pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.159 materiais34.427 seguidores
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primeiro barulho que se faça em volta dele. Não é preciso o ruído de um canhão para
impedir os seus pensamentos: basta o ruído de um cata-vento ou de uma roldana. Não vos espanteis se
ele não raciocina bem agora; uma mosca zumbe aos seus ouvidos: é o bastante para torná-lo incapaz de
conselho. Se quereis que ele possa achar a verdade, expulsai esse animal que põe sua razão em xeque e
perturba essa poderosa inteligência que governa as cidades e os reinos. Que deus divertido! O
ridicolissimo eroe!

V

Como é difícil propor uma coisa ao julgamento de outrem, sem corromper o seu julgamento
pela maneira de lha propor! Se digo: Acho-o belo, acho-o obscuro ou outra coisa semelhante, induzo a
imaginação a esse julgamento, ou, ao contrário, irrito-a. É melhor nada dizer; e então ele julga segundo
o que é, isto é, conforme as outras circunstâncias, das quais não é autor, se tiverem apresentado. Mas,
ao menos, nada se terá introduzido, a não ser que esse silêncio faça também o seu efeito, conforme a
vez e a interpretação que lhe aprouver dar-lhe, ou conforme conjeturar movimentos e fisionomia ou
tom da voz, conforme seja fisionomista: de tal maneira é difícil não desmontar um julgamento do seu
assento natural, ou antes, tão pouco tem ele de firme e estável!

VI

A coisa mais importante na vida é a escolha de uma profissão. É o acaso que dispõe. O costume
faz os pedreiros, soldados, empalhadores. É um excelente empalhador, diz-se; e falando dos soldados:
São bem loucos, diz-se; e os outros, ao contrário: Não há nada de grande senão a guerra; os outros

homens são velhacos. À força de ouvir louvar na infância esses ofícios, e desprezar todos os outros,
escolhe-se; com efeito, naturalmente, ama-se a virtude e odeia-se a loucura. Essas palavras nos
comovem: só se peca na aplicação; é tão grande a força do costume que, daqueles que a natureza só fez
homens, se fazem todas as condições dos homens; com efeito, países inteiros são todos de pedreiros,
outros todos de soldados, etc. Sem dúvida que a natureza não é tão uniforme. É, pois, o costume que
faz isso, pois constrange a natureza; e, às vezes, também, a natureza o vence e retém o homem no seu
instinto, mau grado todo costume, bom ou mau.

VII

Não ficamos nunca no tempo presente. Antecipamos o futuro como demasiado lento para vir,
como para apressar o seu curso; recordamos o passado, para pará-lo, como demasiado pronto: tão
imprudentes que erramos nos tempos que não são nossos e não pensamos só no que nos pertence; e tão
vãos que sonhamos com os que não são mais nada e evitamos sem reflexão o único que subsiste. É que
o presente de ordinário nos fere. Ocultamo-lo à nossa vista, porque nos aflige; e, se nos é agradável,
arrependemo-nos de vê-lo escapar. Tratamos de sustentá-lo pelo futuro, e pensamos em dispor as coisas
que não estão em nosso poder para um tempo que não temos nenhuma certeza de alcançar.

Que cada um examine o seu pensamento, e o achará sempre ocupado com o passado e o futuro.
Quase não pensamos no presente: e, quando pensamos, é só para tirar dele a luz para dispor do futuro.
O presente nunca é o nosso fim. Assim, não vivemos nunca, mas esperamos viver; e, dispondo-nos
sempre a ser felizes, é inevitável que não o sejamos nunca, (se não aspiramos a outra beatitude além da
que se pode gozar nesta vida.)

VIII

A nossa imaginação nos aumenta tanto o tempo presente, à força de sobre o mesmo fazer
reflexões contínuas, e diminui de tal forma a eternidade, à falta de refletir sobre ela, que fazemos da
eternidade um nada e do nada uma eternidade; e tudo isso tem suas raízes tão vivas em nós que toda a
nossa razão não nos pode impedir disso.

IX

Cromwell teria destruído toda a cristandade, a família real se teria perdido e a sua se tornado
poderosa como nunca, se não fosse um pequeno grão de areia que se introduzira em sua uretra. E até
Roma teria tremido sob o seu domínio, se essa areiazinha, que não valia nada em outro lugar,
introduzindo-se ali, não o tivesse morto, derrubando sua família e restabelecendo o rei.

