pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.479 seguidores
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é o motivo de todas as ações de todos os homens, até mesmo
dos que vão enforcar-se. E, no entanto, depois de tão grande número de anos, nunca ninguém, sem a fé,
chegou a esse ponto a que todos visam continuamente Todos se lamentam: príncipes, súditos; nobres,
plebeus; velhos, jovens; fortes, fracos; sábios, ignorantes; sãos, doentes; de todos os países, de todos os
tempos, de todas as idades e de todas as condições.

Uma prova tão longa, tão contínua e tão uniforme deveria convencer-nos de nossa impotência
para alcançar o bem por nossos esforços; mas, o exemplo não nos instrui. Nunca é tão perfeitamente
semelhante que não haja uma delicada diferença; e é por isso que esperamos que a nossa esperança não
seja frustrada nessa ocasião como na outra. E assim, como o presente nunca nos satisfaz, a experiência
nos engana e, de infelicidade em infelicidade, nos conduz até à morte, que é o seu cúmulo eterno.

Que nos gritam, pois, essa avidez e essa impotência, senão que houve, outrora, no homem, uma
verdadeira felicidade, da qual só lhe restam, agora, a marca e o traço todo vazio, que ele tenta
inutilmente encher de tudo o que o rodeia, procurando das coisas ausentes o socorro que não obtém das
presentes, mas que são todas incapazes disso, porque esse abismo infinito só pode ficar cheio de um
objeto infinito e imutável, isto é, o próprio Deus.

Somente Deus é o seu verdadeiro bem, e, desde que o homem o abandona, é estranho que não
haja nada na natureza capaz de lhe tomar o lugar: astros céu, terra, elemento, plantas, couves, alhos,
animais, insetos, veados, serpentes, febre, peste, guerra, penúria, vícios, adultério, incesto. Quando
perde o verdadeiro bem, tudo ao homem, indiferentemente, parece poder substitui-lo, até a sua própria
destruição, embora tão contrária a Deus, à razão e à natureza inteira.

Uns o procuram na autoridade, outros nas curiosidades e nas ciências, outros nas volúpias.
Outros que, na realidade, mais se aproximaram dele consideram que é necessário que o bem universal,
que todos os homens desejam, não esteja em nenhuma das coisas particulares que só podem ser
possuídas por um só e que, sendo repartidas, afligem mais o seu possuidor pela falta da parte que não
tem do que o contentam pelo gozo da que lhe cabe. Compreenderam que o verdadeiro bem devia ser tal
que todos pudessem possuí-lo ao mesmo tempo, sem diminuição e sem inveja, e que ninguém pudesse
perdê-lo contra a vontade.. (Compreenderam-no, mas não puderam achá-lo; e, em lugar de um bem
sólido e efetivo, abraçaram apenas a imagem vazia de uma virtude fantástica.)

O nosso instinto nos faz sentir que é preciso procurar a nossa felicidade fora de nós. As nossas
paixões nos levam para fora, mesmo quando os objetos não se oferecessem para excitá-las. Os objetos
de fora nos tentam por si mesmos e nos chamam, mesmo quando não pensamos neles. E, assim, os
filósofos disseram em vão: Tornai a entrar em vós mesmos, e achareis assim o vosso bem; mas, não se
acredita neles, e os que acreditam são os mais vazios e os mais tolos. (Pois que há de mais ridículo e de
mais vão do que o que propõem os estóicos, e de mais falso do que todos os seus raciocínios?
Concluem eles que se possa sempre) que se pode às vezes; e que, como o desejo da glória faz com que
façam alguma coisa aqueles que ele possui, os outros também o poderão. São movimentos febris que a
saúde não pode imitar.

A guerra interior da razão contra as paixões fez com que os que quiseram ter a paz se
dividissem em duas seitas: uns quiseram renunciar às paixões e tornar-se deuses; outros quiseram
renunciar à razão e tornar-se brutos. Mas, não o conseguiram nem uns nem outros; e a razão, ficando
sempre, acusa a baixeza e a injustiça das paixões e perturba o repouso dos que a elas se abandonam; e
as paixões estão sempre vivas nos que querem renunciar a elas.

(Eis o que pode o homem por si mesmo e por seus próprios esforços em relação ao verdadeiro e
ao bem.)

