Captulo 2 revisto
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Captulo 2 revisto


DisciplinaContabilidade Social e Balanço de Pagamentos145 materiais1.375 seguidores
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as duas outras fontes geradoras de poupança).
Fechamos com isso o sistema, já que o item O era o último a demandar um lançamento inverso que o compensasse. O equilíbrio interno das contas está, por suposto, garantido, e procuramos mostrar que o equilíbrio externo também o está. Uma forma de conferirmos isso é somarmos o lado do débito de todas as cinco contas e deduzirmos disso o somatório do lado do crédito de todas as contas. Se o sistema de fato estiver equilibrado externamente (ou seja, como um todo), o resultado dessa operação deverá ser zero. Deixamos para o leitor esse exercício. 
2.3 A história do sistema de contas nacionais no Brasil: um pequeno retrospecto
Como já adiantamos, o sistema de contas nacionais estudado na seção anterior constitui, na verdade, apenas uma metodologia de referência para a construção dos sistemas de cada país. Quando se estuda um determinado país, deve-se levar em consideração, além das especificidades nas estruturas econômica e social, a disponibilidade e qualidade dos dados, os métodos de pesquisa, a tipologia censitária etc. Em outras palavras, não há um padrão único de contas para todos os países, com uma estrutura absolutamente idêntica àquela derivada da metodologia de referência. Entretanto, alguma homogeneidade é necessária para que se torne possível a realização de comparações entre os vários países. 
Por conta disso, a ONU tem canalizado esforços para padronizar os sistemas de contas nacionais. Como já adiantado, o System of National Accounts (SNA) elaborado por essa organização multilateral é a peça de referência para todos os países. O SNA 93 introduziu algumas mudanças significativas relativamente à versão então vigente, que, excetuadas pequenas alterações, respeitava as recomendações do SNA 68. O Brasil vai adaptar-se a esse novo sistema apenas em 1997. Divulgado ao final desse ano, a nova série de contas apresenta dados que são retroagidos inicialmente até o ano de 1995 e mais à frente até o ano de 1990 (as contas no sistema anterior só ficaram registradas até o ano de 1996). Recuperemos brevemente essa história, antes de apresentarmos as contas brasileiras no formato anterior ao atualmente vigente, ou seja, no formato correspondente às recomendações do SNA 68 e que seguem de perto a metodologia de referência apresentada na seção anterior. 
No Brasil, os esforços que desembocariam na criação do primeiro sistema de contas nacionais datam de 1947, a partir da criação do Núcleo de Economia na já existente Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ). Seu propósito inicial era empreender um acompanhamento sistemático da evolução dos preços, além da elaboração do balanço de pagamentos e do cálculo da renda nacional. Por essa época, ainda estava em estudo, no plano internacional, o desenho conceitual do sistema. O primeiro esforço sistemático de mensuração de agregados nacionais baseado na utilização do método das partidas dobradas foi desenvolvido nos EUA, em 1947, por uma equipe liderada pelo economista Richard Stone (prêmio Nobel de 1984). Uma versão mais bem acabada desse sistema, graças novamente ao trabalho de Richard Stone e sua equipe, só viria em 1953. É neste ano que as Nações Unidas divulgam o SNA 53, a primeira proposta de desenho do sistema, com recomendações metodológicas visando padronizar os cálculos e homogeneizar as estimativas. Assim, só em 1956 o Brasil disporia, pela primeira vez, de um balanço geral da atividade econômica do país, a partir da adaptação, ao SNA 53, das estimativas da renda nacional a custo de fatores já elaboradas pela FGV para o período 1948-55.
