pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.159 materiais34.427 seguidores
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capaz de
sua comunicação! Mas, eu desejaria perguntar-lhe se Deus lhe pede outra coisa além de que o ame
conhecendo-o, e porque crê que Deus não pode tornar-se cognoscível e amável por ele, de vez que é
naturalmente capaz de amor e de conhecimento. Sem dúvida, conhece ao menos que existe e que uma
alguma coisa. Portanto, se vê alguma coisa nas trevas em que se encontra, e se acha algum motivo de
amor entre as coisas da terra, porque, se Deus lhe dá alguns raios de sua essência, não será capaz de o
conhecer e de o amar da maneira que lhe aprouver comunicar-se conosco? Há, pois, sem dúvida, uma
presunção insuportável nessas espécies de raciocínios, embora pareçam fundados sobre uma humildade
aparente, que não é nem sincera, nem razoável, se não nos faz confessar que, não sabendo por nós
mesmos o que somos, só podemos aprendê-lo por Deus.

ARTIGO V

SUBMISSÃO E USO DA RAZÃO

I

A última tentativa da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam.
Revelar-se-á fraca se não chegar a conhecer isso. É preciso saber duvidar onde é preciso, afirmar onde
é preciso, e submeter-se onde é preciso. Quem não faz assim não entende a força da razão. Há os que
pecam contra esses três princípios, ou afirmando tudo como demonstrativo, não precisando ser
conhecido por demonstrações; ou duvidando de tudo, não precisando saber onde é necessário,
submeter-se; ou submetendo-se a tudo, não precisando saber onde é necessário julgar.

II

Se se submete tudo à razão, a nossa religião nada terá de misterioso nem de sobrenatural. Se se
contrariam os princípios da razão, a nossa religião será absurda e ridícula. A razão, diz Santo
Agostinho, nunca se submeteria, se não julgasse que há ocasiões em que deve submeter-se. É, pois,
justo que se submeta quando julga que deve submeter-se.

III

A piedade é diferente da superstição. Sustentar a piedade até à superstição é destruí-la. Os
hereges nos acusam dessa submissão supersticiosa. É fazer aquilo de que nos acusam (exigir essa
submissão nas coisas que não são matéria de submissão).

Não há nada tão conforme à razão como a retratação da razão (nas coisas que são de fé e nada
tão contrário à razão como a retratação da razão nas coisas, que não são de fé). Dois excessos: excluir a
razão, só admitir a razão.

IV

Diz bem a fé o que não dizem os sentidos, mas não o contrário do que vêem estes. Ela está
acima e não em oposição.

V

Se eu tivesse visto um milagre, dizem eles, converter-me-ia. Como afirmam que fariam o que
ignoram? Supõem que essa conversão consista numa adoração que se faz de Deus como um comércio e
uma conversão tal como a imaginam. A conversão verdadeira consiste em aniquilar-se diante desse Ser
universal que tantas vezes tem sido irritado e que pode perder-vos legitimamente a todo momento; em
reconhecer que não se pode nada sem ele, e que nada se mereceu dele senão a perda de sua graça.
Consiste em conhecer que há uma oposição invencível entre Deus e nós, e que, sem um mediador, não
pode haver comércio.

VI

Não vos admireis de ver pessoas simples crer sem raciocínio. Deus lhes dá o amor a ele e o ódio
a si mesmo. Inclina-lhes o coração a crer.

Nunca se crerá com uma crença útil e de fé se Deus não inclina a isso o coração; crer-se-á desde
que ele o incline. É o que bem conhecia Davi quando dizia: inclina cor meum, Deus, in testimonia tua
(9) (Salmo CXIX, 36).

VII

Os que crêem sem ter lido os Testamentos é porque têm uma disposição interior tão santa que o
que ouvem dizer da nossa religião lhe é conforme. Sentem que um Deus os fez. Só querem amar a
Deus, só querem odiar a si mesmos. Sentem que não têm por si mesmos a força para isso, que são
incapazes de ir a Deus e que, se Deus não vem a eles, não podem ter nenhuma comunicação com ele. E
ouvem dizer, em nossa religião, que é preciso amar somente a Deus e odiar somente a si mesmo; mas,
sendo todos corrompidos e incapazes de Deus, Deus se fez homem para unir-se a nós. Não é preciso
mais para persuadir homens que têm essa disposição no coração e que têm esse conhecimento do seu
dever e de sua incapacidade.

