pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.162 materiais34.527 seguidores
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mesmo para os maiores senhores, afim de que
ele diga bem deles e os sustente mesmo em sua ausência, que eles tudo devem fazer para tê-lo. Mas,

escolham bem; pois, se fazem todos os esforços para possuir tolos, isso lhes será inútil, por muito bem
que estes falem deles; e nem mesmo falarão bem se se revelarem mais fracos, pois não têm autoridade;
e, assim, os desacreditarão como companhia.

XXXIX

Quereis que se fale bem de vós? Não o faleis.

XL

Tenho como um fato que, se todos os homens soubessem o que dizem uns dos outros, não
haveria quatro amigos no mundo. É o que evidenciam os dissídios causados pelas informações
indiscretas que às vezes se dão a respeito.

XLI

Cada coisa é aqui verdadeira em parte, falsa em parte. A verdade essencial não é assim: é toda
pura e toda verdadeira. Essa mistura desonra-a e anula-a. Nada é puramente verdadeiro, e assim nada é
verdadeiro, entendendo-o puro verdadeiro. Dir-se-á que é verdadeiro que o homicida é mau: sim, pois
conhecemos bem o mal e o falso. Mas, que se dirá que seja o bom? A castidade? Eu digo que não; pois
o mundo acabaria. O casamento? Não: a continência melhor. Não matar? Não; pois as desordens
seriam horríveis, e os maus matariam todos os bons. Matar? Não; pois isso destrói a natureza. Não
temos nem verdadeiro nem bem senão em parte, e misturado de mal e de falso.

XLII

O mal é fácil, há uma infinidade; o bem, quase único. Mas, um certo gênero de mal é tão difícil
de achar como o que se chama bem, e muitas vezes se faz passar por bem, com essa marca, esse mal
particular. É preciso mesmo uma grandeza de alma extraordinária para alcançá-lo, assim como ao bem.

XLIII

As cordas que ligam o respeito de uns para com os outros, em geral, são cordas da necessidade;
pois é preciso que haja diferentes graus: é que todos os homens querem dominar, e nem todos o podem,
mas alguns o podem. Essas cordas que ligam, pois, o respeito a tal e tal em particular são cordas de
imaginação.

XLIV

Somos tão infelizes que só podemos achar prazer numa coisa sob a condição de nos desgostar
se sai mal; o que mil coisas podem fazer e fazem a toda hora. Quem achasse o segredo de se regozijar
do bem, sem se desgostar do mal contrário teria resolvido a dificuldade.

XLV

A medida que se tem mais espírito, acha-se que há mais homens originais. As pessoas comuns
não acham diferença entre os homens.

A diversidade é tão ampla que todos os tons de voz, todos os andares, tosses, assoamentos,
espirros, são diferentes. Distinguem-se das frutas as uvas, e entre estas a moscatel, a Condrieu, e depois
a Desargues, e depois a Cette entre estas; é tudo? Já produziu (a natureza) dois cachos semelhantes e
um cacho com dois grãos semelhantes? etc.

XLVI

Todo o nosso raciocínio se reduz a ceder ao sentimento. Mas, a fantasia é semelhante e
contrária ao sentimento; (semelhante, porque não raciocina; contrária, porque é falsa): de sorte que não
se pode distinguir entre esses contrários. Um diz que o meu sentimento é fantasia; outro, que a sua
fantasia é sentimento. Seria preciso ter uma regra. A razão se oferece; mas, é flexível em todos os
sentidos; e, assim, não há regra.

XLVII

É desagradável estar na exceção da regra. É preciso mesmo ser severo e contrário à exceção.
Mas, contudo, como é certo que há exceções da regra, é preciso julgar isso severamente, mas com
justiça.

XLVIII

Persuadimo-nos melhor, de ordinário, com as razões que nós mesmos descobrimos do que com
as que ocorrem ao espírito de outrem.

XLIX

O espírito crê naturalmente, e a vontade ama naturalmente; de sorte que, à falta de verdadeiros
objetos, é preciso que eles se liguem aos falsos.

L

Esses grandes esforços de espírito, que a alma às vezes atinge, são coisa em que ela não
permanece. Apenas salta daí para logo tornar a cair.

LI

O homem não é nem anjo nem besta; e a infelicidade quer que quem quer ser anjo seja besta.

