pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.446 seguidores
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que ela se acha, que combate todos os nossos
prazeres e que, à primeira vista, parece, contrária ao senso comum, é a única que sempre existiu.

XI

Toda a conduta das coisas deve ter por objeto o estabelecimento e a grandeza da religião; os
homens devem ter em si mesmos sentimentos conformes ao que ela nos ensina: e, enfim, ela deve ser
de tal forma o objeto e o centro para o qual tendem todas as coisas que quem souber os seus princípios
poderá explicar toda a natureza do homem em particular e toda a conduta do mundo em geral.

E, sobre esse fundamento, eles (os ímpios) tomam pé para blasfemar a religião cristã, porque a
conhecem mal. Imaginam que ela consiste simplesmente na adoração de um Deus considerado como
grande e poderoso e eterno: o que é propriamente o deísmo, quase tão afastado da religião cristã quanto
o ateísmo, que lhe é totalmente contrário. E daí concluem que não vêem que todas as coisas concorrem
para o estabelecimento deste ponto: que Deus não se manifesta aos homens com toda a evidência que
lhe seria possível.

Mas, que daí concluam o que quiserem contra o deísmo, nada concluirão contra a religião cristã,
que consiste propriamente no mistério do Redentor, o qual, unindo em si as duas naturezas, a divina e a
humana, retirou os homens da corrupção do pecado, para reconciliá-los com Deus em sua pessoa
divina.

Ela ensina, pois, a todos os homens, estas duas verdades: que há um Deus de que os homens são
capazes, e que há uma corrupção na natureza que os torna indignos dele. Importa, igualmente, que os
homens conheçam esses dois pontos; e é igualmente perigoso que o homem conheça Deus sem
conhecer sua miséria, e conheça sua miséria sem conhecer o Redentor que pode curá-lo dela. Um só
desses conhecimentos faz ou o orgulho dos filósofos que conheceram Deus, e não sua miséria, ou o
desespero dos ateus, que conhecem sua miséria sem Redentor. E, assim como é igualmente da
necessidade do homem conhecer esses dois pontos, é também igualmente da misericórdia de Deus
fazer com que os conheçamos. A religião cristã o faz; é nisso que ela consiste. Examine-se a ordem do
mundo sobre isso, e veja-se se todas as coisas não tendem ao estabelecimento dos dois chefes dessa
religião.

XII

Quem não se reconhece cheio de soberba, de ambição, de concupiscência, de fraqueza, de
miséria e de injustiça, é bastante cego. E quem, assim se reconhecendo, não deseja regenerar-se, que se
pode dizer de um homem... (tão pouco razoável)? Que é, pois, que se pode ter, senão estima, por uma
religião que conhece tão bem os defeitos do homem, e senão desejo pela verdade de uma religião que
para isso promete remédios tão desejáveis?

ARTIGO IV

VERDADEIRA RELIGIÃO PROVADA PELAS CONTRARIEDADES EXISTENTES NO
HOMEM E PELO PECADO ORIGINAL

I

As grandezas e as misérias do homem são de tal modo visíveis que é preciso, necessariamente,
que a verdadeira religião nos ensine e que haja no homem um grande princípio de grandeza e um
grande princípio de miséria. É preciso, pois, que ela nos explique essas espantosas contrariedades. Se
há um só princípio de tudo, um único fim de tudo: tudo por ele, tudo para ele. É preciso, pois, que a
verdadeira religião nos ensine a não adorar senão a ele e a não amar senão a ele. Mas, como nos
achamos na impossibilidade de adorar o que não conhecemos e de amar outra coisa além de nós, é
preciso que a religião, que instrui sobre esses deveres, nos instrua também sobre essas
impossibilidades, ensinando-nos também os remédios.

É preciso que, para tornar o homem feliz, ela lhe mostre que há um Deus; que se é obrigado a
amá-lo; que a nossa verdadeira felicidade é estar nele, e o nosso único mal estar separado dele; que
reconheça que estamos cheios de trevas que nos impedem de conhecê-lo e de amá-lo; e que, assim,
obrigando-nos os nossos deveres a amar a Deus, e as nossas concupiscências a desviar-nos dele,
estamos cheios de injustiça. É preciso que nos dê satisfação dessas nossas oposições em relação a Deus
e ao nosso próprio bem; é preciso que nos ensine os remédios para essas impossibilidades e os meios de
obter esses remédios. Examinem-se sobre isso todas as religiões do mundo, e veja-se se há alguma que
o satisfaça como a cristã.

