pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.158 materiais34.420 seguidores
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é único.

Essa família ou esse povo é o mais antigo que existe no conhecimento dos homens: o que me
parece dever atrair para ele uma veneração particular, principalmente na pesquisa que fazemos, de vez
que, se Deus se comunicou sempre aos homens, a eles é que é preciso recorrer para saber qual é a sua
tradição.

Esse povo não é somente considerável por sua antigüidade, mas é ainda singular em sua
duração, que sempre continuou desde sua origem até agora; com efeito, ao contrário dos povos da
Grécia e da Itália, da Lacedemônia, de Atenas, de Roma e dos outros que vieram tanto tempo depois e
acabaram há tanto tempo, eles subsistem sempre; e, mau grado as empresas de tantos reis poderosos,
que cem vezes experimentaram fazê-los perecer, como o testemunham os seus historiadores e como é
fácil de julgar pela ordem natural das coisas, durante um tão longo espaço de anos, eles sempre foram
conservados; e, estendendo-se desde os primeiros tempos aos últimos, a sua história encerra em sua
duração a de todas as nossas histórias.

Considerando essa lei que eles se gabam de terem recebido de Deus, acho-a admirável; é a
primeira lei de todas, de tal maneira que, antes mesmo da palavra lei ter sido usada pelos gregos, havia
cerca de mil anos que eles a tinham recebido e observado sem interrupção. Assim, acho estranho que a
primeira lei do mundo seja considerada também como a mais perfeita, a ponto dos maiores legisladores
terem emprestado dela as suas, como acontece com a lei das doze tábuas de Atenas, que foi em seguida
tomada pelos romanos, e como seria fácil de mostrar, se Josefo e outros não tivessem tratado
suficientemente dessa matéria.

Mas, essa lei é ao mesmo tempo a mais severa e a mais rigorosa de todas, obrigando esse povo,
para retê-lo no seu dever, a mil observações particulares e penosas, sob pena da vida. De sorte que é
uma coisa assombrosa que ela seja sempre conservada durante tantos séculos por um povo rebelde e
impaciente como esse, enquanto que todos os outros Estados mudaram de tempos a tempos as suas leis,
embora fossem, ao contrário, bastante fáceis (de observar).

II

(Esse povo é ainda admirável em sinceridade). Eles trazem com amor e fidelidade o livro em
que Moisés declara que sempre foram ingratos para com Deus e que sabe que o serão ainda mais depois
de sua morte, mas que chama o céu e a terra como testemunho contra eles, e que isso ele lhes disse
bastante; que, enfim, Deus, irritando-se contra eles, os dispersará entre todos os povos da terra; que,
como o irritaram adorando deuses que não eram o seu Deus, assim também ele os provocará, os irritará
chamando um povo que não era o seu povo. No entanto, esse livro, que os desonra em tantos trechos, é
conservado por eles à custa de sua vida. É uma sinceridade que não tem exemplo no mundo, nem sua
raiz na natureza.

(De resto, não encontro nenhum motivo para duvidar da verdade do livro que contém todas
essas coisas; com efeito), há muita diferença entre um livro que um particular faz e lança no povo e um
livro que faz dele próprio um povo. Não se pode duvidar de que o livro seja tão antigo quanto o povo.

(É um livro feito por autores contemporâneos). Toda história que não é contemporânea é
suspeita; assim, os livros das Sibilas e de Trismegisto e tantos outros que se escreveram no mundo são
falsos e se mostram falsos com o correr dos tempos. Mas, não é assim com os autores contemporâneos.

III

Que diferença de um livro para outro! Não me admira que os gregos tenham feito a Ilíada, nem
os egípcios e os chineses as suas histórias. Basta ver como isso nasceu.

Esses historiadores fabulosos não são contemporâneos das coisas sobre as quais escrevem.
Homero faz um romance que ele dá por tal: com efeito, ninguém duvidava de que Tróia e Agamenon
tivessem existido tanto quanto a maçã de ouro. Ele não pensou também em fazer uma história, mas
apenas um divertimento. O seu livro é o único do seu tempo; a beleza da obra faz durar a coisa: todos a
conhecem e falam dela: é preciso conhecê-la; todos a sabem de cor. Quatrocentos anos depois, os
testemunhos das coisas não estão mais vivos, ninguém sabe mais, por seu conhecimento, se é uma
fábula ou uma história: desde que foi aprendida dos antepassados, pode passar como verdadeira.