LII

Os animais não se admiram. Um cavalo não admira o seu companheiro. Não é que não haja
entre eles emulação na corrida, mas é sem conseqüência; pois, estando no estábulo, o mais pesado e
mais mal talhado não cede sua aveia ao outro, como os homens querem que se lhes faça. Sua virtude se
satisfaz por si mesma.

LIII

Assim como estragamos o espírito estragamos também o sentimento. Formamos o espírito e o
sentimento pelas conversações. Assim, as boas ou as más o formam ou o estragam. Importa, pois, de
todo, saber escolher bem para o formarmos e não o estragarmos; e não podemos fazer essa escolha se já
não o formamos e não o estragamos. Assim, isso faz um circulo, de onde são bem felizes os que saem.

LIV

O coração tem sua ordem; o espírito tem a sua, que é por princípios e demonstrações; o coração
tem uma outra. Não se prova que se deve ser amado expondo por ordem as causas do amor: seria
ridículo.

Jesus Cristo e São Paulo têm a ordem da caridade e não a do espírito; pois queriam animar, não
instruir; Santo Agostinho também. Essa ordem consiste principalmente na digressão sobre cada ponto
que tem relação com o fim, para mostrá-la sempre.

LV

Que vaidade a pintura, que atrai a admiração pela semelhança com as coisas cujos originais não
se admiram!

LVI

A verdadeira eloqüência zomba da eloqüência; a verdadeira moral zomba da moral, isto é, a
moral do julgamento zomba da moral do espírito, que não tem regra.

LVII

Zombar da filosofia é verdadeiramente filosofar.

LVIII

Há muita gente que ouve o sermão da mesma maneira por que ouve as vésperas.

LIX

Os rios são caminhos que marcham e que conduzem aonde queremos ir.

LX

Dois rostos semelhantes, doa quais nenhum faz rir em particular, fazem rir juntos pela sua
semelhança.

LXI

Os astrólogos, os alquimistas, etc., têm alguns princípios, mas abusam deles. Ora, o abuso das
verdades deve ser tão punido quanto a introdução da mentira.

LXII

A natureza recomeça sempre as mesmas coisas, os anos, os dias, as horas; os espaços também, e
os números estão nos dois sentidos em seguida uns dos outros. Assim, faz-se uma espécie de infinito
eterno. Não é que haja nada de tudo isso que seja infinito e eterno; mas, esses seres terminados se
multiplicam infinitamente. Assim, parece-me, só o número que os multiplica é infinito.

LXIII

Não somente observamos as coisas por outros lados, mas com outros olhos: não temos cuidado
de as achar semelhantes.

Ele já não ama essa pessoa que amava há dez anos. Creio bem, ela já não é a mesma, nem ele
tão pouco: ele era moço, e ela também; ela é inteiramente outra; ele talvez ainda a amasse tal como ela
foi então.

LXIV

Tudo o que se aperfeiçoa por progresso perece também por progresso. Tudo o que foi fraco não
pode nunca ser absolutamente forte. É inútil dizer: ele cresceu; ele mudou; ele é ainda o mesmo.

LXV

A teologia é uma ciência, mas, ao mesmo tempo, quantas ciências há? Um homem é um
membro; mas, se o anatomizarmos, será ele a cabeça, o coração, o estômago, as veias, cada veia, cada
porção de veia, o sangue, cada humor do sangue?

Uma cidade, uma aldeia, de longe é uma cidade e uma aldeia; mas, à medida que nos
aproximamos, são casas, árvores, telhados, folhas, plantas, formigas, pernas de formigas, ao infinito.
Tudo isso se envolve sob o nome de aldeia.

LXVI

Há plantas sobre a terra; nós as vemos: da lua não as veríamos; e sobre essas plantas, pêlos, e
nesses pêlos pequenos animais; mas, depois disso, mais nada. Oh presunçoso! os insetos são compostos
de elementos, e os elementos não. Oh presunçoso! eis um traço delicado: é preciso não dizer que há o
que não se vê; é preciso dizer como os outros, mas não pensar como eles.

LXVII

Nossa natureza está em movimento; o repouso completo é a morte.

LXVIII

Quando dizemos que o calor é apenas o movimento de alguns glóbulos e a luz o conatus
recedendi (94) que sentimos, isso nos assombra. Como o prazer não seria outra coisa senão o bailado
dos espíritos? Concebemos dele uma idéia tão diferente, e esses