Caderno de FIlosofia e Ética
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Caderno de FIlosofia e Ética


DisciplinaÉtica e Responsabilidade Social5.972 materiais85.576 seguidores
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uma determinada 
maneira não são suficientes para atribuir um significado moral a esta ação, porque quem age nem 
sempre conhece claramente os motivos que o levaram a adotar seu comportamento.
Elementos dos atos morais: a consciência 
Segundo aspecto fundamental do ato moral: a consciência do fim visado. Você está lembrado do 
caso Tylenol, que vimos nas aulas anteriores? Naquela situação, a preocupação com os clientes 
estava no centro da política de utilização dos serviços da J&J. Voltada para eles, a empresa 
enfatizava a segurança, qualidade e confiabilidade do produto. Em torno desse fim, a empresa 
decidiu apostar na estratégia de oferecer um medicamento confiável e eficaz para os usuários. 
Logo, aos fins propostos pela consciência, consideramos a decisão de alcançá-los: justo com a 
associação destes dois aspectos, entendemos porque o ato moral tem um caráter voluntário ou 
consciente. 
Elementos dos atos morais: os meios 
Gisele é filha de Bernardo, e ambos descobriram que ela havia contraído Aids após uma 
transfusão de sangue durante um acidente de trânsito no qual ela foi vítima de atropelamento 
causado por um motorista bêbado.
Bernardo, como não poderia deixar de ser, ficou revoltado com o destino imposto a sua filha. 
Porém, como a amava muito, passou a reivindicar o tratamento ao poder público, já que os 
remédios eram caríssimos e ele não tinha condições de pagar pelo tratamento. 
Como os hospitais públicos quase nunca tinham os remédios, Bernardo resolveu tomar uma 
atitude drástica: assaltar uma indústria farmacêutica para garantir o suprimento da medicação de 
sua filha. 
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JULIO CESAR DE SOUZA
(Continuação do Caderno de Filosofia e Ética.................................................................................)
Fins elevados moralmente não são suficientes para justificar o uso de meios torpes, vis, como a 
humilhação, tortura e o suborno de seres humanos. Já o resultado, que concretiza o fim almejado, 
afeta os homens em sociedade pelas conseqüências da ação empreendida. Por isto, o sujeito que 
age moralmente deve ter plena consciência dos meios que irá utilizar e dos resultados possíveis 
que sua ação desencadeará. Estes últimos, por estarem ainda relacionados com normas, 
princípios e valores que implicam e regulamentando o comportamento individual e social dos 
homens, constituem parte integrante do que uma comunidade julga significativo e digno: seu 
código moral.
A unidade do ato moral 
Motivos, consciência do fim, consciência dos meios e a decisão em alcançar os mesmos, indicam 
que o ato moral possui uma dimensão subjetiva. A ela acrescenta-se, no entanto, um lado 
objetivo: escolha de meios, projeção de resultados e conseqüências possíveis. Agora eu lhe 
pergunto: por que não condenamos moralmente um médico que mutila um paciente (meio) para 
salvar-lhe a vida (fim)? 
Conforme afirma Vázquez (2002,79-80), todos estes elementos (motivo, consciência e fim) 
interagem necessariamente, formando uma \u201cunidade indissolúvel\u201d. Mesmo quando o ato moral 
parece se deslocar para a intenção com que se realiza ou a finalidade desejada, em detrimento 
dos resultados e conseqüências, não é admissível que pensemos em \u201cfins bons em si mesmos, 
independentemente de sua realização\u201d, pois 
\u201ca experiência histórica e a vida cotidiana estão repletas de resultados \u2013 moralmente reprováveis 
\u2013 que foram alcançados com as melhores intenções e com os meios mais discutíveis. As 
intenções não podem ser salvas moralmente, nesses casos, porque não podemos isolá-las dos 
meios e dos resultados. O agente moral deve responder não só por aquilo que projeta ou propõe 
realizar, mas também pelos meios empregados e pelos resultados obtidos. Nem todos os meios 
são moralmente bons para obter um resultado. Justifica-se moralmente como meio a violência 
que o cirurgião faz num corpo e a dor respectiva que provoca; mas não se justifica a violência 
física contra um homem para arrancar-lhe a verdade\u201d.