ARTIGO VII

DOS JUDEUS (10)

I

Tendo passado a criação e o dilúvio e não devendo Deus destruir mais o mundo nem tornar a
criá-lo, nem dar esses grandes sinais de si, começou a estabelecer um povo sobre a terra, formado
propositadamente, que devia durar até ao povo que o Messias formaria por seu espírito.

II

Deus, querendo fazer parecer que podia formar um povo santo de uma santidade invisível e
enchê-lo de uma glória eterna, fez coisas visíveis; como a natureza é uma imagem da graça, fez nos
bens da natureza o que devia fazer nos da graça, afim de que se julgasse que ele podia fazer o invisível,
uma vez que fazia bem o visível. Salvou, pois, esse povo do dilúvio; fê-lo nascer de Abraão; libertou-o
dos seus inimigos e deu-lhe repouso.

O objeto de Deus não era salvar do dilúvio e fazer nascer de Abraão todo um povo, para não o
introduzir senão numa terra fértil.

III

Querendo privar os seus dos bens perecíveis, para mostrar que isso não era por impotência, fez
ele o povo judeu.

Os judeus tinham envelhecido nesses pensamentos terrestres de que Deus amava o seu pai
Abraão, a sua carne, e o que dele saísse: que por isso os multiplicara e distinguira de todos os outros
povos, sem permitir que eles se misturassem com estes últimos; que, quando languesciam no Egito, de
lá os retirou com todos os seus grandes sinais em seu favor; que os nutriu com o maná no deserto; que
os conduziu a uma terra bastante fértil, que lhes deu reis e um templo bem construído para nele
oferecerem animais, e que, por meio da efusão do seu sangue, seriam purificados; e que lhes devia
enfim enviar o Messias, para torná-los senhores de todo o mundo. E predisse o tempo de sua vinda.

Os judeus estavam habituados aos grandes e brilhantes milagres; e assim, tendo tido os grandes
lances do mar Vermelho e a terra de Canaã como um resumo das grandes coisas do seu Messias,
esperavam coisas ainda mais brilhantes, das quais as de Moisés eram apenas amostras.

Tendo o mundo envelhecido nesses erros carnais, Jesus Cristo veio no tempo predito, mas não
com o brilho esperado; e, assim, eles pensaram que fosse. Depois de sua morte, São Paulo veio ensinar
aos homens que todas essas coisas tinham vindo em figuras; que o reino de Deus não consistia na
carne, mas no espírito; que os inimigos dos homens não eram os babilônios, mas as suas paixões; que
Deus não se achava bem nos templos feitos pela mão do homem, mas num coração puro e humilhado;
que a circuncisão do corpo era inútil, mas que era necessária a do coração; que Moisés não lhes dera o
pão do céu, etc.

Mas, Deus, não tendo querido descobrir essas coisas a esse povo indigno delas, e tendo querido
todavia predizê-las afim de que fossem cridas, predisse claramente o seu tempo e algumas vezes as
exprimiu claramente, mas abundantemente em figuras, afim de que aqueles. que amavam as coisas
figurantes nelas se detivessem, e aqueles que amavam as figuras as vissem assim (Foi o que fez que ao
tempo do Messias os povos fossem partilhados: os espirituais o receberam, e os carnais, que o
rejeitaram, ficaram para servir de testemunhas).

IV

Os judeus carnais não entendiam nem a grandeza nem o abaixamento do Messias predito em
suas profecias. Desconheceram-no em sua grandeza, como quando ele disse que o Messias será senhor
de Davi, embora seu filho; que ele é, antes que Abraão fosse, e o viu (11). Não o julgavam tão grande
que fosse eterno, e o desconheceram tanto no seu abaixamento como em sua morte. O Messias, diziam
eles, permanece eternamente, e este diz que morrerá. Não o julgavam, pois, nem mortal, nem eterno: só
procuravam nele uma grandeza carnal.

Os judeus amaram tanto as coisas figurantes e as