pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.157 materiais34.315 seguidores
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separa no
pensamento a sua pessoa do seu séquito, que se vê de ordinário juntamente com ele. E o mundo, que
não sabe que esse efeito tem sua origem nesse costume, acredita que isso provenha de uma força
natural; daí estas palavras: O caráter da Divindade está impresso no seu rosto, etc.

A potência dos reis é fundada sobre a razão e sobre a loucura do povo, e bem mais sobre a
loucura. A maior e mais importante coisa do mundo tem por fundamento a fraqueza: e esse fundamento
é admiravelmente seguro; pois não há nada mais seguro do que isso, que o povo será fraco; o que é
fundado sobre a sã razão é bem mal fundado, como a estima da sabedoria.

IX

As coisas do mundo mais desarrazoadas se tornam as mais razoáveis por causa do
desregramento dos homens. Que há de menos razoável do que escolher para governar um Estado o
primeiro filho de uma rainha? Não se escolhe, para governar um barco, aquele dentre os viajantes que
tem melhor casa: seria uma lei ridícula e injusta. Mas, porque o são e o serão sempre, ela se torna
razoável e justa; pois, quem se escolherá? O mais virtuoso e o mais hábil? Eis-nos incontinente
embaraçados: cada um pretende ser esse mais virtuoso e esse mais hábil. Liguemos, pois, essa
qualidade a alguma coisa de incontestável. É o filho mais velho do rei. Isso é claro, não há discussão. A
razão não pode fazer melhor, pois a guerra civil é o maior dos males.

X

Santo Agostinho viu que se trabalha pelo incerto, no mar, na batalha, etc.; não viu a regra dos
partidos que demonstra que se deve fazê-lo. Montaigne viu que nos ofendemos com um espírito
claudicante, e que o costume pode tudo; mas, não viu a razão desse efeito. Todas essas pessoas viram

os efeitos, mas não viram as causas. São, em relação, aos que descobriram as causas, como os que só
tiveram olhos em relação aos que têm o espírito. Pois os efeitos são como sensíveis, e as causas são
visíveis somente ao espírito. E, embora esses efeitos se vejam pelo espírito, esse espírito é, em relação
ao espírito que vê as causas, como os sentidos corporais em relação ao espírito.

XI

Como se explica que um coxo não nos irrite, e que um espírito coxo nos irrite? E que um coxo
reconhece que andamos direito, e um espírito coxo diz que somos nós que coxeamos; sem isso,
teríamos piedade dele, e não raiva.

Epíteto pergunta, com muito mais força, porque não nos zangamos quando nos dizem que
somos malucos, e nos zangamos quando nos dizem que raciocinamos mal ou que escolhemos mal. O
motivo é que estamos certos de não sermos malucos, e de não sermos coxos; mas, não estamos tão
certos de escolher o verdadeiro. De sorte que, só tendo certeza porque vemos com toda a evidência,
quando um outro vê com toda a evidência o contrário, Isso nos deixa vacilantes e nos assombra, e ainda
mais quando mil outros zombam da nossa escolha, pois é preciso preferir as nossas luzes às de tantos
outros, o que é arriscado e difícil. Nunca há essa contradição nos sentidos em relação a um coxo.

O respeito consiste nisto: Incomodai-vos. Embora vão em aparência, isso é muito justo; pois
significa: Eu me incomodaria se tivésseis, necessidade, pois o faço sem que isso vos sirva: além disso,
o respeito é para distinguir os grandes. Ora, se o respeito consistisse em estar numa poltrona,
respeitaríamos toda a gente, e, assim não distinguiríamos; mas, sendo incomodados, distinguimos
muito bem.

XIII

Ser elegante não é muito vão: pois é mostrar que um grande número de pessoas trabalha para si;
é mostrar, pelos cabelos, que temos um criado grave, um perfumista, etc.; pelo ornato, o fio, os
passamanes, etc.

Ora, não é uma simples superfície, nem um simples arnês, ter vários braços (para o próprio
serviço).

Quanto mais braços se têm, mais forte se é. Ser elegante é mostrar a própria força.

XIV

É admirável: não querem que eu honre um homem vestido de brocado e acompanhado de sete
ou oito lacaios! Como! ele mandará açoitar-me se eu não o saudar. Esse hábito é uma força; o mesmo
não acontece com um cavalo bem arreado em relação a um outro.

