mentem e se enganam mutuamente.

II

O que me assombra mais é ver que nem todos se admiram de sua fraqueza. Age-se seriamente e
cada um segue sua condição, não porque seja bom, de fato, segui-la, de vez que a moda é fazê-lo, mas
como se cada um soubesse com certeza onde estão a razão e a justiça. Achamo-nos caídos a toda hora,
e, por uma agradável humildade, acreditamos que seja sua falta, e não a da arte. (80), que nos gabamos
sempre de possuir. Mas, é bom que haja tanta gente assim no mundo, que não seja pirroniana pela
glória do pirronismo, afim de mostrar que o homem é bem capaz das mais extravagantes opiniões,
desde que é capaz de crer que não está nesta fraqueza natural e inevitável, e que está, ao contrário, na
sabedoria natural.

III

As impressões antigas não são as únicas capazes de nos iludir: os encantos da novidade têm o
mesmo poder. Dai provêm todas as disputas dos homens, que se recriminam, ou por se deixarem levar
por falsas impressões da infância, ou por seguirem temerariamente as novas. Quem tem o justo meio?
Que apareça e que o prove. Não há princípio, por natural que possa ser, mesmo desde a infância, que
não se faça passar por uma falsa impressão, seja da instrução, seja dos sentidos. Porque, diz-se,
acreditastes desde a infância que um cofre estava vazio quando nele não víeis nada, acreditastes o vazio
possível; é uma ilusão dos vossos sentidos, fortificada pelo costume, que é preciso que a ciência corrija.
E os outros dizem: Porque vos disseram na escola que não há vazio, corromperam o vosso, senso
comum, que o compreendia tão nitidamente antes, com essa má impressão que é preciso corrigir
recorrendo à vossa primeira natureza. Quem, pois, enganou? os sentidos ou a instrução?

Temos um outro princípio de erro, as moléstias. Elas nos prejudicam o julgamento e os
sentidos. E, se as grandes o alteram sensivelmente, não duvido que as pequenas causem impressão em
sua proporção.

O nosso próprio interesse é ainda um maravilhoso instrumento para nos furar os olhos
agradavelmente. Não é permitido ao mais eqüitativo dos homens do mundo ser juiz em própria causa:
conheço, ao contrário, os que, para não caírem nesse amor-próprio, têm sido os mais injustos do
mundo. O meio seguro de perder um negócio inteiramente justo era fazer recomendá-lo a eles por seus
parentes próximos. A justiça e a verdade são duas pontas tão sutis que os nossos instrumentos são
embotados demais para tocar-lhes exatamente. Se o conseguem, amassam a ponta e apoiam tudo ao
redor, mais sobre o falso que sobre o verdadeiro.

IV

O espírito desse soberano juiz do mundo não é tão independente que não esteja sujeito a ser
perturbado pelo