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respectivo raciocínio;
restringir-me-ei a representar em poucas palavras a V. M. o que é mais importante para conseguir a
vantagem de todos os súditos nas suas diversas condições.

CAPÍTULO II
DAS REFORMAS DA ORDEM ECLESIÁSTICA
SEÇÃO I
Que representa o mau estado em que a igreja estava no começo do reinado; estado em que está agora;
e o que é preciso fazer para pô-la no estado em que deve estar.

 Quando eu me lembro que vi, na minha mocidade, gentis-homens e outras pessoas laicas possuir por
legado, não somente a maior parte dos prioratos e abadias, mas também os curatos e bispados, e quando
considero que nos meus primeiros anos, a licença era tão grande nos mosteiros de homens e de mulheres
que neles não se achava nesse tempo senão escândalo, e maus exemplos, na maior parte dos lugares onde
justamente se devia procurar edificação, confesso que não tenho pouco consolo vendo que tais desordens
foram tão absolutamente banidas durante o reinado de V. M., que agora os legados e os desregramentos
dos mosteiros são mais raros que as possessões legítimas, e as religiões mais vivas do que não estavam
naquele tempo.

 Para continuar e aumentar esta bênção, V. M. não tem outra coisa a fazer, a meu ver, senão tomar um
cuidado particular preenchendo os bispados com pessoas de mérito e de vida exemplar; não dar abadias e
outros benefícios simples, de sua nomeação, senão a pessoas de probidade, privando da sua vista e de sua
graça aqueles que tenham uma vida livre, em tão santa condição; como é aquela que liga particularmente
os homens a Deus, castigando ainda exemplarmente aos escandalosos.

 Poder-se-ia propor muitos outros expedientes para a reforma do clero; mas desde que V. M. queira
observar essas quatro condições e tratar favoravelmente as pessoas de bem dessa profissão, satisfará ao
seu dever e tornará os eclesiásticos ao seu estado, ou tais quais devem ser, ou quando menos, tão
prudentes como com esforço podem tornar-se.

 Devo a propósito representar a V. M. que é preciso ter cuidado em não se enganar quanto à
capacidade dos bispos.

 Um pode ser sábio, pode ser capaz e no entanto achar-se mal no cargo, porque, além da ciência se
requer zelo, coragem, vigilância, caridade, atividade, tudo em conjunto.

 Não é suficiente ser honesto e homem de bem para ser um bom bispo, mas sendo bom para si próprio

Testamento político.

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é preciso, sobretudo, ser bom para os outros.

 Com facilidade aprendi que as pessoas de boa estirpe se contêm mais dificilmente no seu dever, e são
menos regulares na sua vida do que outras: muitos tocados por este temor, estimam que os doutores de
tão boa vida quanto baixo nascimento, são mais próprios a tais empregos, do que os que são de extração
mais alta; entretanto, várias coisas sobre este assunto há a considerar.

 Para ter um bispo a contento, era preciso que fosse sábio, cheio de piedade, de zelo, de boa estirpe;
porque de ordinário a autoridade requerida em tais cargos não se encontra senão em pessoas de
qualidade. Mas sendo difícil de encontrar todas estas condições numa mesma pessoa; direi sem temor
que os bons costumes, que sem contradição devem ser considerados mais que outras coisas, como
necessários; a qualidade e autoridade que de ordinário são companhia, devem ser preferidos à maior
ciência: Tendo freqüentemente visto pessoas doutas como péssimos bispos, ou impróprios a governar em
vista da baixeza da sua extração, ou porque vivessem em concubinato, tudo tendo relação com o seu
nascimento próprio a desenvolver a avareza; em lugar disso a nobreza que tem virtudes tem um particular
desejo de honras e de glórias, que produz o mesmo efeito que o zelo causado pelo puro amor de Deus;
que vem, de ordinário, com lustre e liberalidade conforme a tal cargo; e sabe melhor a maneira de agir e
de tratar com o mundo.

