pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.500 seguidores
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uma viagem eterna e que só dispõe do pouco tempo que dura a vida para se preparar. Às
necessidades da natureza lhe arrebatam uma parte muito grande dela. Só lhe resta muito pouco de que
possa dispor. Mas, esse pouco que lhe resta a incomoda tanto e a embaraça de modo tão estranho que
ela só pensa em perdê-la. É, para ela, uma pena insuportável ser obrigada a viver consigo e a pensar em
si. Assim, todo o seu cuidado consiste em se esquecer de si mesma e deixar correr esse tempo tão curto
e tão precioso sem reflexão, ocupando-se com coisas que a impedem de pensar nisso.

Eis a origem de todas as ocupações tumultuárias dos homens e de tudo o que se chama de
divertimento ou passatempo, nos quais, de fato, não se tem por fim senão deixar neles passar o tempo
sem o sentir, ou antes, sem se sentir a si mesmo, e evitar, perdendo essa parte da vida, a amargura e o
desgosto interior que acompanhariam necessariamente a atenção que se prestasse a si mesmo durante
esse tempo. A alma não acha nada em si que a contente; não vê nada que não a aflija quando medita. É
o que a constrange a transbordar-se e a procurar, na aplicação às coisas exteriores, perder a lembrança
do seu estado verdadeiro. Sua alegria consiste nesse esquecimento, e basta, para torná-la miserável,
obrigá-la a se ver e a estar consigo.

I

Encarregam os homens, desde a infância, do cuidado de sua honra, do seu bem, e ainda do bem
é da honra dos seus amigos Atormentam-nos com negócios, com a aprendizagem das línguas e das
ciências, e fazem-nos entender que não poderiam ser felizes sem a sua saúde, a sua honra, a sua fortuna
e a dos seus amigos estarem em bom estado, e que uma só coisa que falte os tornaria infelizes. Assim,
dão-lhes cargos e negócios que os fazem labutar desde o despontar do dia. Eis, direis, uma estranha
maneira de torná-los felizes; que se poderia fazer de melhor para torná-los infelizes? Como! que se
poderia fazer? Bastaria tirar-lhes todas as suas preocupações: e, então, eles se veriam, pensariam no que
são, de onde vêm, para onde vão; e, assim, não se pode ocupá-los e desviá-los .tanto; e eis porque,
depois de lhes terem preparado tantos negócios, se eles têm algum tempo de folga, aconselham-nos a
empregá-lo exclusivamente em diversões, passatempos e ocupações.

II

Quando me pus, algumas vezes, a considerar as diversas agitações dos homens e os perigos e as
penas a que se expõem, na corte, na guerra, de onde nascem tantas querelas, paixões, empresas ousadas
e muitas vezes más, eu disse muitas vezes que toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa,
que é não saberem ficar em repouso num quarto. Um homem que tem bastante fortuna para viver, se
soubesse ficar em casa com prazer, não sairia para ir à praia, ou à sede de um lugar. Só se comprará tão
caro um posto no exército porque se achará insuportável permanecer na cidade; e só se procuram a
conversação e os divertimentos dos jogos porque não se pode ficar em casa com prazer.

Mas, quando observei de mais perto e, depois de ter achado a causa de todas as nossas
infelicidades, quis descobrir a razão disso, achei que há uma bem efetiva, que consiste na infelicidade
natural da nossa condição fraca e mortal e tão miserável que nada nos pode consolar, quando pensamos
nisso de perto.

Qualquer condição que se imagine, quando se comparam todos os bens que podem pertencer-
nos, a realeza é o mais belo posto do mundo, e, no entanto, imagine-se um rei acompanhado de todas as
satisfações que podem tocá-lo, se ele está sem divertimento, deixem-no considerar e fazer reflexões
sobre o que é, e essa felicidade languecente não o sustentará; ele cairá por necessidade nas vistas que o
ameaçam das revoltas que podem irromper e enfim da morte e das doenças que são inevitáveis; de
maneira que, se está sem o que se chama divertimento, ei-lo infeliz e mais infeliz que o menor dos seus
súditos que brinca e se diverte.