Código moral na sociedade 
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JULIO CESAR DE SOUZA
(Continuação do Caderno de Filosofia e Ética.................................................................................)
Diante do que realizamos em cada experiência vivida, devemos considerar a forma de nos 
comportarmos moralmente. Dispomos sempre de um código que nos forneça previamente 
fundamentos para que possamos agir corretamente numa situação; mas, devido às peculiaridades 
do que passamos em cada caso e suas dimensões imprevisíveis, em que nos perguntamos: 
devemos fazer X ou Y? Mergulhamos nossas escolhas em problemas que assumem a forma de 
conflito de deveres, ou casos de consciência moral. Não podemos de antemão determinar o que é 
mais conveniente fazermos do ponto de vista de nossa conduta moral. 
Aula 5: Responsabilidade moral, determinismo e liberdade
Roberto é um jovem bastante ativo na sociedade, ainda que conviva com o preconceito pelo fato 
de ser portador de síndrome de Down. Sua mãe, Rosângela, atribui a Roberto uma série de 
atividades diárias, como fazer a feira, ir ao banco etc.
Certo dia, ao entrar no supermercado, Roberto se viu diante da sessão de chocolates. Como já 
sabia que sua mãe confere sempre a nota fiscal, bem como sabia que ela não permite comprar 
esse tipo de alimento, Roberto resolveu colocar no bolso da calça uma pequena embalagem.
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(Continuação do Caderno de Filosofia e Ética.................................................................................)
Análise da ação moral 
Devemos destacar cinco momentos na análise das diversas ações morais: (1) conhecimento do 
objeto e do fim; (2) vontade para alcançar a finalidade visada; (3) deliberação dos meios que 
podem realizar o ato; (4) escolha reflexiva; (5) firmeza para agir. Em poucas palavras, não se 
deve ignorar as circunstâncias e as consequências de uma ação \u2013 agir conscientemente; a causa 
de um ato deve encontrar-se no agente, não em um fator externo, contrariando a sua vontade \u2013 é 
sempre livre a conduta moral. 
\u201c(...) tão-somente o conhecimento, de um lado, e a liberdade, de outro, permitem falar 
legitimamente de responsabilidade. Pelo contrário, a ignorância, de uma parte, e a falta de 
liberdade, de outra (entendida aqui como coação), permite eximir o sujeito da responsabilidade 
moral\u201d (VÁZQUEZ: 2002,110). 
Duas condições entram em consideração: consciência versus ignorância, liberdade versus coação 
externa/coação interna. 
Ignorância e responsabilidade moral 
Quem não tem consciência daquilo que faz está isento de qualquer responsabilidade moral? 
Animando as considerações seguidas no livro III, da Ética a Nicômaco, a discussão sobre este 
tema ganha um rumo definitivo, quando Aristóteles afirma (2001, III,1,1110ª): 
\u201cSão consideradas involuntárias aquelas ações que ocorrem sob compulsão ou por ignorância; e 
é compulsório ou forçado aquele ato cujo princípio motor é externo ao agente, e para o qual a 
pessoa que age não contribui de maneira alguma para o ato, porém, pelo contrário, é influenciado 
por ele. Por exemplo, quando uma pessoa é levada a alguma parte pelo vento, ou por homens que 
a têm em seu poder\u201d. 
Distinguir ações que se passam por e na ignorância torna-se essencial - \u201cTudo o que é feito por 
ignorância é não-voluntário, e só que produz sofrimento e arrependimento é involuntário. Com 
efeito, o homem que fez alguma coisa por ignorância e não sente nenhum pesar pelo que fez, não 
agiu voluntariamente, pois não sabia o que fazia, nem tampouco agiu involuntariamente, visto 
que isso não lhe causa pesar algum. Desse modo, entre as pessoas que agem por ignorância, as 
que se arrependem, que sentem pesar, são consideradas agentes involuntários, e as que não se 
arrependem podem ser chamadas de agentes não-voluntários, pois em razão dessa diferença é 
melhor que tenham uma denominação distinta. Agir por ignorância (...) parece diferir de agir na 
ignorância,