pascal_pensamentos
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Disciplina:FILOSOFIA E ÉTICA1.161 materiais34.487 seguidores
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esperaram tanto que desconheceram a
realidade quando ela veio no tempo e da maneira preditos. V

Os que acham difícil crer buscam a razão disso no fato dos judeus não crerem. Se isso fosse
claro, diz-se, porque eles não crêem? e desejariam quase que eles cressem, afim de não serem detidos
pelo exemplo de sua recusa. Mas, é justamente a sua recusa o fundamento da nossa crença. Nós a isso
estaríamos menos dispostos se eles fossem dos nossos. Teríamos, então, um mais amplo pretexto. É
admirável que isso tenha tornado os judeus grandes amadores das coisas preditas e grandes inimigos do
cumprimento, (e que até essa aversão tenha sido predita)

VI

Era preciso que, para dar fé ao Messias, houvesse profecias precedentes, que fossem trazidas
por pessoas insuspeitas, de diligência, fidelidade e zelo extraordinário, conhecidos de toda a terra.

Para fazer ter êxito tudo isso, Deus escolheu esse povo carnal, a cuja guarda confiou as
profecias que predizem o Messias como libertador e dispensador dos bens carnais que esse povo
amava; e assim teve ele um ardor extraordinário por seus profetas, e trouxe à vista de toda a gente esses
livros que predizem o seu Messias, afirmando a todas as nações que ele devia vir e da maneira predita
nos seus livros, que eles tinham aberto a toda a gente. É assim esse povo, que caiu com o advento
ignominioso e pobre do Messias, foi o seu mais cruel inimigo. De sorte que eis o povo do mundo
menos suspeito para nos favorecer, e o mais exato e mais zeloso que se possa dizer por sua lei e por
seus profetas, que os mantém incorruptos.

VII

Os que rejeitaram e crucificaram Jesus Cristo, que lhes foi em escândalo, são os que trazem os
livros que o testemunham e que dizem que ele será rejeitado e em escândalo. Assim, marcaram que era
ele recusando-o; e foi igualmente provado, quer pelos judeus justos que o receberam, quer pelos
injustos que o rejeitaram, ambos tendo sido preditos.

É por isso que as profecias têm um sentido oculto, o espiritual, do qual esse povo era inimigo,
sob o carnal, do qual era amigo. Se o sentido espiritual tivesse sido descoberto, eles não seriam capazes
de amá-lo; e, não podendo trazê-lo, não teriam tido zelo para a conservação dos seus livros e das suas
cerimônias. E, se tivessem amado essas promessas espirituais, e as tivessem conservado incorruptas até
ao Messias, o seu testemunho não teria tido força, uma vez que teriam sido seus amigos. Eis porque era
bom que o sentido espiritual fosse oculto. Mas, por outro lado, se esse sentido espiritual tivesse sido de
tal forma oculto que de modo algum aparecesse, não teria podido servir de prova ao Messias. Que se
fez então? Esse sentido foi coberto sob o temporal na multidão das passagens, e foi descoberto tão
claramente em algumas, além do tempo e do estado do mundo terem sido preditos tão claramente, que
é mais claro do que o sol. E esse sentido espiritual é tão claramente explicado em alguns lugares, que
era preciso uma cegueira semelhante àquela que a carne lança no espírito quando lhe é submetido, para
não o reconhecer.

Eis, pois, qual foi a conduta de Deus. Esse sentido espiritual é coberto por um outro numa
infinidade de lugares, e descoberto em alguns, raramente, mas de tal sorte, todavia, que os lugares em
que é oculto são equívocos e podem convir aos dois: ao passo que os lugares em que é descoberto são
unívocos e só podem convir ao sentido espiritual.

De sorte que isso não podia induzir em erro, e só havia um povo tão carnal que pudesse
enganar-se a respeito.

Com efeito, quando os bens são prometidos em abundância, que os impedia de entender os
verdadeiros bens, senão a sua cobiça, que determinava esse sentido aos bens da terra? Mas, os que não
tinham bens senão em Deus os relacionavam unicamente com Deus. Com efeito, há dois princípios que
dividem as vontades dos homens: a cobiça e a caridade. Isso não significa que a cobiça não possa
existir com a fé em Deus e que a caridade não exista com os bens da terra. Mas, a cobiça serve-se de
Deus e goza do mundo, ao passo que a caridade, ao contrário, (serve-se do mundo e goza de Deus).

