pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.490 seguidores
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mais terrível e mais imperioso.

Eis o estado em que os homens estão hoje. Resta-lhes algum instinto poderoso da felicidade de
sua primeira natureza, e eles estão mergulhados nas misérias de sua cegueira e de sua concupiscência,
que se tornou sua segunda natureza.

Por esse princípio que vos revelo, podeis reconhecer a causa de tantas contrariedades que
assombraram todos os homens e que os dividiram em sentimentos tão diversos. Observai, agora, todos
os movimentos de grandeza e de glória que a experiência de tantas misérias não pode refrear, e vede se
não é preciso que a causa disto esteja em outra natureza.

II

Coisa assombrosa, no entanto, que o mistério mais distanciado do nosso conhecimento, que é o
da transmissão do pecado original, seja uma coisa sem a qual não podemos ter nenhum conhecimento
de nós mesmos! Sem dúvida, não há nada que choque mais a nossa razão do que dizer que o pecado do
primeiro homem tornou culpáveis os que, estando tão afastados dessa fonte, parecem incapazes de
participar dele. Essa emanação não nos parece somente impossível, mas nos parece até injustíssima:
com efeito, que há de mais contrário às regras da nossa miserável justiça do que danar eternamente uma
criança incapaz de vontade por um pecado em que parece ter tido tão pouca parte, que cometeu seis mil
anos antes de sua existência? Certamente, nada nos choca mais rudemente do que essa doutrina; no
entanto, sem esse mistério, que é o mais incompreensível de todos, somos incompreensíveis a nós
mesmos. O nó da nossa condição toma suas voltas e pregas nesse abismo. De sorte que o homem é
mais inconcebível sem esse mistério do que esse mistério inconcebível ao homem.

O pecado original é uma loucura diante dos homens; mas, é dado como tal. Não deveis, pois,
censurar de falta de razão essa doutrina, uma vez que a dou como não tendo razão. Mas, essa loucura é
mais sábia do que toda a sabedoria dos homens: Quod stultum est Dei, sapientius est hominibus (8) (I
Coríntios, 1, 25). Com efeito, sem isso, que se dirá que é o homem? Todo o seu estado depende desse
ponto imperceptível. E como se apercebeu disso, de vez que é uma coisa acima de sua razão, e que sua
razão, bem longe de inventar por suas vias, afasta-se quando ela se lhe apresenta?

III

Revelados esses dois estados de corrupção, é impossível que não os reconheçais. Segui vossos
movimentos, observai-vos intimamente e vede se não descobrireis ai os caracteres vivos dessas duas
naturezas. Tantas contradições se achariam num sujeito simples?

Essa duplicidade do homem é tão visível que há os que pensaram que temos duas almas: um
sujeito simples parecendo-lhes incapaz de tais e tão súbitas variedades, de uma presunção desmedida a
um horrível abatimento de ânimo.

Todas essas contrariedades, que pareciam afastar-me mais do conhecimento da religião, foi o
que mais cedo me conduziu à verdadeira.

Para mim, confesso que logo que a religião cristã descobre este princípio: que a natureza dos
homens é corrompida e decaída de Deus, isso abre os olhos a ver por toda parte o caráter dessa
verdade; com efeito, a natureza é tal que assinala por toda parte um Deus perdido, quer no homem,
quer fora do homem.

Sem esses divinos conhecimentos, que puderam fazer os homens, senão, ou elevar-se no
sentimento interior que lhes resta de sua grandeza passada, ou abater-se em vista de sua fraqueza
presente? Com efeito, não vendo a verdade inteira, não puderam chegar a uma perfeita virtude... Uns
considerando a natureza como incorrupta, outros como irreparável, não puderam evitar o orgulho nem a
preguiça, que são as duas fontes de todos os vícios, pois só podem ou abandonar-se a isso por covardia
ou furtar-se por orgulho. De fato, se conhecessem a excelência do homem, ignorariam sua corrupção;
de modo que evitariam a preguiça, mas se perderiam na soberba. E, se reconhecessem a insegurança da
natureza, ignorariam a dignidade; de sorte que poderiam evitar a vaidade, mas precipitando-se no
desespero.

