pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.501 seguidores
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ele procure o remédio para
os seus males: e ambos são uma prova admirável, da miséria e da corrupção do homem e, ao mesmo
tempo, da sua grandeza, de vez que o homem se aborrece de tudo e só procura essa multidão de
ocupações porque tem a idéia da felicidade que perdeu e que, não a achando em si, é por ele procurada
inutilmente nas coisas exteriores, sem poder contentar-se nunca, porque ela não está nem em nós nem
nas criaturas, mas somente em Deus.

XV

Salomão e Jó conheceram melhor e falaram melhor da miséria do homem: um, o mais feliz; e o
outro, o mais infeliz; um, conhecendo a vaidade dos prazeres por experiência; o outro, a realidade dos
males.

ARTIGO XXII

CONTRARIEDADES ESPANTOSAS QUE SE ENCONTRAM NA NATUREZA DO HOMEM
EM RELAÇÃO À VERDADE, À FELICIDADE E A VÁRIAS OUTRAS COISAS

I

Nada é mais estranho na natureza do homem do que as, contrariedades que nela se descobrem
em relação a todas as coisas. Feito para conhecer a verdade, deseja-a ardentemente, procura-a, e, no
entanto, quando trata de apreendê-la, deslumbra-se e se confunde de tal sorte que dá motivo para que
lhe disputem a posse dela. E o que faz nascer as duas seitas de pirronianos e de dogmatistas, dos quais
uns quiseram roubar ao homem todo conhecimento da verdade, e os outros tratam de assegurar-lho;
mas, cada um com razões tão pouco verossímeis que elas aumentam a confusão e o embaraço do
homem quando este não tem outra luz além da que encontra em sua natureza.

As principais forças dos pirronianos, e deixo as menores, são que não temos nenhuma certeza
da verdade desses princípios, fora da fé e da revelação, senão no que sentimos naturalmente em nós.
Ora, esse sentimento natural não é uma prova convincente de sua verdade, de vez que, não tendo
certeza, fora da fé, se o homem foi criado por um Deus bom, por um demônio mau, ou por acaso, ele
está em dúvida se, esses princípios nos são dados ou verdadeiros, ou falsos, ou incertos, segundo a
nossa origem, Além disso, ninguém tem certeza fora da fé, se vela ou se dorme, visto como, durante o
sono, julgamos velar tão firmemente como fingimos; julgamos ver os espaços, as figuras, os
movimentos; sentimos correr o tempo, medimo-lo, e, enfim, agimos da mesma forma que despertados.

De sorte que, passando a metade da vida em sono, por nossa própria confissão ou porque assim nos
pareça, não temos nenhuma idéia do verdadeiro, todos os nossos sentimentos sendo, então ilusões.
Quem sabe se essa outra metade da vida em que pensamos velar não é um outro sono um pouco
diferente do primeiro, do qual despertamos quando pensamos dormir?

Eis as principais forças por toda parte.

Deixo as menores, como os discursos que fazem os pirronianos contra as impressões do hábito,
da educação, dos costumes, dos países, e as outras coisas semelhantes que, embora arrastem a maior
parte dos homens comuns que só dogmatizam sobre esses vãos fundamentos, são derrubadas pelo
menor sopro dos pirronianos. Basta ver seus livros, se não estivermos bem persuadidos disso: bem
depressa o ficaremos e talvez demais.

Detenho-me no único forte dos dogmatistas, que é que, falando de boa fé e sinceramente, não se
pode duvidar dos princípios naturais.

É contra isso que os pirronianos opõem, numa palavra, a incerteza da nossa origem, que encerra
a da nossa natureza; é a isso que os dogmatistas ainda estão para responder desde que o mundo é
mundo.

Eis, aberta entre os homens, a guerra em que é preciso que cada um tome partido e se enfileire,
necessariamentente, ou no dogmatismo ou no pirronismo; pois quem pensar em ficar neutro será
pirroniano por excelência. Essa neutralidade é a essência da cabala: quem não é contra eles é
excelentemente por eles. Não são nem por si mesmos são neutros, indiferentes, superiores a tudo, sem
excetuar-se a si mesmos.

