pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.500 seguidores
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o repouso, e só procuram,
na realidade, a agitação.

Têm um instinto secreto que os leva á procurar a diversão e a ocupação fora, que vem do
ressentimento de suas misérias continuas; e têm outro instinto secreto que resta da grandeza da nossa
primeira natureza, que os faz conhecer que de fato a felicidade consiste apenas no repouso e não no
tumulto; e, desses dois instintos contrários, forma-se neles um projeto confuso, que se oculta à sua vista
no fundo de sua alma, que os leva a tender ao repouso pela agitação e a imaginar sempre que a
satisfação que não têm lhes chegará, se, vencendo algumas dificuldades que encaram, puderem abrir
dessa forma a porta ao repouso.

Assim se escoa toda a vida Procura-se o repouso combatendo alguns obstáculos; e, vencidos
estes, o repouso se torna insuportável. Com efeito, ou se pensa nas misérias que se têm, ou nas que nos
ameaçam. E, mesmo quando nos víssemos bastante ao abrigo em todos os sentidos, o enjôo, por sua
autoridade privada, não deixaria de surgir no fundo do coração onde tem raízes naturais, e de encher o
espírito com seu veneno.

O conselho que se dava a Pirro, para tomar o repouso que ele ia procurar com tantas fadigas,
encontrava bastantes dificuldades.

Assim, o homem é tão infeliz que se aborreceria mesmo sem nenhuma causa de aborrecimento,
pelo próprio estado de sua compleição; e é tão vão que, sendo cheio de mil causas essenciais de
aborrecimento, a menor coisa como um bilhar e uma bola que ele joga bastam para diverti-lo.

Mas, direis, que objeto tem ele em tudo isso? O de se gabar amanhã, entre os amigos, de ter
jogado melhor do que o outro. Assim, os outros suam no seu gabinete para mostrar aos estudiosos que
resolveram uma questão de álgebra que não se teria podido solucionar até então; e tantos outros se
expõem aos últimos perigos para se gabarem em seguida de uma praça que tomaram, tão estupidamente
em minha opinião. E, enfim, outros se matam para notar todas essas coisas, não para se tornarem assim
mais sábios, mas apenas para mostrar que as sabem; e esses são os mais tolos do bando, pois o são com
conhecimento, ao passo que não se pode pensar que outros o seriam mais se tivessem esse
conhecimento.

Tal homem passa sua vida sem aborrecimento, jogando todos os dias pouca coisa. Dai-lhe todas
as manhãs o dinheiro que pode ganhar diariamente no cargo que não joga, e o tomais infeliz. Dir-se-á,
talvez, que é porque procura divertimento no jogo, e não no ganho. Fazei-o, então, jogar por nada, e
não se entusiasmará e se aborrecerá. Não é, pois, só o divertimento o que ele procura: um divertimento
languecente e sem paixão o aborrecerá. É preciso que se entusiasme e que se iluda, imaginando que
seria feliz ganhando o que não desejaria que se lhe desse sob a condição de não jogar, afim de formar
para si um motivo de paixão e excitar sobre isso o seu desejo, a sua cólera, o seu zelo pelo objeto que
formou para si, como as crianças que têm medo do rosto que lambuzaram.

Como se explica que esse homem que perdeu há poucos meses o filho único e que, atormentado
por processos e querelas, estava hoje de manhã tão perturbado, já não pense nisso agora? Não vos
admireis: ele está preocupado em ver por onde passará aquele javali que os cães perseguem com tanto
ardor há seis horas. Não é preciso mais: o homem, por mais triste que esteja, desde que se possa
conseguir que entre em algum divertimento, ei-lo feliz durante esse tempo.

E o homem, por mais feliz que seja, se não está se divertindo e ocupado com alguma paixão ou
algum divertimento que impeça que o aborrecimento se espalhe, ficará logo aflito e infeliz. Sem
divertimento, não há alegria; com o divertimento, não há tristeza. E também o que forma a felicidade
das pessoas de grande condição é que têm uma porção de pessoas que as divertem e o poder de manter-
se nesse estado.

III

A morte é mais fácil de suportar sem pensar-se nela do que o pensamento da morte sem perigo.

IV

Se o homem fosse feliz, ele o seria tanto mais quanto menos se divertisse, como os santos e
Deus.