Por essa época, já existia o IBRE (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV, e as atividades relacionadas à mensuração e ao cálculo dos agregados componentes do sistema de contas nacionais já estavam a cargo do Centro de Contas Nacionais do IBRE. A equipe responsável por essa tarefa fez divulgar, desde então, substantivas séries de dados, não apenas relativos às contas nacionais propriamente ditas, mas a uma série de outras informações e estimativas necessárias para uma visão mais precisa do desempenho da economia. Não custa lembrar que a obtenção de tais séries e a elaboração do sistema de contas nacionais no Brasil significaram um enorme avanço. Dadas a precariedade das estatísticas existentes e a falta de tradição nesse tipo de trabalho, o fato de nosso país ter conseguido àquela época elaborar o sistema de contas nacionais e produzir uma série significativa delas colocou-o na dianteira, particularmente se considerado o grupo dos países menos desenvolvidos, a maior parte dos quais estava então muito longe de dispor de qualquer tipo de instrumento desse gênero. 
Até 1986, é o Centro de Contas Nacionais do IBRE-FGV que se responsabiliza pelo cálculo e elaboração das contas nacionais do Brasil, procurando, na medida do possível, adaptar-se às determinações internacionais expressas nas edições do SNA. Como já antecipamos, até o início dos anos 1990, era o SNA 68 que vigia e presidia o cálculo das contas. Em 1977 e em 1984 o Centro de Contas Nacionais editou publicações dando conta das sucessivas revisões metodológicas empreendidas para adequar cada vez mais o sistema brasileiro ao padrão traçado pelo SNA 68. Entrementes, a Fundação IBGE tratava de desenhar e mensurar as variáveis necessárias para a construção da matriz insumo-produto do país.
A partir de 1986, é a Fundação IBGE que passa a se responsabilizar pela elaboração das contas nacionais. Na época em que assume esse encargo, essa instituição elabora também uma profunda revisão metodológica e opera ainda substantivas mudanças na estrutura do sistema de contas. A alteração mais significativa foi a substituição do antigo sistema de cinco contas, de estrutura bastante similar àquela estudada na seção anterior, por um sistema de quatro contas. No novo desenho, as atividades do governo não aparecem destacadas numa conta própria, mas diluem-se nas contas restantes. Cria-se simultaneamente, mas como instrumento à parte do sistema de contas, a conta corrente das administrações públicas, visando detalhar as operações do governo. Finalmente, em 1993, surge uma nova proposta do System of National Accounts, recomendando um novo formato que apresenta substantivas alterações em relação ao anterior. O SNA 1993 leva a Fundação IBGE a modificar mais uma vez o sistema brasileiro, visando adaptá-lo a essas novas recomendações. 
Feito esse retrospecto, vamos apresentar a seguir o sistema brasileiro de contas nacionais tal como vigorou até 1996 e que, como adiantamos, segue bem de perto o formato de referência estudado na seção anterior. No capítulo 4, depois de termos estudado (no capítulo 3) a questão das identidades contábeis e, a partir daí, a relação entre a contabilidade nacional e a macroeconomia, apresentaremos o novo sistema tanto teoricamente quanto em sua versão brasileira.
2.4 O sistema de contas nacionais no Brasil até 1996
O sistema de contas nacionais do Brasil, até 1986, guardava grande semelhança com o sistema apresentado na seção 2.2 deste capítulo caracterizado pelo conjunto de cinco contas: i) conta de produção; ii) conta de apropriação; iii) conta corrente do governo; iv) conta consolidada de capital; e v) conta transações com o resto do mundo. Como já adiantamos, com a passagem do cálculo da FGV para o IBGE, o sistema de contas nacionais passou a ser apresentado, a partir de 1987, sob a forma de quatro contas, a saber: i) conta produto interno bruto (referente à conta de produção); ii) conta renda nacional disponível bruta (referente à conta de apropriação); iii) conta de capital; e iv) conta transações correntes com o resto do mundo. Esse sistema exclui, portanto, a conta do governo, cujas operações são apresentadas à parte na conta corrente das administrações públicas. O fluxo de renda que passa pelo governo, entretanto, está implícito nas demais contas. Os quadros a seguir apresentam as quatro contas componentes do sistema vigente até 1996. Os números em parênteses correspondem à contrapartida