X

A vontade é um dos principais órgãos da crença: não que forme a crença, mas porque as coisas
são verdadeiras ou falsas, segundo a face pela qual são observadas. A vontade, que se compraz mais em
uma do que na outra, desvia o espírito de considerar as qualidades daquela que ela não gosta de ver; e
assim o espírito, marchando juntamente com a vontade, detém-se em observar a face que ama; e, assim,
julga pelo que vê.

XI

A imaginação aumenta os pequenos objetos até encher deles a nossa alma por uma estimação
fantástica; e, por uma insolência temerária, diminui os grandes até à sua medida, como falando de
Deus.

XII

Todas as ocupações dos homens consistem em obter o bem; eles não saberiam ter titulo para
mostrar que o. possuem por justiça, pois têm apenas a fantasia dos homens, nem força para possuí-lo
com certeza. O mesmo sucede com a ciência; a moléstia no-la tira.

XIII

Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela nos afetaria tanto quanto os objetos que
vemos todos os dias; e, se um artesão estivesse certo de sonhar, todas as noites, durante doze horas, que
é rei, creio que ele seria quase tão feliz quanto um rei que sonhasse, todas as noites, durante doze horas,
que era artesão. Se sonhássemos todas as noites que somos perseguidos por inimigos e agitados por
fantasmas penosos, e se se passassem todos os dias em diversas ocupações, como quando se faz uma
viagem, sofrer-se-ia quase tanto como se isso fosse verdadeiro, e se teria receio de dormir como se tem
de despertar quanto se teme entrar (realmente) em tais desgraças. Com efeito, esses sonhos causariam
quase os mesmos males que a realidade. Mas, porque os sonhos são todos diferentes e se diversificam,
o que se vê neles afeta bem menos que o que se vê em vigília, por causa da continuidade, que não é,
contudo, tão contínua e igual que não mude também; mas, menos bruscamente, se não raramente, como
quando se viaja; e então se. diz: Parece-me que sonho; pois a vida é um sonho um pouco menos
inconstante.

XIV

Supomos que todos os homens concebem e sentem da mesma maneira: mas, nós o supomos
bem gratuitamente, pois não temos disso nenhuma prova. Bem vejo que se aplicam as mesmas palavras
nas mesmas ocasiões e que, todas as vezes que dois homens vêem um corpo mudar de lugar, exprimem
ambos a visão desse mesmo objeto pelas mesmas palavras, dizendo cada qual que ele se moveu; e
dessa conformidade de aplicação se tira uma poderosa conjectura de uma conformidade de idéias: mas,
isso não é absolutamente convincente da última convicção, embora seja bem o caso de apostar pela
afirmativa, uma vez que se sabe que se tiram muitas vezes as mesmas conseqüências de Suposições
diferentes.

XV

Quando vemos um efeito acontecer sempre da mesma forma, concluímos daí uma necessidade
natural como se amanhã fosse hoje, etc.; mas, muitas vezes, a natureza nos desmente e não se sujeita às
suas próprias regras.

As ciências têm duas extremidades que se tocam: a primeira é a pura ignorância natural em que
se acham todos os homens ao nascer; a outra extremidade é aquela a que chegam as grandes almas que,
tendo percorrido tudo o que os homens podem saber, acham que não sabem nada e se tornam a
encontrar nessa mesma ignorância de onde partiram. Mas, é uma ignorância sábia que se conhece.
Aqueles dentre os que saíram da ignorância natural e não puderam chegar à outra têm alguma tintura
dessa ciência suficiente, e fazem-se de entendidos. Esses perturbam o mundo e julgam mais mal de

tudo que os outros. O povo e os hábeis compõem, de ordinário, o trem do mundo: os outros o
desprezam e são desprezados.

ARTIGO XXI

MISÉRIA DO HOMEM

Nada é mais capaz de nos fazer entrar no conhecimento da miséria dos homens do que
considerar a causa verdadeira da agitação perpétua na qual passam a vida.

A alma é lançada no corpo para ai fazer uma estadia de pouca duração. Sabe que é apenas uma
passagem a