Daí vêm as diversas seitas dos estóicos e dos epicuristas, dos dogmatistas e dos acadêmicos, etc.
Só a religião cristã pode curar esses dois vícios, não expulsando um e outro pela sabedoria da terra, mas
expulsando um e outro pela simplicidade do Evangelho. Com efeito, ensina aos justos, que eleva até à
participação da própria Divindade, que, nesse sublime estado, trazem eles ainda a fonte de toda
corrupção, que os torna, durante toda a vida, sujeitos ao erro, à miséria, à morte, ao pecado; e grita aos
mais ímpios que eles são capazes da graça do seu Redentor. Assim, fazendo tremer os que justifica e
consolando os que condena, tempera com tanta justeza o medo com a esperança, por essa dupla
capacidade que é comum a todos, da graça como do pecado, que abaixa infinitamente mais do que a
razão pode fazer, mas sem desespero; e eleva infinitamente mais do que o orgulho da natureza, mas
sem desvanecer: fazendo ver bem, por isso, que, sendo a única isenta de erro e de vício, só a ela
compete instruir e corrigir os homens.

Quem pode, pois, recusar-se a crer e adorar essas celestes luzes? Com efeito, não é mais claro
que o dia que sentimos em nós mesmos caracteres indeléveis de excelência? E não é tão verdadeiro que
experimentamos a todo momento os efeitos da nossa deplorável condição? Que nos gritam, pois, esse
caso e essa confusão monstruosa, senão a verdade desses dois estados, com uma voz tão poderosa que é
impossível resistir?

IV

Não concebemos nem o estado glorioso de Adão, nem a natureza do seu pecado, nem a
transmissão que dele se fez em nós. São coisas passadas no estado de uma natureza toda diferente da
nossa e que vão além da nossa capacidade presente. Tudo isso nos é inútil saber para sair dele; e tudo o
que nos importa conhecer é que somos miseráveis, corruptos, separados de Deus, mas religados por
Jesus Cristo; e é disso que temos provas admiráveis sobre a terra.

V

O cristianismo é estranho: ordena ao homem que reconheça que é vil e até abominável; e
ordena-lhe que queira ser semelhante a Deus. Sem esse contrapeso, essa elevação o tornaria
horrivelmente vão, ou esse abaixamento o tornaria horrivelmente abjeto.

VI

A miséria persuade o desespero; o orgulho inspira a presunção. A incarnação mostra ao homem
a grandeza de sua miséria pela grandeza do remédio de que ele necessita.

VII

Não se acha, na religião cristã, um abaixamento que nos torne incapazes do bem, nem uma
sanidade isenta do mal.

Não há doutrina mais própria ao homem do que essa, que o instrui de sua dupla capacidade de
receber e perder a graça, por causa do duplo perigo a que sempre está exposto, de desespero ou de
orgulho.

VIII

Os filósofos não prescreviam sentimentos proporcionais aos dois estados. Inspiravam
movimentos de grandeza pura, e não é esse o estado do homem. Inspiravam movimentos de baixeza
pura, e não é esse o estado do homem. São necessários movimentos de baixeza, não por natureza, mas
por penitência; não para ficar neles, mas para chegar à grandeza. São necessários movimentos de
grandeza, não por merecimento, mas por graça, e depois de se ter passado pela baixeza.

IX

Ninguém é tão feliz como um verdadeiro cristão, nem tão razoável, tão virtuoso, tão amável.
Com que pouco orgulho um cristão se julga unido a Deus com que pouca abjeção se iguala aos vermes
da terra!

X — É incrível que Deus se unisse a nós

Essa consideração só é tirada em vista da nossa baixeza. Mas, se a tendes bem sincera, segui-a
tão longe quanto eu, e reconhecei que somos de fato tão baixos que somos por nós mesmos incapazes
de conhecer se a sua misericórdia pode tornar-nos capazes dele. Com efeito, eu bem desejaria saber de
onde esse animal, que se reconhece tão fraco, tem o direito de medir a misericórdia de Deus e de pôr-
lhe os limites que a fantasia lhe sugere. Ele sabe tão pouco o que é Deus que não sabe o que ele próprio
é: e, todo perturbado pela visão do seu próprio estado, ousa dizer que Deus não pode torná-lo