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que todas as
portas sendo abertas não se vêem na câmara e nos gabinetes senão aqueles aos quais a entrada é livre por
sua dignidade e por seu cargo.
 Sei além disso que é um privilégio daqueles que trazem coroa serem rodeados de seus súditos; mas
deve haver esta distinção que de ordinário devia ser de nobreza, e na ocasião de receber os estrangeiros,
pessoas qualificadas, que são em grande número neste reino, para fazer notar a grandeza e a
singularidade dessa prerrogativa.
 Em uma palavra, a desordem é tão universal em toda a casa de V. M., que não há cargo particular que
esteja dela isento.
 Embora todos os grandes príncipes sejam cuidadosos e tenham equipagens com muitos cavalos,
convenientes à sua grandeza, V. M. não teve nunca na sua cavalariça um de que se pudesse servir embora
fizesse maior despesa do que os seus predecessores.
 Ser-me-ia fácil especificar muitos outros defeitos não menos notáveis que estes; mas não entrarei em
detalhes de um desregramento tão geral, tanto porque seria muito difícil de o fazer sem descer muito
baixo para a dignidade desta obra, quanto porque é suficiente conhecer um mal sem publicá-lo, para
prescrever os remédios: satisfarei ao que devo, se proponho a V. M. o verdadeiro meio de dar lustro à sua
casa, em lugar da baixeza e da desordem que nela reinam.
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 A primeira coisa que é necessária para esse fim é que V. M. queira fortemente esta reforma; sendo
certo que nos negócios dessa natureza é da vontade dos reis como da de Deus, em relação às coisas mais
difíceis, às quais o querer e o fazer é uma mesma coisa.
 A segunda é que não lhe agrade para o futuro não querer preencher mais os primeiros cargos da sua
casa senão com pessoas de nascimento, que trazem todas as qualidades requeridas para cumprir
dignamente o seu emprego.
 Por grande que seja um oficial, ele se aplicará às menores dependências do seu cargo, desde que seja
capaz, julgando em conseqüência, como são com efeito.
 Se os "maitres d'Hotel", por exemplo, não têm um cuidado particular em ter limpos dia e noite os
lugares em que se come, logo depois que as mesas se levantem, terão faltado a uma das coisas mais
necessárias ao seu cargo.
 É preciso dizer o mesmo de todos os ofícios principais e particularmente dos primeiros gentis-homens
da real câmara que devem ser cuidadosos em trazer todos os apartamentos de V. M. tão limpos e em
ordem que não será demais limpar e perfumar três a quatro vezes por dia, em vista do grande acúmulo de
gente que não se pode evitar, por mais regulada que seja.
 Desde que cada um seja próprio para seu lugar tudo irá como V. M. pode desejar e deste ponto único
depende a regulagem de todo o resto; porque qualquer regra que se possa estabelecer será sem dúvida
inútil se não houver gente capaz de a fazer observar e se todos não são suficientemente inteligentes para
fazer o que a razão inspira como mais digno ponto do seu cargo e do serviço do seu senhor.
 O terceiro consiste em que V. M. se faça servir em todos os cargos da casa salvo os mais baixos, por
gentis-homens, o que contribuindo muito à sua dignidade, tornará a nobreza tanto mais afeiçoada, quanto
ela terá mais meios de chegar perto da sua pessoa.
 Por esse meio V. M. pode fazer de quatro companhias dos seus gendarmes de corpos, as quatro
melhores companhias de gendarmes do seu reino; sendo certo que há muitos gentis-homens que ficarão
satisfeitíssimos de viver nessa qualidade, desde que se dê gratuitamente aquilo que agora se vende em
balcão pois que aquele que dá é preferido aos outros.
 Neste caso, um tal estará bem alegre de ter este emprego, que por nada no mundo hoje tomaria, desde
que é usurpado por pessoas que não o merecem.
 E todos o terão de boa vontade pelo acesso que têm na corte, onde um acaso e qualquer hábito podem
produzir sua fortuna, num instante.