Sim; mas, não é ser feliz ser reconfortado pelo divertimento? Não, porque ele vem de longe e de
fora, e assim é dependente e, portanto, sujeito a ser perturbado por mil acidentes que tornam as aflições
inevitáveis.

V

A única coisa que nos consola das nossas misérias é o divertimento, e, no entanto, é a maior das
nossas misérias.

Com efeito, é isso que nos impede principalmente de pensar em nós. Sem isso, ficaríamos
desgostosos e esse desgosto nos levaria a procurar um meio mais sólido de sair dele. Mas, o
divertimento nos alegra e nos faz chegar insensivelmente à morte.

VI

Condição do homem: inconstância, desgosto, inquietude.

VII

Quem não vê a vaidade do mundo é bem vão em si mesmo. Quem não a vê também, exceto
jovens que estão todos no barulho, no divertimento e no pensamento do futuro? Mas, tirai o seu
divertimento, e os vereis consumir-se de desgosto; sentem então o seu nada sem conhecê-lo: com
efeito, é mesmo ser infeliz estar numa tristeza insuportável logo que se fica reduzido a se considerar e a
não ter diversão para isso.

VIII

Se a nossa condição fosse verdadeiramente feliz, não precisaríamos deixar de pensar para nos
tornarmos felizes.

Pouca coisa nos consola, porque pouca coisa nos aflige.

IX

Nada é tão insuportável ao homem como estar em pleno repouso, sem paixão, sem ocupação,
sem diversão, sem aplicação. Ele sente, então, o seu nada, o seu abandono, a sua insuficiência, a sua
dependência, a sua impotência, o seu vazio. Incontinente, sairá do fundo de sua alma o aborrecimento,
a melancolia, a tristeza, a aflição, a raiva, o desespero.

X

Quando um soldado se queixa do trabalho que tem, ou um lavrador, etc., deixemo-los sem fazer nada.
XI — Filósofos

Bela coisa gritar a um homem que não se conhece a si mesmo que se dirija a Deus por si
mesmo! E bela coisa dizê-lo a um homem que se conhece a si mesmo!

XII — Procura do verdadeiro bem

O comum dos homens põe o bem na fortuna e nos bens de fora, ou ao menos no divertimento.
Os filósofos mostraram a vaidade de tudo isso, e o puseram onde puderam.

Para os filósofos, 280 soberanos bens.

Disputa do soberano bem. Ut sis contentus temetipso, it ex te nascentibus bonis(81). Há
contradição; pois eles (os filósofos, os estóicos) aconselham, enfim, a se matar. Oh! que vida feliz essa
da qual a gente se desembaraça como da peste!

XIII

Como a natureza nos torne sempre infelizes em todos os estados, os nossos desejos nos figuram
um estado feliz, porque juntam ao estado em que estamos os prazeres do estado em que não estamos; e,
quando chegássemos a esses prazeres, não seríamos felizes por isso, porque teríamos outros desejos
conformes a esse novo estado.

Que cada qual examine os seus pensamentos, e os achará sempre ocupados com o passado e
com o futuro. Quase não pensamos no presente; e quando pensamos, é apenas para tomar dele a luz

para dispor do futuro. O presente não é nunca o nosso fim; o passado e o presente são os nossos meios;
só o futuro é o nosso fim. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; é, dispondo-nos sempre a ser
felizes, é inevitável que nunca o sejamos.

XIV

Não tendo os homens podido curar a morte, a miséria, a ignorância, acharam de bom aviso, para
se tornarem felizes, não pensar nisso; eis tudo o que puderam inventar para se consolarem de tantos
males. Mas, é uma consolação bem miserável, de vez que acaba, não por curar o mal, mas por ocultá-lo
simplesmente por pouco tempo e, ocultando-o, fazer que não se pense em curá-lo de verdade. Assim,
por um estranho desequilíbrio da natureza do homem, resulta que o desgosto, que é o seu mal mais
sensível, seja até certo ponto ó seu maior bem, porque pode contribuir mais que todas as coisas para
fazê-lo procurar a sua verdadeira cura; e que o divertimento, que ele encara como o seu maior bem, é
na realidade o seu maior mal, porque impede, mais que todas as coisas, que