Caderno de FIlosofia e Ética
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Caderno de FIlosofia e Ética

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pois se considera que um homem (...) encolerizado age não por ignorância, (...) mas
sem saber o que faz, (...) na ignorância” (ARISTÓTELES:2001,III,1,1110b17-29).

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JULIO CESAR DE SOUZA
(Continuação do Caderno de Filosofia e Ética.................................................................................)

Coação externa, coação interna e responsabilidade moral

Segunda condição para alguém ser responsabilizado moralmente: seu comportamento ser
desencadeado pela sua própria vontade, inexistindo algo ou uma pessoa que o force a realizar o
ato. Pois, como menciona Aristóteles (2001:III, 1,1110b):

“Que espécies de ações (...) devem ser chamadas forçadas? São aquelas em que, sem restrições
de nenhum tipo, a causa é externa ao agente, o qual em nada contribui para tal ação (...). Os que
agem forçados e contra a sua vontade, agem sofrendo, mas quem pratica atos por serem
agradáveis ou nobres, pratica-os com prazer”.

Na medida em que a causa do ato forçado está fora do agente, escapando ao seu poder e controle,
inexiste a liberdade para decidir e agir por conta própria: age-se pressionado por uma coação
externa.

Cabo Frio, 10 de outubro de 2011.

Aula 6 - Responsabilidade moral, liberdade e determinismo (Parte II)

Você lembra da aula passada? Nela, vimos diversos exemplos (como o do boxeador e da
cleptomaníaca, entre outros) que demonstraram atos acerca da responsabilidade moral a partir da
pressuposição de ausência tanto de coação externa em termos dos atos voluntários, quanto de
coação interna no que concerne aos atos compulsivos ou involuntários. A responsabilidade só é
desencadeada quando consideramos a existência de um ser humano livre, deliberando e agindo
por conta própria.

Nesta aula veremos que os homens interagem no exercício do poder, dos negócios e das leis,
estando sujeitos a limites impostos pelo Estado, pela Economia e pelo Direito.

Ficamos bem longe da idéia de que os homens têm o direito de exercer livremente sua vontade
no campo moral: um grau parcial de autonomia marcaria os diversos comportamentos e relações
humanas na vida em sociedade. E é justamente esta graduação que nos permite refletir sobre a
existência de ações nas quais, sob o peso de referências sociais, econômicas e jurídicas, tornamo-
nos responsáveis moralmente por aquilo que escolhemos fazer, proporcionando-nos uma margem
de liberdade ética.

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JULIO CESAR DE SOUZA
(Continuação do Caderno de Filosofia e Ética.................................................................................)

Daniela é uma senhora que está na “melhor idade”. Aos 62 anos, ela é muito ativa, mas tornou-se
viúva e seus filhos moram longe. Enfim, ela se sente sozinha morando em uma casa na qual só
há um habitante.

Sua irmã, Tatiana, resolveu lhe presentear com um gato para fazer companhia, e Daniela ficou
muito feliz com o presente. Passados alguns meses, Daniela e o gato eram inseparáveis, e ela
adquiriu o hábito de levar o pequeno felino a todo lugar que ia.

Ao tentar entrar em um supermercado com seu gato, a funcionária Ariane, que trabalha no
estabelecimento, barrou Daniela, dizendo: “neste recinto não é possível entrar com animais”.
Daniela ficou indignada, pois alegou que nunca se separa de seu gato, e que se responsabilizaria
por qualquer dano. Mesmo assim, Daniela foi impedida de entrar.

As determinações que incidem sobre a responsabilidade

Como vimos na tela anterior, logo no começo, o sujeito moral só é capaz de agir em relação a si
mesmo e aos outros na medida em que suas ações são coagidas por determinadas causas, a saber:

Liberdade versus necessidade

Duas grandes dimensões se opõem, a este respeito. Pois se estamos falando de um determinismo
que nos leva a encontrar causas para guiar a vida em sociedade, o modo pelo qual agimos não é
ordenado segundo nosso querer, mas conforme o que tem e não pode necessariamente deixar de
ser: liberdade versus necessidade. Sem analisarmos o sentido desta oposição, não podemos
resolver o problema ético fundamental colocado pela responsabilidade moral. E é uma reflexão
de tal porte que nos conduz a três posições filosóficas básicas:

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JULIO CESAR DE SOUZA
(Continuação do Caderno de Filosofia e Ética.................................................................................)