 Dia virá ainda em que menos haja plebeus isentos de pagamentos de taxa pelos cargos da casa real, e
em que mais gente se encontre para ajudar o povo a levar o fardo de que está hoje encarregado.
 O quarto é que V. M. dê, de futuro gratuitamente, os cargos da sua casa, sem permitir que sejam
vendidos por qualquer consideração que possa ser. Dir-se-á talvez que não é razoável que aqueles que
compraram caro os grandes cargos, sejam privados da licença de os vender; mas sendo impossível fazer
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regras úteis ao público, que não tenham algo de incômodo para os particulares, este inconveniente não é
considerável, além de que não tendo comprado seu cargo com a segurança de o revender, como se faz
com os ofícios de "paulette" podem ser eles privados da esperança que talvez tivessem, sem que haja
injustiça.
 E embora qualquer particular possa achar-se ferido numa tal mudança, toda a nobreza e os maiorais aí
encontrarão uma notável vantagem nisto, em lugar de serem obrigados como no passado, a vender uma
parte considerável dos seus bens, para ter tais cargos, o que muitas vezes arruinou algumas das melhores
famílias do reino, e agora não poderão mais esperá-los senão do seu mérito. O que os impedirá de perder
os seus bens e os obrigará a adquirir virtude que no século presente é tanto mais desprezada, quanto o
preço de todas as coisas não consiste senão em dinheiro.
 De resto encontrar-se-ão tantos meios para desinteressar àqueles que, por considerações particulares,
serão dignos de ser isentos das regras gerais, que o público poderá receber mais graças que V. M. lhe
queira dar, sem que os particulares que se poderiam queixar justamente, tenham nenhum prejuízo.
 Como é impossível duvidar da utilidade destas proposições, a facilidade em executá-las é manifesta,
pois que assim como eu disse acima, não é preciso senão vontade firme e constante de V. M. para se ter
fruto e restabelecer sua casa em seu lustre primitivo.
 
CAPÍTULO VIII
DO CONSELHO DO PRÍNCIPE
SEÇÃO I
Que mostra que os melhores príncipes têm necessidade de um bom conselho.
 Não é uma pequena questão entre os políticos saber se um príncipe que se governa no seu Estado por
sua cabeça é mais para desejar do que aquele que, não se fiando tanto em suas luzes, deixa muito ao seu
conselho, e nada faz sem ouvi-lo.
 Far-se-iam volumes inteiros com razões que se podem apresentar de um lado e do outro, mas
reservando esta questão ao fato particular que me obriga a traçá-lo neste lugar, depois de ter preferido o
príncipe que age mais por meio de um conselho do que pelo seu próprio, àquele que prefere a sua cabeça
a todas as razões dos conselheiros; não posso deixar de dizer que assim como o pior governo é aquele
que apenas se baseia na cabeça de um príncipe, que sendo incapaz é tão presunçoso que não faz caso de
conselho nenhum, o melhor de todos é aquele cujo principal impulso é o espírito do soberano, que
embora capaz de agir por si mesmo tem tanta modéstia quanto julgamento, que nada faz sem bom
conselho, fundado sobre este princípio de que um olho não vê tão claramente quanto vários.
 Além de que a razão faz conhecer a solidez desta decisão; a verdade me obriga a dizer que a
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experiência me deu um tal conhecimento, que eu não poderia calar-me sem forçar-me a mim mesmo.
 Um príncipe capaz é um grande tesouro num Estado; um conselho hábil e tal como deve ser, não o é
menos, mas o conjunto de ambos é inestimável, pois que é daí que depende a felicidade dos Estados.
 É certo que os Estados os mais felizes são aqueles em que os príncipes e os conselheiros são sabidos.
 É certo ainda que poucos príncipes se encontram que possam sozinhos governar o seu Estado, e além
disso, mesmo que houvesse vários, eles não deveriam agir assim.
 O todo poder de Deus, sua infinita