pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.447 seguidores
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a violência de um lado e a justiça do outro.

Vem dai a injustiça da Fronda, que eleva a sua pretensa justiça contra a força.

Não acontece o mesmo na Igreja; pois há uma justiça verdadeira e nenhuma violência.

XIV — Justiça. Força.

É justo que o que é justo seja seguido. É necessário que o que é mais forte seja seguido.

A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça é tirânica.

A justiça sem força é contradita, porque há sempre maus; a força sem a justiça é acusada. É
preciso, pois, reunir a justiça e a força; e, dessa forma, fazer com que o que é justo seja forte, e o que é
forte seja justo.

A justiça é sujeita a disputas: a força é muito reconhecível, e sem disputa. Assim, não se pode
dar a força à justiça, porque a força contradisse a justiça e disse que ela era injusta, dizendo que ela é
que era justa; e, assim, não podendo fazer com que o que é justo fosse forte, fez-se com que o que é
forte fosse justo.

XV

As únicas regras universais são as leis do país nas coisas ordinárias; e a pluralidade nas outras.
De onde vem isso? da força que existe nelas.

Eis porque os reis, que têm a força fora, não seguem a pluralidade dos seus ministros.

Sem dúvida, a igualdade dos bens é justa; mas, não podendo fazer que seja força obedecer à
justiça, fez-se que seja justo obedecer à força; não podendo fortificar a justiça, justificou-se a força,
afim de que o justo e o forte existissem juntos, e que a paz existisse, que é o soberano bem.

XVI

Eles são constrangidos a dizer: Não agia de boa fé; não deveríamos, etc. Como gosto de ver
essa soberba razão humilhada e suplicante! Com efeito, não é essa a linguagem de um homem a quem
se disputa o seu direito e que o defende com as armas e a força na mão. Ele não se diverte em dizer que
não se age de boa fé; mas, pune essa má fé pela força.

XVII

Quando se trata de julgar se se deve fazer a guerra e matar tantos homens, condenar tantos
espanhóis à morte, é um homem só que decide, ainda interessado: deveria ser um terço indiferente.

XVIII

Esses discursos são falsos e tirânicos: Sou belo, logo devem temer-me; sou forte, portanto
devem amar-me. Sou... A tirania consiste em querer ter por uma via o que só se pode ter por uma outra.
Dão-se diferentes deveres aos diferentes méritos: dever de amor à graça; dever de modo da força; dever
de crença na ciência. Tais deveres devem ser cumpridos; é injusto recusá-los, e injusto reclamar outros.
E é também ser falso e tirânico dizer: Ele não é forte, logo não o estimarei; não é hábil, logo não o
temerei. A tirania consiste no desejo de dominação universal e fora de sua ordem.

ARTIGO XXV

PENSAMENTOS DIVERSOS

I

Há vícios que só permanecem em nós em virtude de outros; suprimindo o seu tronco, vão-se
como ramos.

II

Quando tem a razão do seu lado, a malignidade se torna arrogante e ostenta a razão em todo o
seu lustre: quando a austeridade ou a escolha severa não conseguiu o verdadeiro bem e é preciso voltar
a seguir a natureza, ela se torna arrogante na volta.

O homem está cheio de necessidades: só ama os que, podem satisfazê-las todas. É um bom
matemático, dir-se-á, mas, não tenho que fazer matemáticos: ele me tomaria por uma proposição. É um
bom guerreiro: ele me tomaria por uma praça sitiada. É preciso, pois, um bom homem que possa
acomodar-se a todas as minhas necessidades em geral.

IV

Quando nos sentimos bem, ficamos admirados de que possa suceder o mesmo quando estamos
doentes; quando estamos doentes, tomamos remédio com alegria: o mal assim resolve. Não temos mais
paixões nem os desejos de divertimentos e de passeios que a saúde inspirava e que são incompatíveis
com as necessidades da moléstia. A natureza inspira, então, paixões e desejos conforme ao estado
presente. Só os temores, que nós mesmos nos inspiramos, e não a natureza, é que nos perturbam:
porque juntam ao estado em que estamos as paixões do estado em que não estamos.

