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nos bons sucessos de seus
negócios, sua virtude não é menor do que a sua felicidade.

 Sei bem que se V. M. houvesse faltado à sua palavra, teria muito perdido da sua reputação, e que a
menor perda deste gênero faz que um grande príncipe nada mais tenha a perder. Mas não é pouco ter
satisfeito no seu dever em diversas ocasiões em que a vingança e o repouso naturalmente desejado depois
da guerra davam lugar a fazer justamente o contrário.

 Não foi preciso menos prudência do que força, nem menos esforço de espírito do que de armas para
persistir quase só, no mesmo projeto para cuja realização se contava a colaboração de muitos.

 Entretanto, é verdade que a defecção de vários príncipes da Alemanha (1); a retirada que o duque de
Parma foi obrigado a fazer do real partido, por necessidade dos seus negócios; a morte do duque de
Mântua, e a leviandade da mãe adotiva do jovem duque, que não foi em seguida amante, senão
esquecendo as obrigações que devia à França, voltando-se contra ela abertamente; a falta do duque de
Savóia e a imprudência de sua viúva, que se perdeu por não querer suportar que se salvasse: é verdade,
digo eu, que todos estes acidentes não abalaram a firmeza de V. M. e embora tivessem alterado seus
negócios não conseguiram jamais mudar os seus desígnios.

 A segunda nota digna de grande consideração neste assunto é que V. M. jamais quis para garantir-se
do perigo da guerra, expor a cristandade ao das armas otomanas, que lhe foram por mais de uma vez
oferecidas.

 V. M. não ignorava poder aceitar um tal socorro com justiça, e entretanto o conhecimento desse fato
não foi suficientemente forte para lhe fazer tomar uma resolução problemática para a religião, embora

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vantajosa para obter a paz.

 O exemplo de alguns de seus predecessores e de diversos príncipes da casa d'Áustria, que afeta
particularmente parecer religiosa diante de Deus tanto quanto ela é devota, com efeito, dos seus próprios
interesses, foi muito fraca para levar V. M. a praticar o que a história nos ensina como praticado várias
vezes por outros.

 A terceira circunstância que causou espanto nesta guerra foi o grande número de exércitos e de
cabedais com que foi sustentada.

 Os maiores príncipes da terra tiveram sempre dificuldade em empreender duas guerras ao mesmo
tempo; a posteridade terá dificuldade em acreditar que este reino tenha sido capaz de manter
separadamente, às suas expensas, três exércitos de terra e duas armadas, sem contar aquelas dos seus
aliados para as quais não pouco contribuiu.

 Entretanto é verdade que, além de um poderoso exército de vinte mil homens a pé e dezessete mil
cavaleiros que V. M. teve sempre na Picardia para atacar seus inimigos, manteve na mesma província um
outro composto de dez mil infantes e quatro mil cavaleiros, para impedir a entrada por essa fronteira.

 É verdade além disso, que V. M. teve sempre em campanha um outro de número igual ao acima
citado.

 Em Borgonha um exército de igual força.

 Na Alemanha outro não menos poderoso.

 Outro igualmente considerável na Itália, e ainda um na Walteline durante algum tempo. E o que é
digno de admiração, a maior parte dos exércitos estava antes destinada a atacar do que a defender-se.

 Embora seus predecessores tenham desprezado o mar até o ponto de o falecido rei seu pai não ter um
só navio, V. M., não deixou de ter no mar Mediterrâneo, durante o curso desta guerra, vinte galeras, vinte
navios redondos e mais de sessenta bem equipados no Oceano. Com isto não somente evitou a realização
dos desígnios dos seus inimigos, nas costas de França, como lhes causou o mesmo mal que eles nos
pensavam fazer.

 Além disso socorreu, durante todos os anos os holandeses com um milhão e duzentas mil libras, e as
vezes mais, e ao duque de Savóia com mais de um milhão.

 A coroa da Suécia foi auxiliada com igual soma.