A dignidade real não é bastante grande por si mesma para tornar feliz aquele que a possui pela
simples visão do que é? Será preciso ainda diverti-lo desse pensamento, como as pessoas comuns? Bem
vejo que é tornar um homem feliz desviá-lo da visão de suas misérias domésticas, para encher todo o
seu pensamento do cuidado de dançar bem. Mas, será assim também com um rei, e será ele mais feliz
ligando-se a esses vãos divertimentos do que à visão de sua grandeza?

Que objeto mais satisfatório se poderia dar ao seu espírito? Não seria, então, prejudicar-lhe a
alegria ocupar sua alma com o pensar em ajustar os passos à cadência de uma ária, ou em colocar
destramente uma bola, em lugar de deixá-lo gozar em repouso da contemplação da glória majestosa que
o cerca? Tire-se a prova disso; deixe-se um rei sozinho, sem nenhuma satisfação dos sentidos; sem
nenhum cuidado no espírito, sem companhia, pensar em si inteiramente à vontade; e se verá que um rei
sem divertimento é um homem cheio de misérias. Tanto se evita isso cuidadosamente que nunca deixa
de haver junto da pessoa do rei um grande número de pessoas que velam por fazer suceder o
divertimento aos seus negócios, e que observam todo o tempo do seu lazer para lhe fornecer prazeres e
jogos de sorte que não haja vazio; isto é, fica cercado de pessoas que têm um cuidado maravilhoso de
zelar para que o rei não fique só e em estado de pensar em si, sabendo bem que ele será miserável, por
mais rei que seja, se o pensar.

Também a principal coisa que sustenta os homens nos grandes cargos, aliás tão penosos, é que
estão sem cessar desviados de pensar em si.

Acautelai-vos. Que outra coisa é ser superintendente, chanceler, primeiro presidente, senão
estar numa condição em que se tem, desde manhã, um grande número de pessoas que vêm de todos os
lados para não lhes deixar uma hora no dia em que possam pensar em si mesmos? E, quando estão na
desgraça e os mandam para as suas casas de campo, nas quais não lhes faltam nem bens, nem criados
para assisti-los nas suas necessidades, não deixam eles de ser miseráveis, porque ninguém os impede
mais de pensar em si.

Daí resulta que o jogo e a conversação das mulheres, a guerra, os grandes empregos sejam tão
procurados. Não é que haja, com efeito, felicidade nisso, nem que se imagine que a verdadeira
beatitude esteja no dinheiro que se pode ganhar no jogo, ou na lebre que se persegue. Isso não seria
desejado se fosse oferecido. Não é esse hábito indolente e pacato, que nos deixa pensar em nossa feliz
condição, que se procura, nem os perigos da guerra, nem o trabalho dos empregos, mas a azáfama que
nos desvia de pensar nisso e nos diverte.

Daí resulta que os homens gostem tanto do barulho e do reboliço; daí resulta que a prisão seja
um suplício tão horrível; daí resulta que o prazer da solidão seja uma coisa incompreensível E,
finalmente, que o maior motivo de felicidade da condição dos reis consista em procurar diverti-los sem
cessar e proporcionar-lhes todas as variedades de prazeres.

Eis tudo o que os homens puderam inventar para tornarem-se felizes. E os que assim se fazem
de filósofos, e que acreditam que o mundo seja bem pouco razoável para passar o dia inteiro a correr
atrás de uma lebre que não desejassem comprar, não conhecem a nossa natureza. Essa lebre não nos
preservaria da visão da morte e das misérias que nos desviam dela, mas a caça nos preserva. E assim,
quando acusados de que o que procuram com tanto ardor não poderia satisfazê-los, se respondessem,
como deveriam fazê-lo se meditassem bem, que procuram tão somente uma ocupação violenta e
impetuosa que os desvie de pensar em si, e que é por isso que se propõem um objeto atraente que os
encante e os atraia com ardor, deixariam seus adversários sem resposta. Mas, não respondem isso,
porque não se conhecem a si mesmos; não sabem que é somente a caça e não a presa o que procuram.

Imaginam que, se tivessem obtido esse cargo, repousariam em seguida com prazer, e não
sentem a natureza insaciável de sua cupidez. Julgam procurar sinceramente