Temos uma impotência de provar, invencível a todo o dogmatismo; temos uma idéia da
verdade, invencível a todo o pirronismo. Desejamos a verdade, e só descobrimos em nós incerteza.
Procuramos a felicidade, e só achamos miséria e morte, somos incapazes de não desejar a verdade e a
felicidade, e somos incapazes tanto de certeza como de felicidade. Esse desejo nos foi deixado, tanto
para nos punir como para nos fazer sentir de onde caímos,

II

Se o homem não foi feito por Deus, porque só é feliz com Deus? Se o homem foi feito por
Deus, porque é tão contrário a Deus?

III

O homem não sabe em que ordem colocar-se. Está visivelmente perdido e caiu do seu
verdadeiro lugar sem poder tornar a encontrá-lo, procurando-o por toda parte, com inquietude e sem
êxito, em trevas impenetráveis.

IV

Imagine-se uma porção de homens na cadeia todos condenados à morte: uns são diariamente
degolados à vista dos outros, enquanto os que ficam vêem a sua própria condição na dos seus
semelhantes e, entreolhando-se com dor e sem esperança, esperam a sua vez. É a imagem da condição
dos homens.

ARTIGO XXIII

RAZÕES DE ALGUMAS OPINIÕES DO POVO

I

Passagem continua do pró para o contra.

Mostramos que o homem é vão pela estima que faz das coisas que não são essenciais. E todas
essas opiniões estão destruídas. Mostramos, em seguida, que todas essas opiniões são muito sãs e que,
assim, sendo todas essas vaidades muito bem fundadas, o povo não é tão vão quanto se diz. E, assim,
destruímos a opinião que destruía a do povo.

Mas, é preciso destruir, agora, essa última proposição, e mostrar que continua sempre a ser
verdadeiro que o povo é vão, embora suas opiniões sejam sãs, porque não sente a verdade delas onde
ela existe e porque, pondo-a onde não existe, as suas opiniões são sempre muito falsas e muito malsãs.

II

É verdadeiro dizer que toda a gente vive na ilusão: pois que, embora as opiniões do povo sejam
sãs, não o são em sua cabeça, pois ele pensa que a verdade existe onde não existe. A verdade está nas
suas opiniões, mas não ao ponto em que eles imaginam.

III

O povo honra as pessoas de grande nascimento. Os semi-hábeis as desprezam, dizendo que o
nascimento não é uma vantagem da pessoa, mas do acaso. Os hábeis as honram, não pelo pensamento
do povo, mas por um pensamento mais elevado. Os devotos, que têm mais zelo do que ciência, as
desprezam, mau grado essa consideração que as faz honrar entre os hábeis, porque julgam isso por uma
nova luz que a piedade lhes dá. Mas, os cristãos perfeitos as honram por uma outra luz superior. Assim
vão as opiniões sucedendo-se do pró ao contra, segundo se tem luz.

IV

O maior dos males são as guerras civis. Elas são certas se se quer recompensar o mérito, pois
todos diriam que merecem. O mal que temer de um tolo que sucede por direito de nascimento não é
nem tão grande nem tão certo.

V

Porque se segue a pluralidade? E porque eles têm mais razão? Não, mas mais força. Porque se
seguem as antigas leia e antigas opiniões? E porque são mais sãs? Não, mas porque são únicas e nos
tiram a raiz da diversidade.

VI

O império fundado sobre a opinião e a imaginação reina algum tempo, e esse império é doce e
voluntário: o da força reina sempre. Assim, a opinião é como a rainha do mundo, mas a força é o seu
tirano.

VII

Como se faz bem em distinguir os homens pelo exterior, e não pelas qualidades interiores Quem
passará de nós dois? Quem cederá o lugar ao outro? O menos hábil? Mas, eu sou tão hábil quanto ele.
Será preciso nos batermos por isso. Há quatro lacaios, e eu só tenho um: isso é visível; basta contar;
sou eu a ceder, e sou um tolo se contesto. Eis-nos em paz por esse meio: o que é o maior dos bens.

VIII

O costume de ver o rei acompanhado de guardas, de tambores, de oficiais, e de todas as coisas
que levam o mundo ao respeito e ao terror, faz com que o seu rosto, quando ele está às vezes sozinho e
sem esses acompanhamentos, imprima em seus súditos o respeito e o terror, porque não se