 O Landgrave de Hesse com duzentos mil "Risdalles", e vários outros príncipes com outras somas,
segundo as ocasiões o requeriam.

 Cargas tão excessivas fizeram que a despesa de cada um dos cinco anos de guerra que a França
suportou se elevasse a mais de sessenta milhões, o que é tanto mais admirável quanto ela se mantinha
sem suspender pagamento de ordenados dos oficiais, sem tocar na renda dos particulares, e mesmo sem

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pedir nenhuma alienação dos fundos do clero, meios todos extraordinários aos quais seus predecessores
foram comumente obrigados a recorrer em guerras menores.

 Assim sessenta milhões de despesa para cada um dos cinco anos; cento e cinqüenta mil infantes; tanto
para os exércitos quanto para as guarnições das nossas praças, e mais de trinta mil cavaleiros, serão para
a posteridade um argumento imortal do poderio desta coroa.

 Se acrescento que essas diversas ocupações não impediram a fortificação ao mesmo tempo, e de
forma perfeita, de todas as fronteiras, em lugares que estavam abertas antes aos inimigos, estes não as
podendo ver agora senão com espanto, terei tocado um ponto não menos considerável para a posteridade,
pois que, pondo para sempre este reino em segurança, V. M. recebeu do passado apenas trabalhos e
aflições.

 Aqueles aos quais a história há de ensinar os obstáculos que V. M. encontrou para a realização de
todos os seus desígnios, pela inveja que a prosperidade e o temor do seu poderio atraíram dos diversos
príncipes estrangeiros, pela debilidade de alguns de seus aliados, pelas perfídias dos seus maus súditos,
por um irmão mal aconselhado durante algum tempo, por uma mãe sempre possuída de maus espíritos,
desde que se tendo querido privar dos conselhos V. M. ela distinguiu os seus interesses dos do seu
Estado, reconhecendo que tais obstáculos não elevam pouco a real glória, reconhecendo também que os
grandes corações tendo formado grandes projetos não podem ser desviados pelas dificuldades que
encontram; se consideram além disso a leviandade natural desta nação, a impaciência dos militares pouco
acostumados às fadigas inevitáveis na vida das armas, e enfim a fraqueza dos instrumentos que a
necessidade obriga a serem usados nessas ocasiões, entre os quais tomo Eu o primeiro lugar, serão
obrigados a confessar que nada sobrepujou a falta de utensílios, senão a excelência de V. M. como
artífice.

 Enfim se se representarem que sobrepujando a todos os obstáculos V. M. conseguiu a conclusão de
uma paz na qual a falta de alguns aliados e a afeição que V. M. lhes deu fizeram relaxar em parte aquilo
que se havia conquistado unicamente pelas forças de V. M., impossível será que não reconheçam que sua
bondade é igual ao seu poder, e que na real conduta a prudência e a bênção de Deus marcham parelhas.

 Eis aí senhor, até agora, quais foram as ações de V. M. que estimarei felizmente terminadas; se são
seguidas de um repouso que lhe dê meios de cumular seu Estado de toda a sorte de benefícios.

 Para isto fazer é preciso considerar as diversas ordens do reino, o Estado que elas compõe; sua pessoa
que é encarregada de tal conduta; coisa que não requer em geral, senão um bom e fiel conselho; fazer
caso das advertências, e seguir a razão nos princípios que prescreve para o governo dos seus Estados; eis
ao que se reduzirá o centro desta obra, tratando distintamente tais materiais em vários capítulos
subdivididos em diversas seções para os esclarecer mais metodicamente.

REFORMA DAS DIVERSAS ORDENS DO ESTADO

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 Poder-se-iam fazer volumes inteiros sobre o assunto das diversas ordens deste reino; mas não sendo o
meu objetivo tal, senão esse que o trato de muitas coisas mais que concernem a bem discorrer sobre todas
as partes de um Estado, sem considerar se o público tira ou não utilidade do