V

Os discursos de humildade são matéria de orgulho para as pessoas gloriosas, e de humildade
para os humildes. Assim, os do pirronismo são matéria de afirmação para os afirmativos. Pouco falam

de humildade humildemente; pouco da castidade castamente; pouco do pirronismo duvidando. Somos
apenas mentira, duplicidade, contrariedade, escondendo-nos e disfarçando-nos a nós mesmos.

VI

As belas ações ocultas são as mais estimáveis. Quando vejo algumas na história, elas me
agradam muito. Mas, enfim, não estavam completamente ocultas, pois se tornaram conhecidas; e,
embora se tenha feito tudo para ocultá-las, esse pouco pelo qual apareceram estraga tudo, pois o que
nelas há de mais belo é ter querido ocultá-las.

VII

Dizedor de boas palavras, mau caráter.

VIII

O eu é odioso: Vós, Miton, Couvier, não o sois por isso: sois, portanto, sempre odiosos.

Não (direis); porque agindo, como fazemos, cortesmente com todos, não há motivo para nos
odiar. Isso seria verdadeiro se só se odiasse no eu o desprazer que nos causa. Mas, se o odeio porque é
injusto e se faz centro de tudo, odiá-lo-ei sempre. Numa palavra, o eu tem duas qualidades: é injusto
em si, fazendo-se centro de tudo; e incômodo aos outros, querendo sujeitá-los: porque cada eu é o
inimigo e desejaria ser o tirano de todos os outros. Tirais dele a incomodidade, mas não a injustiça: e,
assim, não o tornais amável aos que odeiam a injustiça: só o tornais amável aos injustos, que nele não
descobrem mais o seu inimigo; e assim ficareis injusto e só podeis agradar aos injustos.

IX

Não admiro o excesso de uma virtude, como do valor, se não vejo ao mesmo tempo o excesso
da virtude oposta, como em Epaminondas, que tinha o extremo valor e a extrema benignidade; porque
de outro modo não é subir, é cair. Não mostramos nossa grandeza ficando numa extremidade, mas
tocando as duas ao mesmo tempo e enchendo todo o intervalo. Mas, talvez seja apenas um súbito
movimento da alma de um a outro desses extremos, e talvez ela não esteja nunca senão num ponto,
como o tição de fogo (que se faz girar). Seja. Mas ,ao menos, isso marcará a agilidade da alma, se não
marcar a sua extensão.

X

Eu passara longo tempo no estudo das ciências abstratas, e a pouca comunicação que se pode
ter delas me desgostara. Quando comecei o estudo do homem, vi que essas ciências abstratas não lhe
são próprias, e que eu me desviava mais da minha condição penetrando-as do que os outros ignorando-
as; perdoei aos outros o conhecê-las pouco. Mas, julguei encontrar, ao menos, bastantes companheiros
no estudo do homem, que é o verdadeiro estudo que lhe é próprio. Enganei-me. Os que o estudam são
ainda menos numerosos do que os que se dedicam à geometria.

Procurar o resto revela apenas que não se sabe estudar. Mas, não será que não é ainda essa a
ciência que o homem deve ter e que lhe é melhor ignorar para ser feliz?

XI

Quanto tudo se revolve igualmente, nada se revolve em aparência: como num barco. Quando
todos caminham para o desregramento, ninguém parece fazê-lo. Aquele que se detém faz notar o
arrebatamento dos outros, como um ponto fixo.

XII

Porque preferirei dividir a minha moral em quatro e não em seis? Porque estabelecerei a virtude
de preferência em quatro, em dois, em um? porque em abstine (89) e sustine (90), e não em seguir a
natureza, ou realizar os negócios particulares sem injustiça, como Platão, ou outra coisa? Mas, direis,
eis que tudo se encerra numa palavra. Sim, mas isso será inútil se não se explicar; e, quando se chega a
explicar, desde que se abre esse preceito que contém todos os outros, eles se retiram na primeira
confusão que quisésseis evitar: assim, quando estão todos encerrados num, ficam ocultos e inúteis,
como num cofre e só aparecem em sua confusão natural. A natureza estabeleceu-os todos sem encerrar
um no outro, eles subsistem independentemente um do outro. Assim, a única utilidade de todas essas
divisões e palavras consiste apenas em ajudar a memória e servir de direção para encontrar o que eles