pascal_pensamentos
121 pág.

pascal_pensamentos

Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.434 seguidores
Pré-visualização43 páginas
não teriam tomado por modelo, em lugar dessa justiça
constante, as fantasias e os caprichos dos persas e alemães. Vê-la-íamos plantada por todos os Estados
do mundo e em todos os tempos, ao passo que quase nada se vê de justo ou de injusto que não mude de
qualidade mudando de clima. Três graus de altura do polo derrubam a jurisprudência. Um meridiano
decide da verdade; em poucos anos de posse, as leis fundamentais mudam; o direito tem suas épocas. A
entrada de Saturno no Leão nos marca a origem de um tal crime. Divertida justiça que um rio limita!
Verdade aquém doa Pireneus, erro além.

Eles confessam que, a justiça não existe nesses costumes, mas que reside nas leis naturais
conhecidas , em todo pais. Decerto a sustentariam obstinadamente, se a temeridade ,do acaso, que
semeou as leis humanas, tivesse encontrado nelas ao menos uma que fosse universal; mas, a
brincadeira é tal, que o capricho dos homens se diversificou bastante, que não há nenhuma.

O latrocínio, o incesto,, o morticínios das crianças e dos pais, tudo teve seu lugar entre as ações
virtuosas. É possível nada mais divertido do que um homem ter direito de me matar porque fica além
da água, e do que o seu príncipe demandar contra o meu, embora eu não demande com ele? Há sem
dúvida leis naturais; mas, essa bela razão corrompida corrompeu tudo: Nihil amplius nostrum est; quod
nostrum dicimus, artis est; ex senatus-consultis et plebiscitis crimina exercentur; ut olim vitiis, sic nunc
legibus laboramus. (83)

Dessa confusão resulta que um diz que a essência da justiça é a autoridade do legislador; outro,
o costume presente, e é o mais certo: nada, seguindo a sua razão, é justo em si; tudo se abala com o
tempo. O costume faz toda a eqüidade, por esta única razão de que é recebido; é o fundamento místico
de sua autoridade. Quem o reconduz ao seu princípio, aniquila-o. Nada é tão falível como essas leis que
reparam as faltas: quem lhes obedece, porque são justas, obedece à justiça que imagina, mas não à
essência da lei, que está toda amontoada em si: é lei, e nada mais. Quem quiser examinar o motivo

disso o achará tão fraco e tão ligeiro que, se não estiver acostumado a contemplar os prodígios da
imaginação humana, admirará que um século lhe tenha adquirido tanta pompa e reverência. A arte de
agredir e subverter os Estados consiste em abalar os costumes estabelecidos, sondando até na sua fonte,
para marcar a sua falta de justiça. É preciso, diz-se, recorrer às leis fundamentais e primitivas, do
Estado que um costume injusto aboliu: é um jogo certo para perder tudo; nada será justo nessa balança.
No entanto, o povo presta facilmente ouvidos a esses discursos. Sacodem o jugo desde que o
reconhecem; e os grandes disso se aproveitam para sua ruína e para a desses curiosos examinadores dos
costumes recebidos. Mas, por um defeito contrário, os homens acreditam, às vezes, que podem fazer
com justiça tudo o que não é sem exemplo. Eis porque o mais sábio dos legisladores dizia que, para o
bem dos homens, é preciso, muitas vezes, enganá-los; e um outro, bom político: Cum veritatem qua
liberetur ignoret, expedit quod fallatur (84). Não é preciso que ele sinta a verdade da usurpação: esta foi
introduzida, outrora, sem razão; tornou-se razoável; é preciso fazê-la observar como autêntica, eterna, e
ocultar o seu começo, se se quiser que não se acabe logo.

V

Os que vivem no desregramento dizem aos que vivem na ordem que são estes que se afastam da
natureza, e julgam segui-la como os que estão num barco julgam que os que estão na margem fogem. A
linguagem é semelhante em toda parte. É preciso ter um ponto fixo para julgar. O porto julga os que
estão no barco; mas, onde tomaremos um porto na moral?

VI

Veri juris (85)— Não o temos mais: se o tivéssemos, não tomaríamos como regras de justiça
seguir os costumes do próprio pais.