O matemático, físico e astrônomo francês Pierre-Simon Laplace (1749-1827) resumiu bem o
valor do determinismo para as ciências da natureza no século XVIII, ao afirmar que “um
calculador divino, que conhecesse a velocidade e a posição de cada partícula do universo num
dado momento, poderia predizer todo o curso futuro dos acontecimentos na infinidade do tempo”
(VÁZQUEZ:2002,121).

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JULIO CESAR DE SOUZA
(Continuação do Caderno de Filosofia e Ética.................................................................................)

Sandro é um jovem que sofreu um trágico acidente de carro, e quase morreu ao colidir. Ele era
um atleta de alta performance, e o acidente praticamente tirou tudo que ele mais gostava de
fazer: nadar.

No momento em que saiu do quarto, Sandro viu uma imagem que o abalou profundamente: uma
cadeira de rodas. No mesmo momento em que viu tal objeto, tomou a decisão: não queria mais
continuar vivendo.

Durante uma das diversas idas ao hospital, Sandro solicitou ao médico que o acompanhava que
injetasse nele uma substância poderosa o suficiente para lhe tirar a vida. O médico
imediatamente disse que não, que não poderia fazer isso. Sandro alegou que sim, pois deveria
ter a liberdade de decidir se continua vivendo ou não.

A liberdade, neste sentido, manifestaria um poder de agir sem nenhuma outra causa que não
fosse a própria existência desse poder. Um dos grandes defensores desta posição na filosofia foi
Charles Renouvier (1815-1903), nascido em Montpellier, tendo estudado na Escola Politécnica
de Paris. Entre temáticas diversas desenvolvidas por sua reflexão, concentrou-se, do ponto de
vista prático, numa forte defesa da liberdade contra qualquer espécie de determinismo.

Ao pensar na existência de pessoas concretas, Renouvier afirma que a moral converte-se numa
ordem humana, em um ideal passível de ser alcançado, ainda que de modo aproximado. Para a
concretização deste ideal, ele ressalta a influência da personalidade, entendida como “liberdade
através da história” (FERRATER MORAd:1982,2843). Ela alicerçaria tanto a história quanto a
moral. O homem, assim, seria um agente livre, capaz de realizar-se historicamente, não sendo,
apenas, alguém subjugado por uma série de momentos predeterminados. Seu pensamento
afastar-se-ia da idéia de que o curso da vida humana está previamente fixado –“fatalidade na
história” –, ou da idéia ilusória de progressos políticos, sociais e econômicos – “utopismo
progressista”, como afirma Ferrater Mora (d,1982,2843):

“A fatalidade da história, assim como o utopismo progressista, são eliminados
radicalmente [da] concepção [de Renouvier] que vê na liberdade pessoal a condição
de progresso efetivo e concreto, assim como da moralidade”.

Aula 7 - Fundamentos gerais da ética grega

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JULIO CESAR DE SOUZA
(Continuação do Caderno de Filosofia e Ética.................................................................................)

Com Aristóteles, a ética torna-se uma disciplina filosófica. Sua filosofia critica o dualismo
ontológico de Platão, a separação dos mundos sensível e inteligível, sendo marcada por três
etapas:

1. Período platônico – corresponde aos anos que Aristóteles permaneceu na Academia (367-
348/7 a.C), nome da escola fundada por Platão em Atenas (ali ensinava-se dialética,
encontrando-se o saber por constantes questionamentos, o que trouxe para o termo Academia,
desde então, a acepção de local onde o saber não apenas é ensinado, mas produzido). Uma
primeira obra desse período é o Eudemo