Serão os filósofos, que nos propõem, como todo bem, os bens que estão em nós? Será esse o
verdadeiro bem? Descobriram eles o remédio para os nossos males? Será curar a presunção do homem
igualá-lo a Deus? Os que nos igualaram às feras, e os maometanos, que nos deram como todo bem os
prazeres da terra, até mesmo na eternidade, trouxeram, o remédio para as nossas concupiscências?
Levantai vossos olhos para Deus, dizem uns; olhai para aquele ao qual vos assemelhais e que vos fez
para adorá-lo; podeis tornar-vos semelhante a ele; a sabedoria vos igualará a ele, se quiserdes segui-lo.
Dizem outros: Baixai vossos olhos para a terra, mísero verme que sois, e olhai para as feras, das quais
sois o companheiro.

Que se tornará, pois, o homem? Será ele igual a Deus ou aos animais? Que espantosa distância!
Que seremos, pois? Quem não vê, por tudo isso, que o homem está afastado, que caiu do seu lugar, que
o procura com inquietude, que não pode mais tornar a encontrá-lo? E quem, então, tornará a pô-lo de
pé? Os maiores homens não o conseguiram. Que religião, pois, nos ensinará a curar o orgulho e a
concupiscência? Que religião, enfim, nos ensinará o nosso bem, os nossos deveres, as fraquezas que
nos desviam, a causa dessas fraquezas, os remédios que podem curá-las e o meio de obter esses
remédios? Todas as outras religiões não o conseguiram. Vejamos o que fará a Sabedoria de Deus, (que
nos fala na religião cristã):

É em vão, oh homens, que procurais em vós mesmos o remédio para as vossas misérias. Todas
as vossas luzes só podem chegar a conhecer que não é em vós mesmos que descobrireis a verdade e o
bem. Os filósofos o prometeram, mas não puderam fazê-lo. Eles não sabem nem qual é o vosso
verdadeiro bem, nem qual é o vosso verdadeiro estado. Como poderiam dar remédio aos vossos males,
se nem ao menos o conheceram? Vossas enfermidades principais são o orgulho, que vos subtrai de
Deus, a concupiscência, que vos liga à terra, e eles não fizeram outra coisa senão entreter ao menos
uma dessas enfermidades. Se vos deram Deus por objeto, foi apenas para exercer vossa soberba.
Fizeram-vos pensar que lhe sois semelhantes e conformes por vossa natureza. E os que viram a vaidade
dessa pretensão vos lançaram no outro precipício, fazendo-vos entender que vossa natureza é
semelhante à dos animais, e vos levaram a procurar o vosso bem nas concupiscências, que são a
partilha dos animais. Não é esse o meio de vos curar de vossas injustiças, que esses juizes não
conheceram. Não espereis, diz ela, nem a verdade nem a consolação dos homens. Eu sou aquela que
vos formou e, em seguida, a única que vos ensina o que sois. Mas, não estais, agora, no estado em que

vos formei. Criei o homem santo, inocente, perfeito; enchi-o de luz e de inteligência; comuniquei-lhe
minha glória e minhas maravilhas. Os olhos do homem viam, então, a majestade de Deus. Ele não se
achava nas trevas que o cegam, nem na mortalidade e nas misérias que o afligem. Mas, não pode
sustentar tanta glória sem cair na presunção. Quis tornar-se o centro de si mesmo, independente do meu
socorro. Subtraiu-se ao meu domínio; igualando-se a mim pelo desejo de encontrar a sua felicidade em
si mesmo, abandonei-o; revoltando as criaturas que lhe estavam submetidas, tornei-as suas inimigas: de
maneira que, hoje, o homem se tornou semelhante aos animais, e num tal afastamento de mim que
apenas lhe resta uma luz confusa do seu autor, de tal forma se extinguiram ou perturbaram todos os
seus conhecimentos! Os sentidos independentes da razão, e muitas vezes senhores da razão, levaram-no
à procura dos prazeres. Todas as criaturas o afligem ou o tentam; e dominam sobre ele, ou submetendo-
o pela força, ou encantando-o com suas doçuras: o que é um domínio