Montaigne diverte-se por não ver que diferença existe, admirando-se de que se ache alguma e
perguntando a razão.

XV

O povo tem as opiniões muito sãs: por exemplo, 1o.) escolher o divertimento e a caça em lugar
da poesia: os semi-sábios zombam e triunfam em mostrar com isso a loucura do mundo; mas, por uma
razão que não penetram, tem-se razão; 2o.) distinguir os homens por fora, como pela nobreza ou pela
fortuna: o mundo. triunfa, ainda, em mostrar quanto isso é desarrazoado; mas, é bem razoável; 3o.)
ofender-se por ter recebido uma bofetada; ou desejar tanto a glória; mas, isso é muito desejável, por
causa dos bens essenciais que lhe são inerentes; e um homem que recebeu uma bofetada sem magoar-se
é atormentado por injúrias e necessidades; 4o.) trabalhar pelo incerto; viajar por mar; passar sobre uma
prancha.

XVI

É uma grande vantagem a qualidade, que, há dezoito ou vinte anos, torna um homem apto,
conhecido e respeitado, como um outro o poderia ter merecido em cinqüenta anos: são trinta anos
ganhos sem trabalho.

XVII

Um homem que se põe à janela para ver os passantes, se eu estiver passando, posso dizer que
ele se pôs à janela para ver-me? Não, pois não pensa em mim em particular. Mas, quando gostamos de
uma pessoa por causa de sua beleza,, gostamos dela? Não; pois a varíola, que tirará a beleza sem matar
a pessoa, fará que não gostemos mais; e, quando se gosta de mim por meu juízo, ou por minha
memória, gosta-se de mim? Não; pois posso perder essas qualidades sem me perder. Onde está, pois,
esse eu, se não no corpo nem na alma? É como amar o corpo ou a alma, se não por essas qualidades,
que não são o que faz o eu, de vez que são perecíveis? Com efeito, amaríamos a substância da alma de
uma pessoa abstratamente, e algumas qualidades que nela existissem? Isso não é possível, e seria
injusto. Portanto, não amamos nunca a pessoa, mas somente as qualidades (82).

XIX

As coisas que nos prendem mais, como ocultar o seu pouco bem, isso não é, muitas vezes,
quase nada; é um nada que a nossa imaginação transforma em montanha. Um outro esforço de
imaginação no-lo faz descobrir sem dificuldade.

XX

Os que são capazes de inventar são raros; os mais fortes em número só querem seguir e recusam
a glória aos inventores que a procuram com suas invenções. E, se se obstinam em querer obtê-la e em
desprezar os que não inventam, os outros lhes darão nomes ridículos, lhes dariam pauladas. Não nos
escandalizemos, pois, com essa sutileza, ou nos contentemos com nós mesmos.

ARTIGO XXIV

DA JUSTIÇA

I

Todas as boas máximas estão no mundo; só nos resta aplicá-las. Por exemplo, não duvidamos
que seja preciso expor a própria vida para defender o bem público, e muitos o fazem; mas, para a
religião, não.

É necessário que haja desigualdade entre os homens; isso é verdadeiro, Mas, sendo concedido,
eis a porta aberta, não somente à mais alta dominação, mas à mais alta tirania. É necessário relaxar um
pouco o espírito; mas, isso abre a porta aos maiores abusos. Marquem-se os limites; não há limites nas
coisas: as leis querem criá-los, mas o espírito não pode suportá-los.

II

A razão nos ordena bem mais imperiosamente do que um senhor: com efeito, desobedecendo a
um, somos infelizes; e, desobedecendo à outra, somos tolos.

III

Porque me matais? Como! Não ficais do outro lado da água? Meu amigo, se ficásseis deste
lado, eu seria um assassino, seria injusto matar-vos da mesma maneira; mas, desde que ficais do outro
lado, sou um bravo, e isso é justo.

IV

Sobre que fundará o homem a economia do mundo que quer governar? Será sobre o capricho de
cada particular? Que confusão! Será sobre a justiça? Ignora-a.

Certamente, se a conhecesse, não teria estabelecido esta máxima, a mais geral de todas as que
existem entre os homens: Siga cada um os costumes do seu país. O brilho da verdadeira eqüidade teria
sujeitado todos os povos, e os legisladores