 É preciso sobretudo que um bispo seja humilde e caridoso, que tenha sabedoria, piedade, coragem
firme, e um zelo ardente para a igreja e para a salvação das almas a seu cargo.

 Aqueles que procuram os bispados por ambição e por interesse, para fazerem com eles fortuna, são de
ordinário os que fazem corte, a fim de obterem por importunação o que não poderiam obter pelo mérito;
também não devem ser escolhidos, senão quando previamente indicados por Deus; o que se conhece pela
sua maneira de vida diferente, conforme com a função eclesiástica que praticam nos seminários; e seria
muito útil que V. M. declarasse que não escolheria senão aqueles que tivessem passado um tempo
considerável depois dos seus estudos trabalhando na dita função nos seminários que são os lugares
estabelecidos para aprendê-la; não sendo razoável que o mais difícil, e o mais importante ofício do
mundo, se exerça sem que tenha aprendido, quando não é permitido exercer as menores e as mais vis
funções, sem vários anos de aprendizado.

 Depois de tudo, a melhor regra que se deve ter para esta escolha é não ter nenhuma regra geral, mas
escolher algumas vezes gente sábia, outras vezes pessoas menos letradas e mais nobres, gente moça em
algumas ocasiões, gente velha em outras, segundo tiverem os vários pretendentes condições consideradas
próprias ao governo.

 Sempre pensei assim, mas por mais que me quisesse servir de tais preceitos, confesso que várias vezes
me enganei; também é muito difícil que a gente não se engane em tais julgamentos pois que é difícil
senão quase impossível penetrar no interior dos homens ou fazer parar neles a sua inconstância.

 Os homens, em geral, mudando de condição mudam de humor, ou, por assim dizer, descobrem aquilo
que durante muito tempo tinham dissimulado a fim de obterem o que tinham em vista.

 Durante o tempo em que tal gente vive na miséria tem cuidado de aparentar boas qualidades que não
possui; mas logo que chegam àquilo que desejam não se constrangem mais, escondendo o que têm de

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mau e que foi seu natural sempre.

 Entretanto se se tomam precauções tais quais proponho, embora elas não satisfaçam sempre, não se
terá culpa diante de Deus e com audácia o digo, que V. M. não terá nada a temer, desde que escolhendo
com esta circunspeção obrigue os escolhidos a residir nas suas dioceses, estabelecer seminários para a
instrução dos seus eclesiásticos, fazer com que visitem seus rebanhos, como a isso os obrigam os
cânones. Assim V. M. lhes dará todos os meios de cumprir com os seus deveres com fruto.

 Falo assim, senhor, porque agora isso lhes é completamente impossível com as empresas que os
oficiais de V. M. têm feito todos os dias sobre a sua jurisdição.

 Seis coisas são igualmente a desejar, para que as almas que lhes são entregues, deles recebam toda a
assistência que devem esperar.

 Três dependem da vossa própria autoridade; uma de Roma simplesmente; e as duas outras de Roma e
de vossa autoridade conjuntamente.

 As três primeiras são os regulamentos das apelações e abusos, o dos casos privilegiados, e a supressão
da "regale" (imposto de clero) pretendida pela Santa Capela de Paris, sobre a maior parte dos bispados
deste reino; até que aqueles que V. M. nomear tenham feito o seu juramento de fidelidade.

 A quarta é um regulamento para a maior parte das sentenças requeridas pelos cânones para punição de
um crime cometido por um eclesiástico, a fim de que os culpados não possam, de futuro, isentar-se dos
castigos que merecem, pelos retardamentos das formalidades que se praticam.

 E as duas outras, que dependem da autoridade soberana da igreja e da de V. M. em conjunto, são as
isenções dos capítulos e o direito de apresentar os curas que têm diversos abades sob suas ordens e
diversos seculares.

 É preciso examinar distintamente todos estes pontos, um após outro.

SEÇÃO II
Das apelações como dos abusos e dos meios de regulamentá-los

 Não empreendo neste lugar a