Que fará, pois, o homem nesse estado? Duvidará de tudo? duvidará que desperta, que o
beliscam, que o queimam? Duvidará que duvida? duvidará que existe? Não se pode chegar a uma
conclusão; e tenho como um fato que nunca houve pirroniano efetivo perfeito. A natureza sustenta a
razão impotente e impede que ela extravague até a esse ponto.

Dirá ele, então, ao contrário, que possui certamente a verdade, ele que, por pouco que o
empurremos, não pode mostrar disso nenhum título, sendo forçado a desistir?

Que quimera é, então, o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que motivo de
contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, imbecil verme da terra, depositário do verdadeiro,
cloaca de incerteza e de erro, glória e escória do universo.

Quem desfará essa confusão? A natureza confunde os pirronianos, e a razão confunde os
dogmatistas. Que vos tomareis, pois, oh homem, que procurais qual é a vossa verdadeira condição por
vossa razão natural? Não podeis evitar uma dessas seitas, nem subsistir em nenhuma.

Conhecei, pois, soberbo, que paradoxo sois em vós mesmo. Humilhai-vos, razão impotente;
calai-vos, natureza imbecil; aprendei que o homem passa infinitamente o homem, e ouvi do vosso
senhor a vossa condição verdadeira que ignorais. Escutai Deus.

Pois enfim, se o homem nunca tivesse sido corrompido, gozaria com segurança, em sua
inocência, tanto da verdade como da felicidade. E se o homem nunca tivesse sido senão corrompido,
não teria nenhuma idéia nem da verdade nem da beatitude. Mas, infelizes que somos, e mais do que se

não houvesse grandeza em nossa condição, não temos uma idéia da felicidade, e não podemos alcançá-
la; sentimos uma imagem da verdade, e só possuímos a mentira: incapazes de ignorar em absoluto e de
saber com certeza, de tal maneira é manifesto que estivemos num grau de perfeição de que infelizmente
caímos!

Conhecemos a verdade, não somente pela razão, mas ainda pelo coração; é desta última maneira
que conhecemos os primeiros princípios, e é em vão que o raciocínio, que deles não participa, tenta
combatê-los. Os pirronianos, que só têm isso trabalham inutilmente. Sabemos que não sonhamos, por
maior que seja a impotência em que estamos de prová-lo pela razão; essa impotência não conclui outra
coisa senão a fraqueza da nossa razão, mas não a incerteza de todos os nossos conhecimentos, como
eles o pretendem. Pois o conhecimento dos primeiros princípios, como o de que há espaço, tempo,
movimento, números, é tão firme como nenhum dos que nos dão os nossos raciocínios. E é sobre esses
conhecimentos do coração e do instinto que é preciso que a razão se apoie e funde todo o seu discurso.
O coração sente que há três dimensões no espaço e que os números são infinitos; e a razão demonstra,
em seguida, que não há dois números quadrados dos quais um seja o dobro do outro. Os princípios se
sentem, as proposições se concluem; e tudo com certeza, embora por diferentes vias. E é tão ridículo
que a razão peça ao coração provas dos seus primeiros princípios, para querer consentir neles, quanto
seria ridículo que o coração pedisse à razão um sentimento de todas as proposições que ela demonstra,
para querer recebê-los.

Essa impotência deve, pois, servir apenas para humilhar a razão que quisesse julgar tudo; mas,
não para combater a nossa certeza, como se só houvesse a razão capaz de nos instruir. Prouvesse a
Deus que, ao contrário, nunca tivéssemos necessidade dela e conhecêssemos todas as coisas por
instinto e por sentimento! Mas, a natureza nos recusou esse bem, e só nos deu, ao contrário, muito
poucos conhecimentos dessa espécie; todos os outros só podem ser adquiridos pelo raciocínio.

(Eis o que é o homem para o homem em relação à verdade. Consideremo-lo, agora, em relação
com a felicidade que procura com tanto ardor em todas as suas ações.)

Todos os homens procuram ser felizes: não há exceção. Por diferentes que sejam os meios que
empregam, tendem todos a esse fim. O que faz que uns vão para a guerra e outros não vão é esse
mesmo desejo que está em ambos, acompanhado de diferentes opiniões. A vontade não dá nunca o
menor passo senão para esse objeto. Esse