pascal_pensamentos
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encerram.

XIII

Quando queremos repreender com utilidade, mostrando a alguém que ele se engana, é preciso
observar por que lado encara a coisa, pois é verdadeira ordinariamente desse lado, e confessar-lhe essa
verdade, mas descobrir-lhe o lado pelo qual ela é falsa. Contenta-se com isso, pois vê que não se
enganava e que apenas lhe faltava ver todos os lados. Ora, não nos importamos de não ver tudo, mas
não queremos ser enganados; e talvez isso provenha de que, naturalmente, o homem não pode ver tudo
e de que, naturalmente, não pode enganar-se quanto ao lado que encara, porque as apreensões dos
sentidos são sempre verdadeiras.

XIV

O que pode a virtude de um homem não deve medir-se por seus esforços, mas pelo que de
ordinário ele faz.

XV

Os grandes e os pequenos têm os mesmos acidentes, os mesmos aborrecimentos e as mesmas
paixões; mas, um está no alto da roda, e o outro perto do centro, e assim menos agitado pelos, mesmos
movimentos.

XVI

Embora as pessoas não tenham interesse pelo que dizem, é preciso não concluir daí, em
absoluto, que não mentem; pois há pessoas que mentem simplesmente por mentir.

XVII

O exemplo da castidade de Alexandre não faz tantos continentes como o da sua embriaguez fez
intemperantes. Não é vergonhoso não ser tão virtuoso quanto ele, e parece escusável não ser mais
vicioso do que ele. Julgamos não ter todos os vícios do comum dos homens quando temos os vícios
desses grandes homens, e, todavia, não nos importamos que estes tenham os do comum dos homens.
Apegamo-nos a eles da mesma maneira por que eles se apegam ao povo; com efeito, por mais elevados
que estejam, unem-se aos menores dos homens por algum lugar. Não estão suspensos no ar,
inteiramente abstraídos da nossa sociedade. Não, não. Se são maiores do que nós, é que têm a cabeça
mais elevada; mas, têm os pés tão baixo quanto os nossos. Estão todos no mesmo nível e se apoiam na
mesma terra; e, por essa extremidade, estão tão baixo quanto nós, quanto os pequenos, quanto as
crianças, quanto os animais.

XVIII

Nada nos agrada como o combate, mas não a vitória. Gostamos de ver os combates dos animais,
não o vencedor encarniçado sobre o vencido. Que queríamos ver, se não o fim da vitória? E, desde que
esta se verifica, enfastiamo-nos. Assim no jogo, assim na pesquisa da verdade. Gostamos de ver, nas
polêmicas, o combate das opiniões; mas, não gostamos, em absoluto, de contemplar a verdade
encontrada. Para fazê-la observar com prazer, é preciso vê-la fazer nascer da polêmica. Assim também,
nas paixões, há prazer em ver dois contrários se chocarem; mas, quando uma é senhora, há apenas
brutalidade. Nunca procuramos as coisas, mas a pesquisa das coisas. Assim, na comédia, as cenas
alegres, sem o medo não valem nada, nem as extremas misérias sem a esperança, nem os amores
brutais, nem as severidades ásperas.

XIX

Não se ensina aos homens a serem honestos, mas ensina-se-lhes tudo o mais; e eles nunca se
incomodam tanto por nada saberem do resto como por serem homens honestos. Não se incomodam por
saberem apenas a única coisa que não aprendem. (91)

XX

Que tolo projeto teve (Montaigne) de se pintar! e isso não por acaso e contra suas máximas,
porque acontece a toda a gente errar, mas por suas próprias máximas, e por um desígnio primeiro e
principal. Com efeito, dizer tolices por acaso e por fraqueza é um mal ordinário; mas, dizê-las por
desígnio é o que não é suportável, e dizê-las tais como essas... Não é em Montaigne, mas em mim que
descubro tudo o que creio nelas.

XXI

Lamentar os infelizes não é contra a concupiscência, ao contrário; é muito fácil ter de dar esse
testemunho de amizade e atrair para si reputação de ternura sem dar nada

XXII

Quem tivesse a amizade do rei da Inglaterra, do rei da Polônia e da rainha da Suécia, julgaria
poder prescindir de retiro e de asilo no mundo? (92)

XXI

As coisas têm diversas qualidades, e a alma diversas inclinações; pois não é simples nada do
que se oferece, à alma, e a alma nunca se oferece simples a nenhum sujeito. Eis porque, às vezes,
choramos e rimos de uma mesma coisa.