VII

Passei longo tempo de minha vida julgando que houvesse uma justiça; e nisso me enganava;
porque há uma na medida em que Deus no-la quis revelar. Mas, eu não o julgava assim, e era nisso que
me enganava; porque acreditava que a nossa justiça fosse essencialmente justa e que eu tivesse com
que conhecê-la e julgá-la.

Mas, achei-me tantas vezes em erro de julgamento certo que, por fim, acabei desconfiando de
mim e, depois, dos outros. Vi todos os países e homens mudarem; e assim, depois de muitas mudanças
de julgamento em relação à verdadeira justiça, verifiquei que a nossa natureza não passava de uma
contínua mudança, e não mudei mais desde então; e, se mudasse, confirmaria a minha opinião.

VIII

É arriscado dizer ao povo que as leis não são justas; pois ele só lhes obedece porque as julga
justas. Eis porque é preciso dizer-lhe, ao mesmo tempo, que é preciso obedecer porque são leis, do
mesmo modo porque é preciso obedecer aos superiores, não porque sejam justos, mas porque são
superiores. E, assim, em toda sedição prevenida, se se pode fazer entender isso; é propriamente essa a
definição da justiça.

IX

Montaigne não tem razão: o costume só deve ser seguido porque é costume, e não porque seja
razoável ou justo. Mas, o povo o segue por esta única razão de que o julga justo; do contrário, não o
seguiria mais, embora fosse costume, pois só queremos estar sujeitos à razão ou à justiça. O costume,
sem isso, passaria por tirania; mas, o império da razão e da justiça não é tão tirânico quanto o da
deleitação. São os princípios naturais ao homem.

Portanto, convém obedecer às leis e aos costumes, porque são leis; que ele (86)saiba que não há
nenhuma verdadeira e justa que introduzir; que não sabemos nada e que, assim, é preciso somente
seguir as recebidas: por esse meio, não as abandonaremos nunca. Mas, o povo não é susceptível dessa
doutrina, e, assim como julga que a verdade se pode encontrar e que está nas leis e costumes, também
acredita nelas e toma a sua antigüidade como uma prova de sua verdade (e não de sua simples
autoridade sem verdade). Assim, ele obedece-lhes, mas está sujeito a se revoltar desde que se lhe
mostre que elas não valem nada; o que se pode fazer ver de todas observando-as de um certo lado.

X

A natureza do homem é toda natureza: omne animal (87).

Não há nada que não se torne natural; não há natural que não se faça perder.

Perdida a verdadeira natureza, tudo se torna sua natureza.

Assim também, perdido o verdadeiro bem, tudo se torna o seu verdadeiro bem.

Que são os nossos princípios naturais senão os nossos princípios acostumados? E, nas crianças,
os que receberam do costume dos pais, como a caça nos animais?

Um diferente costume dará outros princípios naturais. Isso se vê por experiência; e, se os há
indeléveis ao costume, há também costumes contra a natureza, indeléveis à natureza e a um segundo
costume: isso depende da disposição.

Os pais receiam que o amor natural das crianças se apague. Que é, pois, essa natureza sujeita a
ser apagada? O costume é uma segunda natureza que destrói a primeira. Porque o costume não é
natural? Tenho muito medo de que essa natureza também não passe de um primeiro costume, como o
costume é uma segunda natureza.

XI

A justiça é o que está estabelecido; e, assim, todas as nossas leis estabelecidas serão
necessariamente tidas como justas sem ser examinadas, uma vez que estão estabelecidas.

XII

Assim como a moda faz a graça, assim também faz a justiça.

XIII

Summum jus, summa injuria.(88) A pluralidade é a melhor via, porque é visível e porque tem
força para se fazer obedecer; no entanto, é a opinião dos menos hábeis.

Se se tivesse podido, ter-se-ia posto a força entre as mãos da justiça: mas, como a força não se
deixa manejar como se quer, porque é uma qualidade palpável, ao passo que a justiça é uma qualidade
espiritual de que se dispõe como se quer a justiça foi posta entre as mãos da força; e, assim, se chama
justo ao que força de observar.

Vem daí o direito da espada, pois a espada dá, um verdadeiro direito.

De outro modo, ver-se-ia