VIII

Os que vemos tornarem-se cristãos sem o conhecimento das profecias e das provas não deixam
de julgá-las tão bem quanto os que têm esse conhecimento. Julgam-nas pelo coração, como os outros as
julgam pelo espírito. É o próprio Deus que os inclina a crer, e assim estão eles muito eficazmente
persuadidos.

Confesso que um desses cristãos que crêem sem provas não terá, talvez, com que convencer um
infiel que lhe alegar tal coisa. Mas, os que conhecem as provas da religião provarão sem dificuldade
que esse fiel é verdadeiramente inspirado por Deus, embora não possa prová-lo ele próprio.

ARTIGO VI

IMAGEM DE UM HOMEM QUE SE CANSOU DE PROCURAR DEUS PELO SIMPLES
RACIOCÍNIO E QUE COMEÇA A LER A ESCRITURA

I

Vendo a cegueira e a miséria do homem (e essas contrariedades espantosas que se descobrem
em sua natureza), observando todo o universo mudo, e o homem sem luz, abandonado a si mesmo, e
como que perdido neste recanto do universo, sem saber quem o pôs aqui, o que veio aqui fazer, o que
se tornará ao morrer, incapaz de qualquer conhecimento, eu princípio a ter medo como um homem que
tivesse sido levado dormindo para uma ilha deserta e medonha e que despertasse sem saber onde está e
sem meios de escapar. E, sobre isso, admiro como não se entra em desespero por tão miserável estado.
Vejo outras pessoas perto de mim com semelhante natureza: pergunto-lhes se são mais instruídas do
que eu e me dizem que não: e, sobre isso, esses miseráveis perdidos, tendo olhado ao redor e visto
alguns objetos agradáveis, a eles se entregaram e se ligaram. Quanto a mim, não pude entregar-me nem
ligar-me e, considerando quanta aparência há de que existe outra coisa além do que vejo, tratei de
descobrir se esse Deus não teria deixado algum sinal de si.

Vejo uma porção de religiões em vários lugares do mundo e em todos os tempos. Mas, não têm
nem moral que possa agradar-me, nem as provas que possam prender-me. E assim, teria eu recusado
igualmente a religião de Maomé, a da China, a dos antigos romanos, a dos egípcios, pela única razão de
que, não tendo uma mais sinais de verdade do que a outra, nem nada que determinasse
necessariamente, a razão não pode pender de preferência para uma do que para outra.

Mas, considerando assim essa inconstante e bizarra variedade de costumes e de crença nos
diversos tempos, encontro num canto do mundo um povo particular, separado de todos os outros povos
da terra, o mais antigo de todos, cujas histórias precedem de vários séculos as mais antigas que
possuímos. Encontro, pois, esse povo grande e numeroso, saído de um só homem, que adora um só
Deus e que se conduz por uma lei que eles dizem ter recebido de sua mão. Sustentam que são os únicos
do mundo aos quais Deus revelou os seus mistérios; que todos os homens estão corrompidos e no
desfavor de Deus; que estão todos abandonados aos seus sentidos e ao seu próprio espírito e que dai
provêm os estranhos desvios e mudanças contínuas que se verificam entre eles, tanto de religiões como
de costumes; que, ao passo que ficam inabaláveis em sua conduta, Deus não deixará eternamente os
outros povos nessas trevas; que virá um libertador para todos; que estão no mundo para anunciá-lo, que
foram formados de propósito para serem os precursores e arautos desse grande acontecimento, e para
chamar todos os povos a se unirem a eles na espera desse libertador.

O encontro desse povo me assombra e me parece digno de atenção, em virtude do grande
número de coisas admiráveis e singulares que nele aparecem.

Vejo, primeiro, que é um povo todo composto de irmãos; e, ao contrário de todos os outros, que
são formados da reunião de uma infinidade de famílias, aquele, embora tão estranhamente abundante,
saiu todo de um só homem; e, sendo assim todos uma mesma carne e membros uns dos outros,
compõem. um poderoso Estado de uma só família. Isso