XXIV

Diversas câmaras de fortes, de belos, de bons, de piedosos espíritos, cada qual reinando em sua
casa, não fora, e às vezes, quando se encontram, batendo-se tolamente o forte e o belo para decidir
quem será o senhor um do outro, pois sua senhoria é de diversos gêneros: não se entendem, consistindo
seu erro em querer reinar par toda parte. Ora, nada o pode, nem mesmo a força: esta não faz nada no
reino dos sábios; só é senhora das ações exteriores.

XXV

Ferox gens nullam esse vitam sine armis rati (93). Preferem a morte à paz; os outros preferem a
morte à guerra. Toda opinião pode ser preferida à vida, cujo amor parece tão forte e tão natural.

XXVI

Estamos contentes de repousar na sociedade dos nossos semelhantes. Miseráveis como nós, não
nos ajudarão: morreremos sós. É preciso, pois, fazer, como aí estivéssemos sós, e então construiríamos
casas soberbas, etc.? Procuraríamos a verdade sem hesitar; e, se no-lo recusarem, testemunharemos
estimar mais a estima dos homens do que a pesquisa da verdade.

XXVII

A ciência das coisas exteriores não me consolará da ignorância da moral em tempo de aflição;
mas, a ciência dos costumes me consolará sempre da ignorância das ciências exteriores.

XXVIII

O tempo cura as dores e as querelas, porque mudamos, não somos mais a mesma pessoa. Nem o
ofensor, nem o ofendido, são mais eles próprios. É como um povo que irritássemos e tornássemos a ver
depois de duas gerações: são ainda os franceses, mas não os mesmos.

XXIX

César era muito velho, parece-me, para ir divertir-se em conquistar o mundo. Esse divertimento
ficava bem em Alexandre: era um rapaz difícil de conter; mas, César devia ser mais maduro.

XXX

O sentimento da falsidade dos prazeres presentes e a ignorância da vaidade dos prazeres
ausentes causam a inconstância.

XXXI

O meu humor não depende do tempo. Tenho os meus nevoeiros e o meu bom tempo dentro de
mim; o bem e o mal dos meus próprios negócios pouco fazem nesse particular. Esforço-me, às vezes,
por mim mesmo, contra a fortuna; a glória de domá-la faz com que eu a dome alegremente, ao passo
que às vezes me faço de desgostoso na boa fortuna.

XXXII

Ao escrever o meu pensamento, ele às vezes me escapa; mas, isso me faz lembrar-me da minha
fraqueza, que a todo instante esqueço; isso me instrui tanto quanto o meu pensamento esquecido, pois
minha tendência consiste apenas em conhecer o meu nada.

XXXIII

É uma coisa divertida considerar que há no mundo pessoas que, tendo renunciado a. todas as
leis de Deus e da natureza, façam outras às quais obedecem exatamente; como, por exemplo, os
ladrões, os soldados de Maomé, os hereges, etc., e assim os lógicos.

XXXIV

Esse cão é meu, diziam essas pobres crianças; lá está o meu lugar ao sol: eis o começo e a
imagem da usurpação de toda a terra.

XXXV

Tendes má fisionomia. Escusai-me, por favor... Sem essa escusa, eu não teria percebido que
houve injúria. Reverência no falar, não há nada de mau que lhes escuse.

XXXVI

Em geral, só imaginamos Platão e Aristóteles com grandes túnicas de pedantes. Eram pessoas
honestas e como as outras, rindo com os seus amigos; e, quando se divertiram em fazer as suas leis e a
sua política, fizeram-nas brincando. Era a parte menos filosófica e menos séria de sua vida. A mais
filosófica era viver simples e tranqüilamente.

Se escreveram sobre política, foi como para regular um sanatório de loucos; e, se fizeram
menção de falar dela como de uma grande coisa, é que sabiam que os loucos a quem falavam julgavam
ser reis e imperadores; entravam nos seus princípios para moderar a própria loucura ao menos mal
possível.

XXXVII

Sinto-me mal com estes cumprimentos: Eu vos dei bastante trabalho; Receio importunar-vos;
Receio que isso seja longo demais: ou se atrai, ou se irrita.

XXXVIII

Um verdadeiro amigo é uma coisa tão vantajosa,