Ora, o último fim é o que dá o nome às coisas. Tudo o que nos impede de chegar a isso é
chamado de inimigo. Assim as criaturas, embora boas, são inimigas dos justos, quando as desviam de
Deus; e o próprio Deus é inimigo daqueles cuja cobiça ele perturba.

Assim, a palavra inimigo dependendo do último fim, os justos entendiam por ela as suas
paixões, e os carnais entendiam os babilônios: e assim esses termos só eram obscuros para os injustos.

É é o que diz Isaias: Signa legem in discipulis meis (12),(Isaias, VIII, 16); e que Jesus Cristo
será pedra de escândalo (idem, VIII, 14). Mas, bem-aventurados os que não forem escandalizados nele
(Mateus, XI, 6). Oséias também o diz perfeitamente: Onde está o sábio? e ele ouvirá o que digo: porque
as vias de Deus são direitas, mas os maus tropeçarão nelas (Oséias, XIV, 10).

E, todavia, esse Testamento, feito de tal forma que esclarecendo uns cega outros, marcava,
naqueles mesmos que cegava, a verdade que devia ser conhecida pelos outros: porque os bens visíveis
que recebiam de Deus eram tão grandes e tão divinos que parecia bem que ele tinha o poder de lhes dar
os invisíveis e um Messias.

VIII

O tempo do primeiro advento foi predito; o tempo do segundo não o foi (13), porque o primeiro
devia ser oculto; o segundo devia ser brilhante e de tal modo manifesto que os seus próprios inimigos o
devessem reconhecer. Mas, como só devesse vir obscuramente, para ser reconhecido somente pelos que
sondassem as Escrituras, que podiam fazer os judeus, seus inimigos? Se o recebem, o provam por sua
recepção, porque os depositários da espera do Messias o recebem; e, se o renunciam, o provam por sua
renúncia.

IX

Os judeus tinham milagres, profecias, que viam realizar-se; e a doutrina de sua lei era adorar e
amar somente um Deus: era igualmente perpétua. Assim tinha todas as marcas da verdadeira religião;
também o era. Mas, é preciso distinguir a doutrina dos judeus da doutrina da lei dos judeus. Ora, a
doutrina dos judeus não era verdadeira, embora tivesse milagres, as profecias e a perpetuidade, porque
não tinha esse outro ponto de adorar e amar somente a Deus.

A religião Judaica deve, pois, ser considerada diferentemente na tradição dos livros santos e na
tradição do povo. A moral e a felicidade dela são ridículas na tradição do povo; ela é, porém,
incomparável na dos seus santos. O seu fundamento é admirável. É o mais antigo livro do mundo e o
mais autêntico; e, ao contrário de Maomé, que, para fazer subsistir o seu, proibi-a a sua leitura, Moisés,
para fazer subsistir o seu, ordenou a todos que o lessem.

X

A religião dos judeus foi formada sobre a semelhança da verdade do Messias, e a verdade do
Messias foi reconhecida pela religião dos judeus, que era a sua figura.

Entre os judeus, a verdade era apenas figurada. No céu, é descoberta. Na Igreja, é coberta e
reconhecida em relação à figura. A figura foi feita sobre a verdade, e a verdade foi reconhecida sobre a
figura.

XI

Quem julgar a religião dos judeus pelos grosseiros a conhecerá mal. Ela é visível nos santos
livros e na tradição dos profetas, que fizeram ver bastante que não entendiam a lei à letra. Assim, a
nossa religião é divina no Evangelho, nos apóstolos e na tradição; mas, é ridícula nos que a tratam mal.

XII

(Os judeus eram de duas espécies: uns não tinham senão as afeições pagãs, outros tinham as
afeições cristãs). O Messias, segundo os judeus carnais, deve ser um grande príncipe temporal. Jesus
Cristo, segundo os cristãos carnais, veio dispensar-nos de amar a Deus e nos dar sacramentos que
operam tudo sem nós. Nem um nem outro é a religião cristã nem a judaica. Os verdadeiros judeus e os
verdadeiros cristãos reconhecem um Messias que os faria amar a Deus e, por esse amor, triunfar dos
seus inimigos.

XIII

O véu que, para os judeus, existe sobre os livros